Marietta Baderna: a bailarina rebelde que entrou para o dicionário
Primeira bailarina do Teatro Alla Scala, italiana transformou cena cultural do Brasil Império, desafiou padrões da elite e deixou um legado que ultrapassou os palcos
Há 198 anos, em 8 de julho de 1828, nascia a bailarina italiana Marietta Baderna. Ela foi a primeira bailarina do Teatro alla Scala de Milão e se apresentou nos mais destacados palcos da Europa, arrebatando as plateias com seu domínio técnico e enorme talento artístico.
Forçada a deixar a Itália durante os conflitos da unificação, Marietta imigrou para o Rio de Janeiro em 1849, consagrando-se como uma das artistas mais célebres do Brasil Império. Em suas apresentações, a bailarina mesclava elementos de danças populares e afro-brasileiras, conquistando a admiração da gente comum, que passou a frequentar o teatro para prestigiá-la.
A ruidosa presença do povo nas apresentações, a incorporação de elementos da cultura popular e o comportamento boêmio de Marietta escandalizaram a elite carioca do século 19. Não demorou para que a artista passasse a ser criticada e boicotada. Tão enérgica foi a perseguição contra Marietta que seu sobrenome acabou dicionarizado como sinônimo de “bagunça” e “confusão”.
A carreira na Itália
Nascida em Castel San Giovanni, na província italiana de Piacenza, Marietta Baderna era filha de Luigia Guani e do médico Antonio Baderna. Desde criança, Marietta nutria o sonho de se tornar bailarina, o que se concretizou com sua estreia nos palcos de Piacenza aos 13 anos de idade.
Aprendiz do célebre coreógrafo Carlo Blasis, um dos maiores nomes do balé romântico oitocentista, Marietta não tardou em se destacar na arte da dança. Ainda adolescente, tornou-se integrante do corpo de baile do Teatro alla Scala de Milão, onde ascendeu ao posto de “Primeira Bailarina Absoluta”.
Aos 19 anos, Marietta já havia se firmado como artista de renome internacional. Em 1847, ela se apresentou em uma temporada de enorme sucesso no Covent Garden de Londres. Os críticos elogiaram sua graça, sua presença cênica e a precisão ao executar os “pas de deux”.
Marietta interpretou papéis em peças como “A Bela Siciliana”, “L’Odalisque” e “La Peri” e foi convidada a dançar a cachucha em uma apresentação para o príncipe Alberto. Uma litografia famosa do período evidencia a sua fama, retratando-a cercada por suas poses mais expressivas.
Se a carreira profissional de Marietta deslanchava, o mesmo não poderia ser dito de seus ideais políticos. A bailarina e seu pai eram republicanos, partidários das ideias do revolucionário Giuseppe Mazzini, que havia sido derrotado por monarquistas e conservadores austríacos na malsucedida Revolução de 1848.
Sem subir aos palcos desde que a arte dos teatros fora banida da Itália por determinação dos ocupantes austríacos e sofrendo perseguição política em sua terra natal, a bailarina decidiu se exilar no Brasil. Em maio de 1849, Marietta embarcou no bergantim Andrea Doria ao lado de seu pai e de 53 artistas de sua trupe, a Companhia Lírica Italiana, e zarpou rumo ao Rio de Janeiro.

Marietta Baderna em uma gravura de 1846.
wikipedia
Marietta nos palcos do Brasil
Marietta e sua companhia desembarcaram no Brasil em agosto de 1849. A chegada foi bastante celebrada. Apresentações de artistas famosos da Europa eram acontecimentos que sempre empolgavam a corte. Os folhetins enalteciam o talento da bailarina e noticiavam com entusiasmo sua estreia no Teatro São Pedro de Alcântara (localizado no terreno onde hoje se encontra o Teatro João Caetano).
O espetáculo de estreia foi “O Lago das Fadas” (“Il Ballo delle Fate”), coreografado por Giuseppe Villa. O talento de Marietta encantou imediatamente a elite carioca, que passou a lotar os assentos da plateia para assisti-la. A elegância e sutileza de seus movimentos lhe renderam epítetos como “Rainha das Fadas” e “Bailarina das Pernas Poéticas”.
