Henrique Alvim Corrêa e a Guerra dos Mundos
Pintor brasileiro foi responsável pelo retrato de alienígenas e cenas de destruição na edição de um dos livros mais importantes de ficção científica, escrito pelo britânico H. G. Wells
Poucos livros tiveram tanta importância para o universo da ficção científica quanto “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico H. G. Wells. A obra, uma das primeiras a imaginar um conflito travado entre a humanidade e seres extraterrestres, foi adaptada centenas vezes, em diversos formatos.
O que poucas pessoas sabem é que um brasileiro teve uma importante contribuição para essa história. Em 1903, o artista carioca Henrique Alvim Corrêa criou uma série de 132 ilustrações que foram efusivamente elogiadas por Wells e publicadas em uma edição especial de A Guerra dos Mundos.
As ilustrações de Henrique antecipavam ideias que se tornariam comuns na representação gráfica da ficção científica. Das máquinas colossais com tentáculos ameaçadores à representação das cidades devastadas, Henrique ajudou a construir o imaginário iconográfico que até hoje ecoa nas obras sobre invasões alienígenas.
Quem foi Henrique Alvim Corrêa
Henrique Alvim Corrêa nasceu no Rio de Janeiro há exatos 150 anos, em 30 de janeiro de 1876. Órfão de pai aos sete anos de idade, tornou-se enteado do barão José Mendes de Oliveira Castro, um rico comerciante estreitamente ligado ao governo imperial.
Após a proclamação da república em 1889, o barão seguiu os monarcas brasileiros rumo ao exílio na Europa, mudando-se com sua família para Lisboa e posteriormente fixando-se em Paris.
Na capital francesa, o jovem Alvim Corrêa deu vazão ao seu interesse pelas artes, manifestado desde a infância. Em 1893, matriculou-se no ateliê de Édouard Detaille, célebre pintor de batalhas. Dois anos depois, passou a ter aulas com Jean Brunet, especializado em pintura de cenas históricas.
Alvim Corrêa não tardou em estabelecer uma boa reputação como pintor de temas militares. Em 1897, já estava expondo no Salão de Paris, recebendo fartos elogios do público e da crítica especializada por suas telas retratando a Guerra Franco-Prussiana.
Destacou-se igualmente pelos esboços acurados criados como preparativos para um monumental painel circular intitulado “O Cerco à Cidade de Paris”, onde explorou de forma minuciosa os detalhes topográficos da paisagem.
As obras de temática militar de Alvim Corrêa se diferenciavam das pinturas de batalhas tradicionais por seu influxo naturalista, substituindo a glamourização ufanista da guerra por representações mais sóbrias, melancólicas, pontuadas por referências ao custo humano dos conflitos.
Em 1898, Alvim Corrêa se casou com Blanche Barbant, filha do gravador Charles Barbant, conhecido por ilustrar as obras de Júlio Verne. Mudou-se em seguida para a Bélgica, instalando seu ateliê em Boitsfort, nos arredores de Bruxelas, e se dedicou a produzir aquarelas e desenhos de estética pré-moderna, sob influência do decadentismo.
A necessidade de sustentar a família após o nascimento do primeiro filho, entretanto, limitou sua experimentação no campo artístico. Alvim Corrêa passou a criar obras mais convencionais, trabalhou com decoração mural e produziu cartazes publicitários.
A Guerra dos Mundos
Em 1903, Alvim Corrêa teve contato com A Guerra dos Mundos, livro do escritor britânico Herbert George Wells. Publicado pela primeira vez em 1897, a obra tem como enredo a invasão da Terra por tropas alienígenas, equipadas com avançadas máquinas assassinas capazes de devastar a vida no planeta.
O livro se tornou um dos mais influentes romances de ficção científica da história, inspirando gerações de escritores. Alvim Corrêa se encantou tanto por A Guerra dos Mundos que decidiu criar uma série de ilustrações baseadas no livro.
O artista brasileiro produziu 132 desenhos, todos trabalhados com muito esmero, marcados pelo uso hábil da perspectiva e da profundidade, pela suavidade das oposições tonais e pelo contraste de luz e sombra.
