Maria Ulianova: uma vida dedicada à revolução
Irmã de Vladimir Lenin, professora participou da luta contra regime czarista, contribuindo para a organização dos movimentos operários e difusão das ideias marxistas
Há 89 anos, em 12 de junho de 1937, falecia a revolucionária comunista Maria Ulianova. Irmã caçula de Lenin, ela participou da luta contra o regime czarista desde a juventude, ajudando na organização dos círculos operários e na difusão das ideias marxistas.
Perfilada ao grupo dos bolcheviques, Maria enfrentou forte perseguição das autoridades russas, sendo presa e forçada ao exílio em diversas ocasiões. Ela teve papel fundamental na organização da imprensa revolucionária, atuando por muitos anos na redação de periódicos como “Iskra” e “Pravda”.
Maria colaborou com a agitação e a propaganda bolchevique durante os levantes de 1917 e exerceu diversos cargos após o triunfo dos comunistas na Revolução de Outubro. Foi membro do Presidium e integrante do Comitê Executivo Central da União Soviética. Também coordenou a preservação dos documentos e da memória política de Lenin, contribuindo para a divulgação de seu legado.
A família Ulianov
Maria Ilyinichna Ulianova nasceu em 18 de fevereiro de 1878, na cidade de Simbirsk, no Império Russo. Ela era a caçula dos oito filhos de Ilya Ulianov e de Maria Alexandrovna Blank.
Os Ulianov eram uma família intelectualizada de classe média alta, vinculada à pequena nobreza czarista. Ilya trabalhava como diretor de escolas e Maria Alexandrovna possuía formação como professora. Os filhos do casal receberam uma educação rigorosa e desenvolveram desde cedo o interesse por literatura e pelas ciências.
A família Ulianov também se destacou pelo seu engajamento político, com vários membros envolvidos em atividades revolucionárias. Quatro irmãos de Maria Ulianova participaram ativamente dos movimentos anticzaristas. O mais célebre deles foi Lenin, que se consagraria como líder dos bolcheviques e arquiteto da Revolução de Outubro.
Tanto Lenin quanto Maria foram profundamente influenciados pela trajetória do irmão mais velho, Alexandre Ulianov. Membro do movimento “Narodnaya Volya”, Alexandre foi preso, condenado e executado por participar de um complô para assassinar o czar. Sua morte foi um trauma profundo para a família e incitou a radicalização e a repulsa contra o regime monárquico entre todos os irmãos.
Formação e ingresso no POSDR
Maria Ulianova iniciou seus estudos no Liceu Feminino de Simbirsk e concluiu o ensino secundário em um ginásio de Samara. Em 1895, ela tentou estudar Física e Química nos Cursos Bestuzhev, a mais importante instituição de ensino superior feminina de São Petersburgo, mas não foi aceita.
Em 1896, Maria se matriculou nos Cursos Superiores Femininos de Moscou, obtendo o diploma de professora em 1898. Nesse mesmo ano, mudou-se para a Bélgica, onde frequentou por um tempo os cursos da Universidade de Bruxelas.
Assim como Lenin, Maria se aproximou das ideias marxistas durante seus estudos. Impulsionado pela crescente organização do movimento operário russo na década de 1890, o marxismo ganhava cada vez mais espaço entre estudantes, intelectuais e trabalhadores organizados, suplantando o populismo dos “Narodniks”.
Em 1898, Maria ingressou no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Ela atuava junto aos círculos operários, ajudando a organizar reuniões secretas, colaborando com a comunicação entre os distintos grupos revolucionários e participando da distribuição de panfletos e da propaganda clandestina.
Em 1903, Maria passou a integrar o Secretariado do Comitê Central do POSDR. Ela também se destacou pelo seu papel na imprensa operária, atuando por quase duas décadas na redação do jornal “Iskra” (“Centelha”), órgão de imprensa do partido.
Atividades políticas
Assim como muitos militantes do período, Maria sofreu com a perseguição constante da Okhrana, a temida polícia secreta do Império Russo. Ela foi presa pela primeira vez em 1899, sendo enviada para Nijni Novgorod e posta sob monitoramento dos órgãos de repressão.
Dois anos depois, em março de 1901, Maria foi presa novamente. Ficou encarcerada por sete meses e foi condenada ao exílio em Samara. Uma nova prisão ocorreria em janeiro de 1904, dessa vez por cinco meses. Libertada sob fiança, partiu para o exílio na Suíça.
