Terça-feira, 3 de março de 2026
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Ele atuou no maior laboratório de física de partículas do mundo e no Grande Colisor de Hádrons. Passou pelos centros de pesquisa mais prestigiados da Europa e ajudou a formar estudantes em uma das áreas mais fundamentais da ciência contemporânea.

Quase sempre a vinda de um professor com tal currículo seria algo valorizado. Mas no caso do físico argelino Adlène Hicheur, ocorreu o oposto. O cientista foi arrancado de sua sala de aula na UFRJ, escoltado pela Polícia Federal até o aeroporto do Galeão e banido do Brasil, sem ter sequer a chance de se defender.

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O motivo da expulsão? Hicheur foi acusado de ser um terrorista em uma reportagem da revista Época, dando início a um escândalo midiático. As investigações, concluídas somente após a expulsão do cientista, negaram a sua participação em atividades criminosas.

Hicheur na França

Nascido em Sétif, na Argélia, em 4 de dezembro de 1976, Adlène Hicheur mudou-se ainda jovem para a França. Cursou mestrado em física na Escola Normal Superior de Lyon. Trabalhou no Laboratório de Física de Partículas de Annecy-le-Vieux, colaborando em pesquisas internacionais sobre o Big Bang.

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Hicheur fez seu pós-doutorado no Reino Unido, no Laboratório Rutherford Appleton, onde trabalhou no detector de partículas ATLAS. Atuou também como professor da Escola Politécnica de Lausanne e como pesquisador do CERN — a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear.

Hicheur foi preso na França em outubro de 2009, sob a alegação de que ele teria trocado e-mails com um recrutador da Al-Qaeda. A identidade desse suposto recrutador é desconhecida e sua conexão com a Al-Qaeda nunca foi comprovada.

O diretor da Polícia Nacional francesa acusou Hicheur de ter a intenção de realizar um ataque contra um batalhão francês que seria enviado para ajudar os Estados Unidos na Guerra do Afeganistão. Os e-mails, entretanto, não fazem referência a esse suposto plano.

Hicheur foi indiciado por “formação de quadrilha” junto à Al-Qaeda, mas seu processo não abarcava nenhuma acusação concreta de ato de terror — planejado ou executado. Também não trazia evidências de que o físico tivesse qualquer ligação com grupos terroristas.

A polícia da Suíça, onde Hicheur vivia e trabalhava até ser preso, não conseguiu encontrar nenhuma evidência contra ele. Nas palavras de Hicheur, “a única justificativa [para a prisão] foram minhas visitas aos chamados websites islâmicos subversivos”.

“As pessoas não entendem o que significa ser muçulmano na França nestes dias. (…) Eu fui apresentado como como um exemplo de terrorista bem-educado, ativo na internet e que se radicalizou. Eles queriam me punir por minhas opiniões políticas”, afirmou o cientista.

O físico Adlène Hicheur
Shobhan Saxena

Condenação

A prisão de Hicheur ocorreu em um contexto de histeria e pânico moral de cariz islamofóbico, deliberadamente incentivado para justificar a adesão dos países europeus às intervenções dos Estados Unidos no Oriente Médio, rotuladas como uma “Guerra ao Terror”.

O caso de Hicheur atraiu comparações com o de Lotfi Raissi — piloto argelino que foi preso na Inglaterra após os EUA o acusarem de ser um terrorista da Al-Qaeda. A defesa de Raissi conseguiu comprovar que as evidências que o incriminaram eram todas forjadas.

Hicheur foi condenado a cinco anos de prisão. Cientistas do mundo inteiro reagiram organizando comitê e uma campanha internacional para denunciar o julgamento enviesado e pressionar pela libertação do físico argelino.

Mais de 100 físicos de vários países subscreveram uma carta aberta direcionada ao presidente da França denunciando a injustiça cometida contra Hicheur. O Comitê de Direitos Humanos da Sociedade Francesa de Física também pressionou por sua libertação.

Entre os signatários da carta estava Jean-Pierre Lees, do Laboratório de Annecy-le-Vieux, que afirmou que os promotores “sabem muito bem que ele não fez nada”. Segundo Lee, Hicheur foi usado como exemplo para criminalizar e desumanizar os muçulmanos de alto nível educacional, que fugiam do estereótipo racista mais difundido.

Mudança para o Brasil e expulsão

Hicheur ficou encarcerado por 949 dias na prisão de Fresnes, em Paris, sendo solto em maio de 2012. Após ser libertado, o cientista argelino resolveu deixar a Europa. Mudou-se para o Brasil, onde tentou reconstruir sua vida e retomar sua carreira.

Ele conseguiu emprego como professor visitante do Instituto de Física da UFRJ e passou se dedicar à pesquisa científica. “Tudo caminhava muito bem. Era tudo que eu queria na minha vida e no Brasil encontrei espaço para fazer isso”.

A tranquilidade, entretanto, durou pouco. Em janeiro de 2016, Hicheur tornou-se alvo de uma reportagem publicada pela revista Época. A matéria não escondia um certo direcionamento político, fazendo questão de ressaltar no subtítulo, por exemplo, que Hicheur recebia “bolsa do governo federal”.

Além de fomentar críticas às universidades públicas e ao governo Dilma — mergulhado em uma grave crise política e já sob ameaça de impeachment — a reportagem também serviu para pressionar o congresso e o executivo a instituírem uma lei antiterrorismo, em consonância com uma exigência de longa data dos Estados Unidos.

Diversas organizações passaram a pressionar o governo a tomar providências, incluindo a Confederação Israelita do Brasil (Conib). Hicheur foi afastado das salas de aula pela UFRJ, passou a ser investigado pela Polícia Federal e a sofrer assédio e perseguição da imprensa.

A comunidade científica saiu em defesa de Hicheur, denunciando a injustiça e o linchamento moral que o argelino estava sofrendo. Em uma entrevista para Florência Costa, Ronald Shellard, diretor do CBPF, afirmou que expulsar Hicheur significaria “a derrota definitiva de tudo por que lutamos durante a ditadura”.

Leandro Salazar de Paula também ressaltou o prejuízo para a ciência nacional, definindo Hicheur como “um pesquisador brilhante”. “Será uma grande perda para o nosso programa de pesquisa. (…) Somos nove pesquisadores e estamos perdendo o mais atuante”, lamentou.

Em julho de 2016, já sob o governo de Michel Temer, o então Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ordenou que Hicheur fosse expulso do Brasil. O argelino foi escoltado pela Polícia Federal até o aeroporto internacional do Galeão e forçado a embarcar para a França.

Assim que chegou à Europa, Hicheur foi posto em prisão domiciliar. O cientista contestou a medida. “Não escolhi regressar à França, estou aqui contra a minha vontade”. Requisitou então a perda da nacionalidade francesa para poder retornar à Argélia, o que foi aceito.

No Brasil, as investigações abertas pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência não encontraram quaisquer evidências de que Hicheur mantivesse atividades relacionadas ao terrorismo ou contato com grupos fundamentalistas. O jornal O Globo admitiu que o resultado da perícia com o material recolhido na casa de Hicheur não apontou nenhum tipo de atividade suspeita.