Horror nazista no Gueto de Lodz
Criado durante a ocupação nazista da Polônia, bairro funcionou como um campo de trabalho escravo para mais de 100 mil judeus
Há 81 anos, em 19 de janeiro de 1945, as forças soviéticas libertavam os sobreviventes do Gueto de Lodz, na Polônia. Instituído em 1940, Lodz foi o segundo maior gueto nazista da Europa, atrás apenas de Varsóvia. Mais de 210 mil pessoas foram encarceradas no local, sobretudo judeus poloneses e romanis.
O gueto funcionava como uma espécie de campo de trabalho escravo, produzindo fardas, calçados e equipamentos para o esforço de guerra alemão. Entre 1941 e 1944, a maioria dos habitantes do gueto foi realocada e assassinada nos campos de extermínio. Quando o Exército Vermelho libertou Lodz, restavam menos de 900 sobreviventes.
A invasão nazista
Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Polônia abrigava a maior comunidade judaica da Europa e a segunda maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Cerca de 3,3 milhões de judeus viviam no país, representando aproximadamente 10% da população polonesa.
Essa forte presença refletia o histórico de relativa tolerância que o país possuía em relação aos judeus. Por muito tempo, a Polônia serviu como um refúgio para as comunidades judaicas perseguidas nos pogroms do Leste Europeu. Cidades como Varsóvia e Lodz tornaram-se centros vibrantes da cultura judaica, congregando inúmeras instituições religiosas, educacionais e culturais.
A ascensão do nacionalismo chauvinista e das tendências fascistas no período entreguerras trouxe tensões para os judeus poloneses. Utilizada como bode expiatório para justificar as dificuldades do país, a comunidade judaica foi submetida a um ambiente de crescente assédio e exclusão. O mais grave, no entanto, ainda estava por vir.
Imediatamente após a invasão da Polônia em 1939, os ocupantes nazistas instituíram uma violenta política de repressão e segregação dos habitantes judeus. Lodz, um dos mais importantes centros industriais do país, converteu-se em um dos cenários da barbárie nazista. A cidade possuía aproximadamente 665 mil habitantes, dos quais 233 mil — ou um terço da população — eram judeus.
O Gueto de Lodz
Os alemães anexaram a cidade de Lodz aos territórios reivindicados pelo Terceiro Reich, integrando-a ao chamado “Reichsgau Wartheland”. Em seguida, os oficiais nazistas reservaram um distrito para confinar a população de origem judaica.
A ordem para criar o gueto foi dada por Friedrich Übelhör, um dos comandantes da Schutzstaffel (SS). Para intimidar a população e forçá-la ao deslocamento, os alemães perpetraram uma série de chacinas e massacres — destacando-se a “Quinta-Feira Sangrenta”, quando 350 judeus foram assassinados.
O gueto foi montado no bairro de Baluty, nos arredores da Cidade Velha. Em abril de 1940, quando o distrito já concentrava mais de 160 mil judeus, os alemães mandaram erguer muros e cercas de arame farpado, separando o gueto do resto da cidade.
O Gueto de Lodz foi o segundo maior gueto criado pelos alemães durante a ocupação nazista da Polônia, atrás apenas do Gueto de Varsóvia. Ao todo, mais de 210 mil judeus foram confinados no local durante a Segunda Guerra Mundial.
Além da população judaica de Lodz, o gueto também recebeu judeus de outras cidades da Polônia e até de outros países, sobretudo Alemanha e Áustria. Civis de outras minorias étnicas também foram enviados para o Gueto de Lodz, sobretudo romanis.
As condições de vida no gueto eram extremamente precárias. O espaço era superlotado, com uma população enorme confinada em apenas quatro quilômetros quadrados. A população do gueto era forçada a viver em habitações insalubres, com água e comida escassas, submetida à violenta repressão das forças policiais. A fome e as doenças ceifavam milhares de vidas.
Os cativos também eram utilizados como mão de obra escrava, produzindo suprimentos para o esforço de guerra alemão. A partir de 1941, com a implementação da “solução final” e da política de genocídio da população judaica, os cativos de Lodz começaram a ser deportados para campos de extermínio — sobretudo os campos de Chelmno e Auschwitz, onde a grande maioria foi assassinada.