A lua de mel, entretanto, durou pouco tempo. A defesa dos ideais republicanos e dos princípios democráticos e a simpatia de Marietta pelo movimento abolicionista constrangiam os admiradores da bailarina na corte. E as relações com os gestores se complicaram após Marietta organizar uma greve de artistas de sua trupe, em função dos constantes atrasos nos pagamentos.
Os hábitos “transgressores” da bailarina também escandalizavam a sociedade conservadora e escravocrata do Império. Marietta Baderna gostava de festas e costumava frequentar os bailes populares, bebendo e dançando noite adentro. O fato de a bailarina ter engravidado antes de se casar formalmente com o maestro Gioacchino Giannini também provocou muito burburinho.
Mas o comportamento de Marietta que mais escandalizava a elite carioca era o fato de que a bailarina criava laços de amizade com os negros livres e escravizados. Marietta frequentava os redutos negros para assistir os rituais, as rodas de lundu e de umbigada e dançava junto com os cativos, tornando-se uma admiradora da cultura afro-brasileira.
O fenômeno “Baderna”
Marietta logo passou a incorporar elementos dos ritmos afro-brasileiros em suas apresentações nos palcos cariocas, dos gingados aos passos do lundu. E os indivíduos das camadas populares com quem fazia amizade passaram a frequentar as sessões abertas do Teatro São Pedro para prestigiar a bailarina.
Quando Marietta Baderna entrava em cena, seus admiradores (ditos “baderneiros”) faziam uma algazarra. Aplaudiam efusivamente, batiam com os pés no chão, assobiavam, gritavam o seu nome — chocando a aristocracia na plateia, acostumada à reverência silenciosa dos espetáculos artísticos.
A incorporação de elementos afro-brasileiros na dança, a presença de populares na plateia — normalmente reservada ao usufruto da aristocracia carioca — e as manifestações efusivas logo começaram a incomodar a sociedade racista, pudica e elitista do Império.
O nome de Marietta Baderna passou a ser associado à bagunça, à desordem, à indecência e à depravação. Os empresários passaram a negar patrocínio aos seus projetos e, aos poucos, os convites para que a companhia de dança de Marietta se apresentasse foram escasseando. A bailarina passou a ser boicotada, sendo escalada somente para papéis secundários no Teatro São Pedro.
Rejeitada nos palcos cariocas, Marietta procurou outros lugares para se apresentar. Mas as críticas à influência das danças afro-brasileiras nas suas apresentações não a intimidaram. Ao contrário: a bailarina dobrou a aposta e, em 1851, estreou no Teatro Santa Isabel do Recife com o espetáculo “Lundum d’Amarroa”, um marco artístico da fusão do balé clássico com a cultura popular. O público se dividiu. Os estudantes da Faculdade de Direito a aplaudiam enquanto uma estrondosa vaia ecoava dos camarotes da elite pernambucana.
Marietta também viajou à Europa para mais algumas apresentações, destacando-se por temporadas no Grand Théatre de Bordeaux e no Théâtre du Châtelet em Paris. De volta ao Brasil, seguiu enfrentando o boicote dos palcos. Suas últimas grandes apresentações ocorreram na temporada de 1864-1865. Depois, seu nome desapareceria dos jornais e folhetins por vários anos.
A bailarina ainda fez algumas apresentações esporádicas de dança e atuou em peças dramáticas no Maranhão na década de 1870, apresentando-se no Theatro São Luís (atual Teatro Arthur Azevedo). Após deixar os palcos, dedicou-se ao ensino da dança, dando aulas particulares de balé para meninas no Rio de Janeiro.
Marietta faleceu em 3 de janeiro de 1892, aos 63 anos de idade. Quatro anos antes de seu falecimento, o dicionário de Antônio Joaquim de Macedo Soares se tornara o primeiro a registrar o sobrenome da “bailarina do povo”: baderna era então sinônimo de “bagunça”, “desordem” e “súcia dançante”.
