De volta à Rússia, Maria se estabeleceu em São Petersburgo, testemunhando em primeira mão a convulsão social que tomou a cidade durante a Revolução de 1905. Perfilada à facção dos bolcheviques desde a cisão do POSDR, ela assumiria o cargo de secretária do comitê distrital do partido em Vasileostrovsky.
Maria foi presa mais uma vez em maio de 1907. Libertada no ano seguinte, buscou refúgio em Paris, onde seguiu auxiliando na articulação de núcleos de bolcheviques exilados. Durante sua estadia na cidade, frequentou os cursos da Sorbonne e se formou como professora de francês.
Em 1910, Maria se mudou para a vila de Leppenino, no Grão-Ducado da Finlândia, um território então submetido ao domínio do Império Russo. Presa em 1911, ela foi condenada a três anos de exílio no Oblast de Vologda. Durante esse período, atuou na organização política dos trabalhadores ferroviários e conduziu campanhas de arrecadação de fundos para auxiliar os movimentos populares.
Maria teve sua punição abrandada após prometer às autoridades russas que não voltaria a se envolver com atividades revolucionárias. Tão logo foi libertada, no entanto, ela se mudou para Moscou e prosseguiu trabalhando na coordenação política dos bolcheviques e na agitação operária.
A revolucionária deu uma importante contribuição para consolidar o POSDR como um partido disciplinado, organizado e apto a cooptar o apoio popular contra a autocracia czarista. Reputada como uma gestora eficiente e dedicada, ela exerceu diversas tarefas administrativas, aperfeiçoou a comunicação interna e ajudou a gerir toda a estrutura da imprensa partidária.

Maria Ulianova em 1895.
Via Wikimedia Commons
Revolução Russa e atividades na URSS
Após o início da Revolução Russa em março de 1917, Maria ingressou no Bureau do Comitê Central do POSDR e foi integrada à equipe editorial do “Pravda”, o principal jornal da imprensa bolchevique.
Através de sua atuação nos periódicos do partido, Maria apoiou as posições de Lenin, encampando a defesa das Teses de Abril e difundindo as críticas ao governo provisório de Alexander Kerensky. A revolucionária também auxiliou na agitação popular e nos esforços organizacionais dos bolcheviques em Petrogrado.
Após o triunfo dos comunistas na Revolução de Outubro, Maria seguiu exercendo tarefas ligadas à imprensa bolchevique, à formação política e à administração partidária. Ela integrou o comitê editorial do Pravda por 12 anos, de 1917 a 1929, e, ao lado de Nikolai Bukharin, ajudou a organizar a “Rabselkor”, uma rede de correspondentes operários e camponeses que permitia que cidadãos comuns escrevessem matérias, denunciassem abusos e problemas e fizessem sugestões ao governo soviético.
Durante a Guerra Civil Russa, Maria contribuiu com os esforços de mobilização dos voluntários e com a comunicação sobre as conquistas da revolução. Ela também atuou nas iniciativas voltadas à alfabetização e reforma agrária e nas campanhas de incentivo à participação política feminina.
Após a morte de Lenin, Maria se dedicou à preservação da memória e do legado do irmão, atuando na formação dos arquivos documentais sobre a sua trajetória. A partir de 1929, ela trabalhou no Instituto Lenin, dedicando-se à publicação de cartas, correspondências inéditas e coligindo artigos e ensaios produzidos pelo líder bolchevique. Em 1933, foi laureada com a Ordem de Lenin, a mais alta condecoração da União Soviética.
Maria integrou a Comissão Central de Controle do Partido Comunista da URSS e foi membro do Presidium entre 1932 e 1934. Também chefiou o Departamento de Reclamações do Conselho do Comissariado do Povo para Inspetores Operários e Camponeses. Em 1935, foi nomeada para o Comitê Executivo Central, o órgão supremo do governo soviético.
Maria Ulianova faleceu em Moscou em 12 de junho de 1937, aos 59 anos, vitimada por problemas cardíacos. Foi sepultada junto à Necrópole da Muralha do Kremlin, ao lado de algumas das maiores personalidades da história do país.
