A colaboração de Chaim Rumkowski
A princípio, a administração do gueto ficou a cargo de Johann Moldenhauer. Posteriormente, Hans Biebow, um comerciante oriundo de Bremen e dirigente do Partido Nazista, assumiu a gestão.
O gueto era vigiado por batalhões da “Orpo”, a força policial da Alemanha nazista, e pela Polícia dos Guetos. A gestão interna do espaço era feita em conjunto com o Conselho Judeu — órgão responsável por intermediar o contato entre os cativos e os nazistas.
A presidência do conselho foi entregue a Chaim Rumkowski, um empresário judeu nomeado diretamente pelos nazistas. Rumkowski buscou negociar a sobrevivência da comunidade judaica em Lodz através da cooperação irrestrita com os alemães.
Convertido em braço direito de Hans Biebow, o líder judeu estabeleceu uma gestão autoritária, permeada por abusos e violência contra os cativos. Rumkowski chegou a acionar tropas alemãs para reprimir greves e revoltas de judeus no gueto. Ele foi acusado de cometer abuso sexual e de priorizar a distribuição de alimentos para os seus aliados. Também era conhecido por indicar opositores e desafetos para as listas de prisioneiros a serem deportados para os campos de extermínio.
Rumkowski é conhecido por um infame discurso, apelidado de “Deem-me seus filhos”, em que exortava os cativos a entregarem as crianças aos nazistas, após ser pressionado a diminuir a quantidade de prisioneiros “dispensáveis” e aumentar a produtividade no gueto. Algumas famílias, relutando em entregar seus filhos à morte, preferiram cometer suicídio.

Crianças judias no Gueto de Lodz em 1940 Bundesarchiv / Wikimedia Commons
Aniquilação
Rumkowski teve um papel importante na transformação do Gueto de Lodz em um centro industrial, voltado à fabricação de suprimentos de guerra. Ele acreditava que, caso o gueto se destacasse como um centro fabril relevante para os alemães, havia a possibilidade dos judeus de Lodz serem poupados do extermínio.
Para isso, instituiu uma exaustiva rotina de trabalho de 12 horas por dia e manteve 117 oficinas ativas, produzindo desde uniformes até equipamentos elétricos para os militares.
A produtividade dos cativos, de fato, adiou o extermínio. O Gueto de Lodz foi o último gueto polonês a ser fechado. A ideia de que a alta produtividade salvaria a vida dos cativos, entretanto, provou-se ilusória.
Em meados de 1944, alarmado pelo avanço das tropas soviéticas na Frente Oriental, Heinrich Himmler, comandante militar da SS, ordenou a aniquilação do gueto. Iniciou-se a deportação em massa dos cativos, com dezenas de milhares de judeus sendo enviados para os campos de extermínio.
Nem mesmo Chaim Rumkowski foi poupado. Ele foi enviado para o campo de Auschwitz, onde foi linchado até a morte por judeus que o consideravam um colaborador do Holocausto. A família de Rumkowski foi morta pelos nazistas nas câmaras de gás.
Em janeiro de 1945, as tropas da União Soviética deram início à Ofensiva de Vistula-Oder — a maior operação militar conduzida na Frente Oriental desde a Operação Bagration. Liderada por Georgy Júkov e Ivan Konev, a operação mobilizou mais de 2,2 milhões de soldados do Exército Vermelho e do Exército Popular da Polônia contra as tropas nazistas.
Os soviéticos se deslocaram por 483 quilômetros, cobrindo a distância entre a linha polonesa paralela ao Rio Vístula e o Rio Oder, na Alemanha. Conforme avançavam, libertavam os judeus aprisionados nas instalações nazistas. Em 19 de janeiro de 1945, os soldados do Exército Vermelho chegaram a Lodz e libertaram os derradeiros prisioneiros do gueto. Restavam apenas 877 sobreviventes, incluindo 12 crianças.




















