Ele atuou no maior laboratório de física de partículas do mundo e no Grande Colisor de Hádrons. Passou pelos centros de pesquisa mais prestigiados da Europa e ajudou a formar estudantes em uma das áreas mais fundamentais da ciência contemporânea.
Quase sempre a vinda de um professor com tal currículo seria algo valorizado. Mas no caso do físico argelino Adlène Hicheur, ocorreu o oposto. O cientista foi arrancado de sua sala de aula na UFRJ, escoltado pela Polícia Federal até o aeroporto do Galeão e banido do Brasil, sem ter sequer a chance de se defender.
O motivo da expulsão? Hicheur foi acusado de ser um terrorista em uma reportagem da revista Época, dando início a um escândalo midiático. As investigações, concluídas somente após a expulsão do cientista, negaram a sua participação em atividades criminosas.
Nascido em Sétif, na Argélia, em 4 de dezembro de 1976, Adlène Hicheur mudou-se ainda jovem para a França. Cursou mestrado em física na Escola Normal Superior de Lyon. Trabalhou no Laboratório de Física de Partículas de Annecy-le-Vieux, colaborando em pesquisas internacionais sobre o Big Bang.
Hicheur fez seu pós-doutorado no Reino Unido, no Laboratório Rutherford Appleton, onde trabalhou no detector de partículas ATLAS. Atuou também como professor da Escola Politécnica de Lausanne e como pesquisador do CERN — a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear.
Hicheur foi preso na França em outubro de 2009, sob a alegação de que ele teria trocado e-mails com um recrutador da Al-Qaeda. A identidade desse suposto recrutador é desconhecida e sua conexão com a Al-Qaeda nunca foi comprovada.
O diretor da Polícia Nacional francesa acusou Hicheur de ter a intenção de realizar um ataque contra um batalhão francês que seria enviado para ajudar os Estados Unidos na Guerra do Afeganistão. Os e-mails, entretanto, não fazem referência a esse suposto plano.
Hicheur foi indiciado por “formação de quadrilha” junto à Al-Qaeda, mas seu processo não abarcava nenhuma acusação concreta de ato de terror — planejado ou executado. Também não trazia evidências de que o físico tivesse qualquer ligação com grupos terroristas.
A polícia da Suíça, onde Hicheur vivia e trabalhava até ser preso, não conseguiu encontrar nenhuma evidência contra ele. Nas palavras de Hicheur, “a única justificativa [para a prisão] foram minhas visitas aos chamados websites islâmicos subversivos”.
“As pessoas não entendem o que significa ser muçulmano na França nestes dias. (…) Eu fui apresentado como como um exemplo de terrorista bem-educado, ativo na internet e que se radicalizou. Eles queriam me punir por minhas opiniões políticas”, afirmou o cientista.

A prisão de Hicheur ocorreu em um contexto de histeria e pânico moral de cariz islamofóbico, deliberadamente incentivado para justificar a adesão dos países europeus às intervenções dos Estados Unidos no Oriente Médio, rotuladas como uma “Guerra ao Terror”.
O caso de Hicheur atraiu comparações com o de Lotfi Raissi — piloto argelino que foi preso na Inglaterra após os EUA o acusarem de ser um terrorista da Al-Qaeda. A defesa de Raissi conseguiu comprovar que as evidências que o incriminaram eram todas forjadas.
Hicheur foi condenado a cinco anos de prisão. Cientistas do mundo inteiro reagiram organizando comitê e uma campanha internacional para denunciar o julgamento enviesado e pressionar pela libertação do físico argelino.
Mais de 100 físicos de vários países subscreveram uma carta aberta direcionada ao presidente da França denunciando a injustiça cometida contra Hicheur. O Comitê de Direitos Humanos da Sociedade Francesa de Física também pressionou por sua libertação.
Entre os signatários da carta estava Jean-Pierre Lees, do Laboratório de Annecy-le-Vieux, que afirmou que os promotores “sabem muito bem que ele não fez nada”. Segundo Lee, Hicheur foi usado como exemplo para criminalizar e desumanizar os muçulmanos de alto nível educacional, que fugiam do estereótipo racista mais difundido.
Hicheur ficou encarcerado por 949 dias na prisão de Fresnes, em Paris, sendo solto em maio de 2012. Após ser libertado, o cientista argelino resolveu deixar a Europa. Mudou-se para o Brasil, onde tentou reconstruir sua vida e retomar sua carreira.
Ele conseguiu emprego como professor visitante do Instituto de Física da UFRJ e passou se dedicar à pesquisa científica. “Tudo caminhava muito bem. Era tudo que eu queria na minha vida e no Brasil encontrei espaço para fazer isso”.
A tranquilidade, entretanto, durou pouco. Em janeiro de 2016, Hicheur tornou-se alvo de uma reportagem publicada pela revista Época. A matéria não escondia um certo direcionamento político, fazendo questão de ressaltar no subtítulo, por exemplo, que Hicheur recebia “bolsa do governo federal”.
Além de fomentar críticas às universidades públicas e ao governo Dilma — mergulhado em uma grave crise política e já sob ameaça de impeachment — a reportagem também serviu para pressionar o congresso e o executivo a instituírem uma lei antiterrorismo, em consonância com uma exigência de longa data dos Estados Unidos.
Diversas organizações passaram a pressionar o governo a tomar providências, incluindo a Confederação Israelita do Brasil (Conib). Hicheur foi afastado das salas de aula pela UFRJ, passou a ser investigado pela Polícia Federal e a sofrer assédio e perseguição da imprensa.
A comunidade científica saiu em defesa de Hicheur, denunciando a injustiça e o linchamento moral que o argelino estava sofrendo. Em uma entrevista para Florência Costa, Ronald Shellard, diretor do CBPF, afirmou que expulsar Hicheur significaria “a derrota definitiva de tudo por que lutamos durante a ditadura”.
Leandro Salazar de Paula também ressaltou o prejuízo para a ciência nacional, definindo Hicheur como “um pesquisador brilhante”. “Será uma grande perda para o nosso programa de pesquisa. (…) Somos nove pesquisadores e estamos perdendo o mais atuante”, lamentou.
Em julho de 2016, já sob o governo de Michel Temer, o então Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ordenou que Hicheur fosse expulso do Brasil. O argelino foi escoltado pela Polícia Federal até o aeroporto internacional do Galeão e forçado a embarcar para a França.
Assim que chegou à Europa, Hicheur foi posto em prisão domiciliar. O cientista contestou a medida. “Não escolhi regressar à França, estou aqui contra a minha vontade”. Requisitou então a perda da nacionalidade francesa para poder retornar à Argélia, o que foi aceito.
No Brasil, as investigações abertas pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência não encontraram quaisquer evidências de que Hicheur mantivesse atividades relacionadas ao terrorismo ou contato com grupos fundamentalistas. O jornal O Globo admitiu que o resultado da perícia com o material recolhido na casa de Hicheur não apontou nenhum tipo de atividade suspeita.