Quarta-feira, 1 de abril de 2026
APOIE
Menu

Há 115 anos, em 25 de março de 1911, um incêndio de grandes proporções destruía as oficinas da Triangle Shirtwaist Company, uma fábrica de roupas localizada no bairro de Greenwich Village, em Nova York.

O incêndio resultou na morte de 146 trabalhadores, sendo 123 mulheres e 23 homens. Eles estavam presos no interior do edifício quando o fogo se alastrou. As portas foram trancadas por exigência dos proprietários, visando impedir que os trabalhadores fizessem pausas não autorizadas ou recebessem visitas de líderes sindicais.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

A Triangle Shirtwaist foi a quarta fábrica pertencente a Max Blanck e Isaac Harris a ser destruída pelo fogo, o que despertou suspeitas de que o incêndio seria proposital, visando o recebimento do seguro.

Indiciados por homicídio culposo, os proprietários foram inocentados de todas as acusações e ainda receberam uma indenização de 60.000 dólares — obtendo lucro de 400 dólares para cada vítima da tragédia.

Mais lidas

As sweatshops de Nova York e a Triangle Shirtwaist

No início do século 20, a cidade de Nova York consolidou sua posição como epicentro da indústria do vestuário nos Estados Unidos. A demanda por roupas prontas crescia exponencialmente no país, refletindo as mudanças impostas pela Revolução Industrial e pelo processo acelerado de urbanização.

Nova York chegou a responder por mais de 70% da produção de roupas prontas nos Estados Unidos. As confecções se concentravam em bairros de Manhattan e empregavam quase metade da força de trabalho industrial da cidade.

As condições de trabalho nas fábricas de roupas eram terríveis. A maioria das confecções operavam como “sweatshops” — oficinas de exploração, onde os trabalhadores eram submetidos a ambientes insalubres, jornadas abusivas e baixos salários.

Esse era o caso da Triangle Shirtwaist Company, uma fábrica de roupas fundada em 1900 por Max Blanck e Isaac Harris, dois empresários judeus de origem russa. Especializada na produção de camisas femininas, a confecção ocupava três andares do Edifício Asch, um prédio comercial em Greenwich Village.

Cerca de 600 pessoas trabalhavam na fábrica da Triangle Shirtwaist. A grande maioria eram mulheres imigrantes pobres, com pouco domínio do inglês, sobretudo italianas, irlandesas e judias do Leste Europeu. Elas trabalhavam até 12 horas por dia, seis dias por semana, recebendo pagamentos semanais que variavam entre 6 e 10 dólares — um terço do valor que era pago aos homens.

Não bastassem os salários baixos, as funcionárias ainda eram multadas quando se atrasavam ou estragavam uma peça de roupa. No interior da fábrica, as oficinas eram apertadas, mal ventiladas e repletas de materiais inflamáveis, como tecidos de algodão e restos de corte acumulados pelo chão.

O Levante das Vinte Mil

As práticas autoritárias dos patrões tornavam o ambiente ainda mais perigoso. Blanck e Harris orientavam seus encarregados a trancar as saídas das oficinas para impedir que as trabalhadoras fizessem pausas não autorizadas ou furtassem materiais.

Ao término do expediente, as bolsas das funcionárias eram revistadas e somente depois as portas eram abertas. A medida também visava dificultar o ingresso de organizadores sindicais no prédio.

O descontentamento generalizado entre as operárias da Triangle Shirtwaist resultaria na eclosão de um potente movimento grevista. Em novembro de 1909, as trabalhadoras da fábrica cruzaram os braços exigindo melhores salários, pagamento de hora extra, redução da jornada para 52 horas semanais e mais segurança no ambiente de trabalho.

A paralisação logo se espalhou por Nova York, dando início ao chamado “Levante das Vinte Mil” — a primeira greve geral liderada pelas mulheres na história da cidade. A paralisação afetou severamente a produção fabril e foi duramente reprimida pela polícia.

Os proprietários da Triangle Shirtwaist recusaram todas as exigências. Blanck e Harris subornaram policiais e contrataram capangas e prostitutas para agredir as grevistas. Também utilizaram detetives particulares para infiltração no movimento, permitindo a identificação das lideranças. As trabalhadoras suspeitas de vínculos com organizações sindicais foram todas perseguidas, demitidas e substituídas por imigrantes.

A greve geral se estendeu por quase cinco meses e forçou boa parte do patronato a fazer concessões. Apesar de vitórias parciais em outras fábricas, as condições de trabalho na Triangle Shirtwaist permaneceram inalteradas — possibilitando a concretização da tragédia que estava por vir.

O incêndio

As trabalhadoras da Triangle Shirtwaist já se preparavam para voltar para casa na tarde de 25 de março de 1911 quando notaram que havia algo errado. Gritos, cheiro de fumaça e barulho de vidros quebrados começaram a tomar os corredores do Edifício Asch.

