Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Há 31 anos, em 16 de abril de 1995, o ativista Iqbal Masih, um menino de apenas 12 anos, era assassinado a tiros no Paquistão.

Iqbal Masih tinha apenas quatro anos de idade quando foi entregue ao trabalho escravo em uma fábrica de tapetes na região de Punjab. Ele permaneceu escravizado por seis anos, trabalhando 14 horas por dia, sete dias por semana, acorrentado a um tear e submetido a espancamentos e agressões diárias.

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Aos 10 anos de idade, Iqbal conseguiu fugir da fábrica. Ele se tornou um ativista da Frente de Libertação do Trabalho Escravo, dedicando-se a denunciar a exploração de crianças na indústria têxtil do Paquistão.

As ações de Iqbal Masih ajudaram a libertar 3.000 crianças e fortaleceram a luta mundial contra o trabalho escravo, mas também despertaram a fúria dos empresários paquistaneses, incomodados com o boicote à indústria local de tapetes.

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Ativista ajudou a libertar 3.000 crianças da exploração na indústria têxtil do Paquistão, contribuindo assim para fortalecer a luta mundial contra o trabalho escravo

Escravidão por dívidas

Iqbal Masih nasceu em 1º de janeiro de 1983 em Muridke, uma cidade nos arredores de Lahore, no Paquistão. Descendia de uma família de católicos punjabis, filho do operário Saif Masih e da faxineira Inayat Bibi. Viviam em situação de extrema pobreza, dividindo uma casa precária de apenas dois cômodos. O pai abandonaria o lar alguns anos depois do nascimento de Iqbal, agravando ainda mais a situação da família.

Em 1986, Saif contraiu um empréstimo para financiar a festa de casamento de seu filho mais velho. O empréstimo foi concedido por Ashad, proprietário de uma fábrica de tapetes da região. Em troca de 600 rúpias, o equivalente a 12 dólares norte-americanos, Saif ofereceu seu próprio filho, Iqbal, como garantia de pagamento.

Essa prática persiste até hoje no Paquistão, sobretudo nas províncias de Punjab e Sindh. É chamada de “peshgi”, um sistema de escravidão por dívidas. Sem acesso ao crédito bancário, famílias pobres são forçadas a pedir dinheiro emprestado para os “thekedars”, os donos de olarias, fábricas e grandes oficinas de tecelagem. Para pagar o empréstimo, as famílias oferecem o próprio trabalho ou de seus filhos.

A dívida nunca é quitada. Juros abusivos, “multas” por erros, custos fictícios com alimentação, moradia e ferramentas fazem o valor crescer exponencialmente, inviabilizando o pagamento.

Um estudo divulgado em 2023 pela organização Walk Free estima que ao menos 2,3 milhões de pessoas ainda vivem escravizadas pelo sistema de peshgi no Paquistão. Em algumas regiões do país, operários escravizados chegam a responder por até 80% da força de trabalho.

Uma infância roubada

Iqbal Masih tinha apenas quatro anos de idade quando seu pai o entregou para o trabalho escravo. Ele permaneceu em treinamento por um ano, sem receber nenhum tipo de pagamento em dinheiro. Após esse período, começou a trabalhar na tecelagem, recebendo o equivalente a uma rúpia por dia — dois centavos de dólar.

A dívida inicial contraída por Saif logo foi multiplicada em mais de 20 vezes, chegando a 13.000 rúpias. Para Iqbal, o resultado seria trágico. Ele passaria a infância inteira trabalhando em condições desumanas e sofrendo abusos cotidianos.

Todos os dias, Iqbal acordava às 4 horas da manhã e se dirigia para a fábrica de Ashad. O menino trabalhava 14 horas por dia, sete dias por semana, com intervalos de no máximo 30 minutos. Assim como as outras crianças, Iqbal era acorrentado aos teares, localizados em galpões sujos, sufocantes e mal ventilados. As reclamações sobre os maus tratos e a recusa em trabalhar eram punidas com espancamentos.

A comida oferecida aos trabalhadores era insuficiente e de baixa qualidade — em geral, apenas uma pequena porção de arroz ou lentilhas. Iqbal desenvolveu diversos problemas de saúde, incluindo distúrbios respiratórios. A desnutrição e o trabalho pesado estagnaram seu crescimento. Aos 12 anos, Iqbal media menos de 1,20 metro e pesava cerca de 20 quilos — o tamanho e o peso médio de uma criança de seis anos.

Seu corpo era repleto de cicatrizes. Quando os dedos sangravam de tanto trabalhar no tear, o capataz selava as feridas jogando óleo escaldante. As crianças também eram punidas com açoites e pauladas sempre que o dono da fábrica estava descontente com a baixa produtividade.

A fuga e a ação política na BLLF

Em março de 1992, a Suprema Corte do Paquistão declarou que o trabalho escravo por dívida era ilegal — uma decisão que seria regulamentada pela Lei de Abolição do Trabalho Escravo, promulgada no mesmo ano.

