Hans Christian Andersen, o mestre dos contos de fadas
Escritor dinamarquês revolucionou área, criando obras-primas da literatura infanto-juvenil, imbuídas de crítica social e reflexões filosóficas
Há 151 anos, em 4 de agosto de 1875, falecia o escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen, ícone da literatura infanto-juvenil e um dos mais célebres autores de contos de fadas.
Superando uma juventude marcada pela pobreza e por humilhações, Andersen se consagrou como o grande renovador da literatura infantil, transformando os contos de fadas em uma sofisticada forma de expressão artística, combinando fantasia, humor, crítica social e reflexões psicológicas e filosóficas.
O escritor foi responsável por criar histórias quase onipresentes no imaginário popular, incluindo O Patinho Feio, A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Rei, A Rainha da Neve e O Soldadinho de Chumbo. Suas obras frequentemente são marcadas por referências autobiográficas, abordando questões que afligiam o autor, como a pobreza, o amor não correspondido, o sofrimento e a busca por reconhecimento.
A infância de Hans Christian Andersen
Hans Christian Andersen nasceu em 2 de abril de 1805, na cidade de Odense, na Dinamarca. Pertencia a uma família simples de trabalhadores urbanos, filho do sapateiro Hans Andersen e da lavadeira Anne Marie Andersdatter. Sua infância transcorreu em um país marcado por crises e dificuldades financeiras. Exaurido pelas Guerras Napoleônicas, o Estado dinamarquês chegou a decretar formalmente sua falência em 1813.
Apesar dos recursos limitados, o pai de Andersen era um homem culto e colecionava muitos livros. O menino cresceu ouvindo os contos de As Mil e Uma Noites, as comédias de Ludvig Holberg e as lendas folclóricas dinamarquesas, repletas de duendes, trolls e criaturas místicas.
Quando Andersen era pequeno, seus pais construíram um pequeno teatro de fantoches para entretê-lo. Eles também costumavam levar o menino às peças encenadas no Teatro de Odense. Essas experiências o fascinavam e tiveram profunda influência na criação do universo fantástico de suas histórias.
Precisando de dinheiro para sustentar a família, o pai de Andersen se alistou como mosqueteiro nas Guerras Napoleônicas. Ele adoeceu gravemente quando atuava na campanha da Holsácia e acabou falecendo em 1816. Sua morte foi um golpe duro para a família. Andersen, então com 11 anos, teve de trabalhar como aprendiz de tecelão e de alfaiate para ajudar a manter a casa.
Andersen nutria um forte desejo de trabalhar no teatro, mas sua mãe o pressionava a se tornar um operário qualificado. Em 1818, Anne Marie se casou novamente. Andersen não simpatizava com seu padrasto e o relacionamento conturbado alimentou ainda mais o desejo de sair da casa da mãe. Assim, aos 14 anos, ele deixou Odense e partiu sozinho para Copenhague, determinado a seguir o sonho de ser um artista.
Chegada a Copenhague e os primeiros passos
Andersen chegou a Copenhague com dinheiro contado e uma carta de recomendação escrita por Christian Iversen, um editor de Odense que era próximo de sua família. Ele tentou a sorte em uma audição no Teatro Real Dinamarquês, mas foi vetado pela célebre bailarina Margrethe Schall.
Apesar da negativa, Andersen estava decidido a permanecer na cidade em busca de oportunidades. Carismático, ele contaria com o auxílio de várias pessoas — incluindo o maestro Giuseppe Siboni, que o convidou para alguns recitais. Em sua infância, Andersen possuía uma voz bela e cristalina, que lhe granjeou o apelido de “pequeno rouxinol”. Com a puberdade, no entanto, sua voz ficou mais estridente e começou a oscilar, inviabilizando uma possível carreira como cantor.
Andersen viveu em Copenhague por três anos, mas o máximo que conseguiu nesse período foram alguns trabalhos menores como figurante em peças de teatro. Decidiu tentar então a carreira de dramaturgo, escrevendo as peças Os Ladrões de Vissenberg e Alfsol, mas ambas foram severamente criticadas e recusadas.
Em 1822, compadecido do infortúnio do jovem e convencido de seu potencial, Jonas Collin, um dos diretores do Teatro Real Dinamarquês, ofereceu a Andersen uma bolsa de estudos para que ele concluísse o ensino básico em uma escola de Slagelse.