Por volta das 16h45, o alarme de incêndio foi acionado. Da rua, os pedestres podiam enxergar uma enorme coluna de fumaça. Em menos de 20 minutos, o fogo já havia se alastrado por três andares do edifício. As trabalhadoras que estavam no 8º e no 10º pavimentos foram avisadas a tempo e conseguiram deixar o local.

No 9º andar, no entanto, a situação era dramática. Seguindo a orientação dos patrões, a saída principal do pavimento fora trancada e o encarregado que estava com a chave já tinha fugido do edifício. Havia uma segunda escadaria, mas o acesso fora tomado pelas chamas.

O 9º andar também era servido por uma escada de emergência externa. Cerca de 20 pessoas tentaram utilizá-la para fugir, mas a estrutura frágil da escadaria cedeu ao calor e ao peso e as vítimas despencaram de uma altura de 30 metros.

Os elevadores de carga conseguiram salvar dezenas de pessoas, mas logo pararam de funcionar. Os bombeiros chegaram em poucos minutos, mas suas escadas só permitiam alcançar até o 7º andar.

Centenas de pessoas ficaram presas no 9º andar, encurraladas pelo incêndio. Muitas morreram asfixiadas pela fumaça ou foram consumidas pelas chamas. Em uma tentativa desesperada de fugir do fogo, dezenas de mulheres começaram a se atirar pelas janelas do edifício.

A cena foi descrita por Louis Waldman, um militante do Partido Socialista que testemunhou a tragédia: “Horrorizada e impotente, a multidão olhava para o prédio em chamas e via as garotas, uma atrás da outra, aparecerem diante das janelas avermelhadas. Elas hesitavam por um momento e então se atiravam para a morte certa, estatelando-se em poças de sangue na calçada. Essas cenas se prolongaram por um tempo que parecia uma eternidade macabra”.

Ao todo, 146 trabalhadores morreram no incêndio — sendo 123 mulheres e 23 homens. Ao menos 90 pessoas se jogaram pelas janelas do prédio. A vítima mais jovem era Rosaria Maltese, de apenas 14 anos. A mais velha, Providenza Panno, tinha 43 anos.

Os sepultamentos ocorreram em 16 cemitérios distintos. Seis vítimas permaneceram não identificadas até 2011, quando o historiador Michael Hirsch conseguiu descobrir seus nomes. Elas foram enterradas no Cemitério Evergreens, no Brooklyn.

Bombeiros tentam combater o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist Wikimedia Commons

Consequências

A tragédia causou comoção e revolta na população. Uma procissão fúnebre reuniu um público estimado em até 300.000 pessoas nas ruas de Nova York, entoando pedidos de justiça e de punição aos responsáveis.

As causas do incêndio nunca foram determinadas. As investigações oficiais apontaram que um palito de fósforo ou uma bituca de cigarro teriam dado início ao fogo, com as chamas se espalhando rapidamente em função do volume de tecidos inflamáveis no recinto.

O jornal The New York Times sugeriu que o incêndio poderia ter sido iniciado pelos motores das máquinas de costura. Já a revista Collier’s relembrou que proprietários de fábricas de vestuário estavam recorrendo a incêndios criminosos para se livrar do excesso de estoque e receber a indenização do seguro.

De fato, Blanck e Harris, os proprietários da Triangle Shirtwaist, já tinham sido indenizados por quatro incêndios anteriores em outras instalações. A polícia de Nova York, no entanto, sequer cogitou analisar essa linha de investigação.

Blanck e Harris foram indiciados por homicídio culposo, mas foram inocentados de todas as acusações em dezembro de 1911. O júri era composto exclusivamente por homens e a defesa dos empresários foi acusada de coagir, amedrontar e desqualificar as testemunhas.

Em 1913, um processo civil condenou os proprietários a pagarem uma indenização de 75 dólares por vítima. Mesmo assim, os empresários não tiveram qualquer prejuízo. O seguro rendeu uma indenização de 60.000 dólares. Em outras palavras, Blanck e Harris ganharam 400 dólares para cada pessoa que faleceu no incêndio.

No mesmo ano, Blanck se tornou réu em um novo processo judicial por ter ordenado que as portas de outra de suas fábricas fossem trancadas durante um expediente. Sua punição foi uma multa de 20 dólares.

O movimento trabalhista pressionou vigorosamente por mudanças na legislação, organizando passeatas e protestos. A Assembleia Legislativa do Estado de Nova York decidiu então criar a Comissão de Investigação das Fábricas, da qual participou Frances Perkins, que se destacaria futuramente como Secretária do Trabalho na gestão de Franklin Roosevelt.

A comissão colheu 222 depoimentos e inspecionou mais de 2.000 fábricas. Os relatórios produzidos durante esse trabalho serviram de base para a aprovação de 38 novas leis estaduais regulamentando as relações trabalhistas e estabelecendo padrões mínimos de segurança para as fábricas. Essas leis também serviram de modelo para a futura criação do Conselho Nacional de Segurança.