Alvim Corrêa expressou com maestria a atmosfera de fascínio, suspense e terror presente na história de Wells. Seus desenhos retratavam com riqueza de detalhes as criaturas alienígenas e as cenas de destruição provocadas por elas, transmitindo toda a angústia da narrativa.
Repletas de dinamismo e povoadas por seres fantásticos imersos em paisagens pós-apocalípticas, as ilustrações de Alvim Corrêa evocavam a poética simbolista e antecipavam em décadas elementos visuais que seriam empregados pelos surrealistas.
Após concluir os desenhos, Alvim Corrêa viajou para Londres, a fim de mostrá-los ao próprio Wells. O escritor britânico ficou tão impressionado com os desenhos que convidou o artista brasileiro para ilustrar uma edição de luxo de “A Guerra dos Mundos”, a ser publicada pela editora L. Vandamme, com tradução do literato Henry Davray.
Alvim Corrêa se encarregou de transpor os desenhos para matrizes tipográficas e os imprimiu em sua oficina. A edição especial de “A Guerra dos Mundos” foi lançada em 1906, trazendo 32 das ilustrações de Alvim Corrêa. A obra foi bastante elogiada pela crítica e rendeu ao artista um convite para realizar uma exposição individual no Salle Boute de Bruxelas.

Um marciano enfrenta um navio de guerra em ilustração de Alvim Corrêa para “A Guerra dos Mundos”
Morte e legado de Alvim Corrêa
Mas ao mesmo tempo em que colhia os frutos de sua obra mais notável, Alvim Corrêa também começava a padecer de seu maior infortúnio. Acometido pela tuberculose, o artista teve de se mudar para a Suíça, onde permaneceu por um longo período em tratamento médico.
De volta à Bélgica, o pintor seguiu produzindo desenhos, ilustrações e caricaturas. Também escreveu peças de teatro e publicou textos teóricos sobre arte. Suas obras favoritas, entretanto, eram as paisagens fantásticas, cenários imaginários e oníricos, criados sob uma atmosfera sombria e enigmática.
Em seus últimos anos de vida, Alvim Corrêa se dedicou à arte erótica, criando uma série de desenhos intitulada “Visions Érotiques”, sob o pseudônimo “Henri Lemort” (“Henri, o Morto”). Publicada postumamente em 1985 em Nuremberg, a série integra o compêndio de obras-primas da arte erótica do século XX.
Henrique Alvim Corrêa faleceu em Bruxelas em 7 de junho de 1910, com apenas 34 anos de idade. Seu corpo foi trasladado para o Brasil e sepultado no Rio de Janeiro.
Apesar da trajetória breve, o artista deixou um legado de enorme importância para o mundo das artes e da ficção científica. Uma contribuição reconhecida pelo próprio H. G. Wells. Ao ser informado sobre a morte do artista, o autor britânico declarou que “Alvim Corrêa fez mais pelo meu trabalho com seu pincel do que eu com minha caneta”.
As ilustrações de Alvim Corrêa para “A Guerra dos Mundos” seguem até hoje como referenciais da arte fantástica, explorando protótipos iconográficos que foram fartamente utilizados pela arte ulterior, dos quadrinhos ao cinema, e que ajudaram a criar a concepção de mundos oníricos no imaginário popular.
Apesar de sua importância, Henrique Alvim Corrêa permaneceu desconhecido pelo público brasileiro por décadas. E mesmo na Europa, parte substancial de sua produção foi perdida.
Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, tropas alemãs atacaram seu ateliê em Bruxelas e destruíram quase todas suas obras de temática militar. E em 1942, durante a Segunda Guerra, um navio que transportava suas obras gráficas para o Brasil foi torpedeado por um submarino alemão e naufragou no Atlântico.
Seu legado voltou a ser valorizado a partir da década de 1960, em meios às pesquisas conduzidas por José Roberto Teixeira Leite. Nos anos 70, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) incluíram pela primeira vez o artista em suas mostras.























