Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Há 159 anos, em 24 de novembro de 1866, nascia a poetisa e educadora gaúcha Malvina Tavares, referência do movimento anarquista no Brasil.

Filha de imigrantes franceses, Malvina foi uma das primeiras professoras da rede pública na região do Vale do Taquari. Ela se destacou por suas inovações pedagógicas, abolindo os castigos físicos em prol de uma abordagem pedagógica pautada por princípios humanistas e solidários.

Defensora do “aprender brincando”, Malvina utilizava atividades lúdicas e culturais como ferramentas pedagógicas. Ela foi descrita como uma pioneira do ensino libertário e foi responsável por formar vários militantes e dirigentes que se notabilizaram no movimento anarquista e nas lutas operárias.

A família Hailliot

Julia Malvina Hailliot nasceu em Encruzilhada do Sul, na região do Vale do Rio Pardo, no interior gaúcho. Ela era a caçula entre os cinco filhos de Henriette Souleaux e François de Lalemode Hailliot, um casal de imigrantes franceses que se estabeleceu no Rio Grande do Sul em meados do século 19.

Segundo registros do diário de Malvina, seu avô paterno, Jean Hailliot, era detentor do título de Barão de Saint Marcel. Ele participou da Revolução Francesa junto à facção dos girondinos, o que lhe valeu posteriormente uma condecoração entregue por Napoleão Bonaparte.

Já a mãe de Malvina teria nascido em um castelo de Bordeaux. Ela seria descendente do Conde de Lalemode, um oficial do exército napoleônico que teve sua fortuna expropriada durante o processo revolucionário. As pesquisas históricas contemporâneas, no entanto, não conseguiram confirmar essas informações.

É provável que os pais de Malvina tenham imigrado para o Brasil para escapar do contexto de agitação social e da crise política e econômica que se instalou na França desde a Revolução de 1830. No Rio Grande do Sul, François trabalhou como engenheiro e arquiteto. Ele foi responsável por conduzir a reforma dos poços urbanos de Encruzilhada e ajudou a elaborar o projeto arquitetônico da Igreja Matriz da cidade.

Professora e liderança comunitária

Os registros sobre a juventude de Malvina são escassos. Ela provavelmente concluiu o ensino básico em escolas da região e depois se mudou para Porto Alegre a fim de cursar o magistério. Na década de 1880, cursou a Escola Normal — então a única instituição voltada à formação de professores primários no Rio Grande do Sul.

Em outubro de 1890, Malvina se casou com o comerciante português José Joaquim Tavares. Conforme os relatos familiares, ela teria iniciado nesse período sua militância política em prol das ideias federalistas, criticando fortemente o governo de Júlio de Castilhos. Como represália, o presidente do estado teria exigido a transferência de Malvina para o interior, forçando-a a deixar a capital gaúcha.

Malvina retornou a Encruzilhada em 1898. Dois anos depois, mudou-se com o marido para São Gabriel da Estrela, atual município de Cruzeiro do Sul. Lá, a educadora inaugurou uma escola pública de instrução primária em sua própria residência — uma prática frequente na Primeira República, quando a rede de ensino no interior ainda era bastante limitada. Tornou-se, assim, uma das primeiras mulheres a exercer o cargo de professora da rede pública na região do Vale do Taquari.

À época, a chegada da educadora e a inauguração da escola provocaram certo incômodo. As populações rurais não viam muita serventia no ensino formal. Muitos acreditavam que as escolas só serviam para privar as famílias de braços, que seriam mais úteis na lavoura e na execução dos serviços domésticos.

A educadora conseguiu vencer a resistência inicial e demonstrou a importância das escolas para as famílias da região. Mais do que um espaço para a educação formal, o colégio de Malvina se converteu em uma espécie de centro comunitário — o local onde os moradores sociabilizavam e se engajavam em ações políticas e culturais.

Malvina passaria o resto de sua vida em São Gabriel. Ela se consagrou como liderança comunitária, tornando-se uma das personalidades mais influentes e queridas da cidade. A educadora organizava ações de solidariedade em prol das famílias carentes, viabilizava a oferta de tratamento médico para pessoas enfermas e pressionava as autoridades por ações e melhorias.

Malvina Tavares. Via Libélula Editorial / Zero Hora

Inovações pedagógicas e vínculos com o anarquismo

Malvina se destacou, sobretudo, pelas inovações pedagógicas que implementou em sua escola, divergindo da metodologia rígida e inflexível e da disciplina autoritária e repressiva, típicas do ensino positivista vigente durante a Primeira República.

A ação pedagógica de Malvina era pautada por princípios da educação humanista, valorizando o diálogo, a escuta e a orientação. No lugar da dinâmica hierárquica e repressiva, a educadora preferia enfatizar valores como a solidariedade, o altruísmo, o respeito e o comunitarismo.

Os castigos corporais foram completamente abolidos. Conforme relatado por Dóris Bittencourt Almeida, Malvina acreditava que “a palmatória é amaldiçoada” e que “o castigo é um horror”.

A educadora gaúcha preferia recorrer às atividades lúdicas e culturais e utilizava as experiências empíricas como ferramentas de aprendizado. Organizava brincadeiras, peças de teatro, saraus, recitais de poesia, piqueniques e aulas ao ar livre. Sua proposta era “aprender brincando”, como relatado em um de seus poemas:

“Companheiras, cursemos a escola

Lá, brincando, se aprende a lição

Alegremos aos pais e aos mestres

Seja, pois, nosso Norte a instrução”

Malvina foi citada por diversos autores e organizações anarquistas como uma pioneira da educação libertária. O jornalista João Batista Marçal defendia a ideia de que ela se inspirou nas inovações da Escola Moderna — célebre modelo pedagógico anarquista criado pelo catalão Francesc Ferrer.

Não há comprovação histórica de vínculos diretos entre Malvina e o movimento anarquista, mas vários dos princípios caros à educação libertária já estavam presentes na sua prática pedagógica.

Além disso, muitos alunos de Malvina se notabilizaram como militantes e dirigentes do movimento anarquista ou lecionaram em escolas libertárias. É o caso de Artur Fabião Carneiro, Espertirina e os demais membros da família Martins (Eulina, Dulcina, Virgínia, Nino e Armando), todos expoentes das lutas anarquistas no Rio Grande do Sul.

Um dos netos de Malvina, o jornalista Flávio Tavares, tornou-se partícipe da luta armada contra a ditadura militar. Preso e torturado pelo regime, Flávio foi um dos 15 presos políticos libertados em troca da soltura do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado pela guerrilha em 1969.

Julia Malvina Hailliot Tavares faleceu em 16 de outubro de 1939, aos 72 anos. Seu diário com anotações autobiográficas e poesias é a principal fonte utilizada para reconstruir sua trajetória. A história da educadora foi abordada em artigos e livros produzidos por autores como Doris Bittencourt Almeida, Luciane Sgarbi Santos Grazziotin, Carlos Dias e Laura Peixoto.