Para difundir o conhecimento sobre a nova legislação, uma organização chamada Frente de Libertação do Trabalho Forçado (BLLF no acrônimo em inglês) passou a afixar cartazes e distribuir panfletos e cartilhas nas regiões do Paquistão onde a prática do “peshgi” ainda era prevalente.

Foi através dos materiais da BLLF que Iqbal descobriu que estava sendo vítima de um crime. O menino, então com 10 anos de idade, conseguiu fugir da tecelagem acompanhado por alguns colegas e procurou a polícia para denunciar o patrão. Os policiais, entretanto, decidiram ignorar a legislação e devolveram as crianças para a fábrica de Ashad.

Como punição pela fuga, Iqbal foi espancado e pendurado de cabeça para baixo. O patrão advertiu que, caso tentasse fugir novamente, o menino seria jogado em óleo fervente. Apesar das ameaças, Iqbal fugiu de novo. Dessa vez, ao invés de procurar a polícia, ele buscou ajuda em um posto da BLLF.

Acolhido pela organização, Iqbal recebeu atendimento médico e foi matriculado em uma escola para crianças resgatadas do trabalho escravo. Estudioso e dedicado, ele concluiu o primeiro ciclo de ensino básico em apenas dois anos e se voluntariou a participar das campanhas de conscientização da BLLF.

Ao lado de outros ativistas, Iqbal viajou pelos vilarejos paquistaneses, conversando com outras crianças e seus familiares. Ele deu depoimentos comoventes à imprensa sobre os maus tratos que sofria na tecelagem e se tornou o principal rosto da luta contra o trabalho escravo infantil no país.

A história de Iqbal correu o mundo. Em 1994, ele viajou para os Estados Unidos e para a Europa, participando de uma série de conferências e palestras em escolas. Suas ações inspiraram a criação de projetos como o “Our Dollars for Our Future” e iniciativas internacionais como a campanha “Free the Children”.

As denúncias e iniciativas encabeçadas por Iqbal ajudaram a libertar mais de 3.000 crianças do trabalho escravo no Paquistão. Ciente da importância da campanha desenvolvida pela BLLF, Iqbal comparou Ehsan Ullah Khan, o fundador da organização, a Abraham Lincoln. Em certa ocasião, indagado sobre o impacto de suas ações, o jovem declarou: “Eu costumava ter medo do meu patrão, mas agora são eles que têm medo de mim”.

Em mais de uma ocasião, Iqbal afirmou que queria se tornar advogado, a fim de seguir ajudando na libertação das crianças. Esse sonho, no entanto, seria abruptamente interrompido em abril de 1995.

Iqbal Masih em 1992.
Wikimedia Commons

O assassinato

A campanha global de Iqbal Masih o transformou em alvo da chamada “máfia dos tapetes” — consórcio criminoso que lucrava bilhões de dólares com o trabalho escravo. As denúncias do menino causaram uma queda abrupta na exportação de tapetes paquistaneses e Iqbal passou a receber ameaças de morte.

Iqbal Masih foi assassinado em 16 de abril de 1995, um domingo de Páscoa. Ele estava andando de bicicleta com seus amigos em Muridke quando foi atingido nas costas por tiros de espingarda.

A morte de Iqbal causou indignação e comoção. Mais de 800 pessoas compareceram ao seu funeral. Na cidade vizinha de Lahore, um protesto reuniu milhares de manifestantes exigindo o fim do trabalho infantil.

A BLLF imediatamente responsabilizou os fabricantes de tapetes pela morte de Iqbal e publicou as ameaças que o menino vinha recebendo. Preocupadas com o impacto da notícia na venda de tapetes, as autoridades paquistanesas negaram a participação de empresários no crime.

Os policiais disseram que um pequeno agricultor da região chamado Ashraf Hero era o assassino. O homem foi preso, espancado e torturado para que confessasse o crime, mas não havia nenhuma evidência que o ligasse ao assassinato. A própria Comissão de Direitos Humanos do Paquistão publicou um relatório referendando sua inocência. Ashraf foi levado a julgamento, mas acabou inocentado por falta de provas.

Os assassinos de Iqbal Masih até hoje não foram identificados ou punidos. Os ativistas da luta contra a escravidão, por sua vez, passaram a ser perseguidos. A imprensa paquistanesa moveu uma campanha de vilanização contra a BLLF e vários membros da organização foram alvos de inquéritos criminais.

Iqbal Masih foi laureado com o Prêmio Mundial pelos Direitos da Criança. Ele empresta seu nome a uma fundação educacional e a um prêmio de combate ao trabalho infantil concedido pelo Congresso dos Estados Unidos. Em 2022, o governo do Paquistão o condecorou postumamente com a Tamgha-e-Shujaat, a Medalha da Bravura.