Guilherme Paraense e a conquista do ouro olímpico para o Brasil
Atirador brasileiro superou dificuldades financeiras e logísticas em Antuérpia para iniciar trajetória olímpica do país com primeira medalha dourada de sua história
Há 142 anos, em 25 de junho de 1884, nascia o atirador esportivo Guilherme Paraense. Atleta do Fluminense Football Club, ele foi responsável pela conquista da primeira medalha olímpica de ouro do Brasil, obtida durante os Jogos Olímpicos de Antuérpia, em agosto de 1920.
O triunfo de Guilherme coroou uma epopeia de superação enfrentada pela equipe de tiro do Brasil. Os atletas se deparam com dificuldades financeiras e logísticas, sofreram atrasos, viajaram em trem aberto sob chuva torrencial e tiveram seus equipamentos roubados. Mesmo assim, conseguiram voltar para casa com três medalhas olímpicas.
Quem foi Guilherme Paraense
Nascido em Belém do Pará, Guilherme se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança. Ele seguiu carreira no Exército Brasileiro, ingressando na Escola Militar da Praia Vermelha e chegando à patente de tenente. Durante o treinamento no Exército, Guilherme demonstrou uma habilidade excepcional com armas de fogo, conseguindo acertar alvos com grande precisão.
A habilidade conduziu Guilherme a uma bem sucedida carreira esportiva, consagrando-o como um dos mais talentosos atiradores do país. Ele venceu os campeonatos brasileiros de tiro de 1913, 1914, 1915 e 1918. Guilherme foi um dos fundadores do Revólver Clube do Rio de Janeiro, que teve um papel importante na profissionalização dos atletas da modalidade. Ele também atuou como atleta do Fluminense Football Club.
Em 1920, o Brasil enviou pela primeira vez uma delegação para participar dos Jogos Olímpicos, que seriam realizados na cidade de Antuérpia, na Bélgica. Por seu ótimo desempenho, Guilherme foi convidado a integrar a equipe de tiro, composta ainda por Afrânio da Costa, Dario Barbosa, Sebastião Wolf, Fernando Soledade e Mário Maurity.

: Guilherme Paraense
Via Ministério da Defesa
Desventuras a caminho de Antuérpia
A delegação brasileira partiu rumo a Antuérpia em julho de 1920, a bordo do navio Curvelo. Eles viajaram na terceira classe, em condições precárias, sem subvenção. Tiveram de arcar com quase todas as despesas por conta própria. E os piores desafios — que quase impediram os brasileiros de competir — ainda estavam por vir.
Para desespero dos atletas, os tripulantes foram informados que alguns imprevistos atrasariam a chegada. A previsão era de que o navio somente aportaria em Antuérpia no dia 5 de agosto. Isso é, depois que as provas de tiro já estivessem encerradas.
Os atiradores bolaram um plano para tentar chegar a tempo. Quando o navio fez uma escala em Portugal, os atletas desembarcaram e tentaram pegar um trem de Lisboa até Paris. Só conseguiram lugar em um vagão descoberto. E tiveram que viajar debaixo de muita chuva. Na capital francesa, os atletas trocaram de composição rumo à Bélgica. Mas, ao término do trajeto, eles perceberam que suas armas e munições tinham sido roubadas.
Quando finalmente chegaram em Antuérpia, mais um problema: os brasileiros descobriram que as provas de tiro seriam disputadas no Campo de Beverloo, a 18 km de distância da cidade. E tiveram de correr contra o tempo. Exaustos, sem dormir ou comer de forma adequada, — e sem os equipamentos para competir — os brasileiros finalmente chegaram ao local da prova. Lá, conversaram com as demais delegações e fizeram amizade com dois atletas dos Estados Unidos – Alfred Lane e Raymond Bracken.
Sensibilizados com a história da viagem, os atiradores norte-americanos emprestaram dois mil cartuchos e duas pistolas Colt para que os brasileiros pudessem competir.
O Brasil no pódio
Apesar de todos os imprevistos e com tudo dando errado, os atiradores brasileiros foram responsáveis por um feito memorável: conquistaram três medalhas já na estreia olímpica do Brasil.
Em 2 de agosto de 1920, Afrânio da Costa conseguiu a medalha de prata na prova individual dos 50 metros de pistola livre. Tornou-se, assim, o primeiro atleta a ganhar uma medalha para o Brasil. No mesmo dia, o time brasileiro assegurou a medalha de bronze na prova por equipe.
No dia seguinte, 3 de agosto, Guilherme Paraense levaria o Brasil ao lugar mais alto do pódio. Ele fez 274 de 300 pontos possíveis na prova de tiro rápido, ficando dois pontos à frente do favorito, o norte-americano Raymond Bracken — o mesmo que havia lhe emprestado a pistola e a munição. Os norte-americanos chegaram a reclamar com a organização, mas o Comitê Olímpico Internacional não aceitou o apelo.
O Brasil competiu em outras duas modalidades em Antuérpia: esportes aquáticos (natação, polo aquático e saltos ornamentais) e remo. Entretanto, conquistou medalhas apenas no tiro esportivo. O país só voltaria a ganhar uma medalha de ouro olímpica 32 anos depois, quando Adhemar Ferreira da Silva bateu o recorde mundial no salto triplo durante os Jogos de Helsinque.
No caso do tiro esportivo, o jejum permanece. Até hoje, a medalha de Guilherme Paraense segue sendo o único ouro do país na modalidade. O Brasil conquistou uma segunda medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2016, quando Felipe Wu obteve a segunda colocação na prova de pistola de ar de 10 metros.
O Brasil terminou os Jogos de Antuérpia em 15º lugar no quadro de medalhas — terceira melhor marca da história, superada somente nos Jogos do Rio de Janeiro (13º) e Tóquio (12º).
Guilherme Paraense não voltaria a competir nos Jogos Olímpicos, mas teve novos triunfos no tiro. Venceu mais dois campeonatos brasileiros e se consagrou campeão sul-americano em 1922. O atleta também teve importante atuação política no país, participando da Revolução de 1930, que encerrou a República do Café com Leite e levou Getúlio Vargas ao poder.
Guilherme dá nome a uma arena em sua terra natal — um dos mais modernos ginásios da Região Norte do país. Afrânio da Costa também deu contribuições para o tiro esportivo. Ele conquistou mais duas medalhas (ouro e prata) nos Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, foi campeão carioca e brasileiro por diversas vezes e ajudou a fundar a Confederação Brasileira de Tiro Esportivo.
