Andersen posteriormente se referiria a essa experiência como “a fase mais sombria e amarga” de sua vida. Sob a severa tutela do diretor Simon Meisling, o jovem escritor foi submetido a perseguições, maus-tratos e abusos físicos e psicológicos. A convivência com os outros alunos também era problemática. Andersen era mais velho, alto, desengonçado, excêntrico e tinha trejeitos lidos como “femininos”. Não demorou para que se tornasse alvo de agressões, intimidações e zombaria.
Em 1827, após alertar Collin sobre os maus-tratos, Andersen foi retirado da escola e retornou para Copenhague, passando então a ter aulas particulares até concluir sua formação. Em 1828, ele foi aprovado nos exames admissionais da Universidade de Copenhague, onde estudou filosofia e filologia.
A carreira literária
Em paralelo aos estudos, Andersen começou a escrever poemas, peças de teatro, romances e relatos de viagem. Talentoso e amparado por bons patronos, ele foi construindo uma boa reputação nos meios literários dinamarqueses.
Em 1829, Andersen publicou Viagem a Pé do Canal de Holmen à Ponta Leste de Amager, uma narrativa de viagem satírica, com elementos fantásticos e comentários filosóficos, inspirada pela tradição romântica de E.T.A. Hoffmann. A obra despertou a atenção da crítica e marcou o efetivo início da carreira de Andersen como escritor profissional.
No mesmo ano, Andersen escreveu Amor na Torre Nicolai, peça que foi encenada no Teatro Real de Copenhague. No ano seguinte, ele publicou sua primeira coletânea de poemas. O relativo êxito dessas primeiras obras e a concessão de uma bolsa do governo dinamarquês permitiram que o autor iniciasse um périplo pela Europa, viajando por Alemanha, França e Itália.
As viagens expuseram Andersen a novas possibilidades narrativas e ampliaram o seu repertório artístico. Em 1835, ele publicou O Improvisador, um romance de forte inspiração autobiográfica, repleto de descrições exuberantes da paisagem italiana e passagens de forte intensidade emocional. O livro se tornou um sucesso e consagrou Andersen como um dos grandes romancistas dinamarqueses.
O autor publicou outros dois importantes romances na década de 1830, intitulados OT e Apenas um Violinista. Ao lado de O Improvisador, essas obras integram uma espécie de trilogia do “romance de artista”, abordando protagonistas de origem humilde que lutam para conquistar um lugar na sociedade, mas que são forçados a lidar com preconceitos, barreiras sociais e crises existenciais.

Hans Christian Andersen em 1869. Fotografia de Thora Hallager
via Wikimedia Commons
Os contos de fadas
Ainda em 1835, Andersen publicou Contos de Fadas para Crianças, sua primeira coletânea de histórias infantis. O autor pretendia aproveitar o crescente mercado editorial infantil para obter uma renda adicional, mas não imaginava que aqueles contos o transformariam em um autor universalmente celebrado.
O primeiro volume de Contos de Fadas para Crianças trazia histórias como O Isqueiro Mágico, A Princesa e a Ervilha, Pequeno Claus e Grande Claus e As Flores da Pequena Ida. O livro foi um sucesso imediato, levando o autor a publicar novas coletâneas de contos entre 1837 e 1841. Surgiram assim obras magistrais como O Patinho Feio, A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Rei, O Soldadinho de Chumbo e Os Cisnes Selvagens.
Os contos de Andersen revolucionaram a literatura infantil. Rejeitando o formalismo didático que caracterizava as obras da sua época, ele buscou empregar uma linguagem coloquial e realista, rica em nuance e de profunda sensibilidade artística, combinando humor, ironia, fantasia e lirismo. Sob narrativas aparentemente simples, o autor introduzia reflexões psicológicas e filosóficas sobre a condição humana, a exclusão social, o sofrimento, a busca pela identidade, a vaidade e a morte.
Diferentemente dos irmãos Grimm, que coletavam e adaptavam contos folclóricos antigos, Andersen priorizava a criação de histórias originais, muitas vezes inspiradas em sua própria vida ou elaboradas a partir das tradições orais dinamarquesas.
Esse caráter autobiográfico da literatura de Andersen pode ser claramente observado em O Patinho Feio, por exemplo. Ao narrar a história de um filhote que é rejeitado por ser diferente dos demais, o conto evoca a própria juventude do autor, que costumava ser ridicularizado por sua aparência, por sua origem social e por suas ambições artísticas.
A pobreza ocupa um lugar central na obra de Andersen. Tendo experimentado dificuldades econômicas desde a infância, o autor frequentemente criava personagens que viviam à margem da sociedade e enfrentavam a indiferença dos privilegiados — temática visível em A Pequena Vendedora de Fósforos.
A dificuldade para se integrar à sociedade e as paixões não correspondidas também são temas recorrentes. Diversos protagonistas de Andersen são personagens deslocados, incompreendidos, incapazes de encontrar seu lugar no mundo e que sofrem por amores impossíveis, a exemplo do que ocorre em “A Pequena Sereia” e “O Soldadinho de Chumbo”.
A solidão, o isolamento emocional e a perda da inocência também são temas tratados em obras como A Rainha da Neve. Já em A Roupa Nova do Rei, o autor satiriza a hipocrisia existente nos círculos intelectuais e políticos europeus, ao mesmo tempo em que constrói uma poderosa metáfora sobre a manipulação, o conformismo e os perigos da vaidade.
Reconhecimento internacional e obras posteriores
Os contos infantis de Andersen se tornaram fenômenos de popularidade e começaram a ser traduzidos para várias línguas. O crítico francês Xavier Marmier ajudou a impulsionar a fama internacional do autor, publicando um artigo na Revue de Paris, acompanhado de uma tradução do poema A Criança Moribunda.
A partir da década de 1840, já consagrado como um grande autor, o dinamarquês empreendeu uma série de viagens pela Europa e pelo Norte da África, travando contato com personalidades como Victor Hugo, Alexandre Dumas, Heinrich Heine, Franz Liszt, Felix Mendelssohn, Richard Wagner e Charles Dickens.
Além dos contos infantis, Andersen seguiu produzindo obras de outros gêneros. Em 1840, escreveu a peça de teatro O Mulato, texto de forte teor político, abordando temas como escravidão, preconceito racial e identidade cultural. Em 1848, publicou o romance As Duas Baronesas, com reflexões sobre a aristocracia e as mudanças sociais da Dinamarca do século 19.
Andersen também produziu crônicas de viagens (O Bazar de um Poeta, Na Espanha, Na Suécia) e libretos de ópera Liden Kirsten, em parceria com Johan Peter Emilius Hartmann). Na maturidade, iniciou uma fase marcada pelo experimentalismo, com tramas de tom mais melancólico e uma abordagem mais filosófica, como Ser ou Não Ser (1857) e Lykke-Peer (1870).
O sucesso de Andersen na carreira artística contrastava com a frustração em relação à sua vida amorosa. O escritor nunca se casou, não teve filhos e passou boa parte da vida alimentando amores platônicos e não correspondidos, tanto por homens quanto por mulheres. Seus diários revelam uma personalidade extremamente sensível, insegura e frequentemente marcada pelo medo da rejeição.
Ainda na juventude, Andersen se apaixonou por Riborg Voigt, irmã de um de seus amigos, mas a moça já estava comprometida. Ele também nutriu uma paixão pela cantora de ópera Jenny Lind, conhecida como Rouxinol Sueco. O escritor chegou a pedi-la em casamento, mas foi rejeitado.
Entre os homens, destaca-se o amor platônico que nutriu por Edvard Collin, filho de seu patrono, Jonas. Alguns autores também afirmam que Andersen teve um relacionamento amoroso com o bailarino Harald Scharff. Essa experiência teria servido de inspiração para o conto O Boneco de Neve, melancólica história de um boneco de neve que derrete após se apaixonar por um fogão a lenha.
Na década de 1870, a saúde do escritor começou a declinar. Uma grave queda agravou seu quadro e reduziu significativamente sua capacidade de viajar e trabalhar. O dinamarquês passou então a viver de forma mais reservada, cercado por um pequeno grupo de amigos.
Hans Christian Andersen faleceu em 4 de agosto de 1875, aos 70 anos, vitimado por um câncer. O legado do escritor compreende mais de 150 contos, incluindo várias obras-primas da literatura infantil, e até hoje segue inspirando a criação de canções, filmes, óperas e peças de teatro. A data do seu aniversário, 2 de abril, é celebrada como o Dia Internacional do Livro Infantil. Ele também empresta seu nome ao Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante galardão literário direcionado às obras infanto-juvenis.























