Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Há 73 anos, em 13 de abril de 1953, Allen Dulles, diretor da CIA, autorizava o início do projeto MK-Ultra, um programa secreto de experiências em seres humanos que visava criar e aperfeiçoar técnicas de lavagem cerebral, manipulação psicológica e controle da mente.

Desenvolvido em meio à Guerra Fria, o programa deu continuidade às experiências que a Alemanha nazista realizava com prisioneiros do campo de concentração de Dachau e foi tocado com ajuda de cientistas alemães levados para os Estados Unidos durante a Operação Paperclip.

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O programa foi concebido para ser uma arma contra opositores, nações socialistas e grupos não alinhados às diretrizes de Washington. O governo norte-americano intencionava criar técnicas para extrair informações, manipular e atacar líderes políticos e até reprogramar a psique humana para transformar pessoas em agentes involuntários.

Ao longo de duas décadas, o projeto MK-Ultra manteve ao menos 149 linhas de pesquisa, fazendo uso de administração de drogas, tortura, violência sexual e técnicas de manipulação mental. As vítimas do programa eram indivíduos vistos como “descartáveis” — soldados de baixa patente, prostitutas, prisioneiros, pacientes psiquiátricos, imigrantes, etc.

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Retomando as experiências nazistas

O projeto MK-Ultra foi desenvolvido pelo governo dos Estados Unidos a partir das experiências conduzidas pelos cientistas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Após o término do conflito, documentos relativos às experiências de controle mental, tortura e vivissecção realizadas no campo de concentração de Dachau foram encaminhados aos serviços secretos norte-americanos em Fort Detrick, no estado de Maryland, a sede do programa de armas biológicas dos Estados Unidos.

Entre as experiências que despertaram o interesse de Washington estavam as pesquisas lideradas por Kurt Plötner, um médico nazista que usava mescalina e outras substâncias para tentar extrair informações e manipular a vontade de suas vítimas. As cobaias humanas eram principalmente judeus e soviéticos, submetidos à administração de drogas, hipnose e torturas brutais.

Ainda em 1945, Plötner foi recrutado pelos militares norte-americanos para dar continuidade às suas pesquisas nos Estados Unidos. Ele recebeu uma identidade falsa e foi protegido das tentativas de responsabilização criminal. Em 1946, quando a França pediu a ajuda de Washington para localizar o médico nazista, o governo norte-americano respondeu que Plötner provavelmente estava sob custódia e proteção da União Soviética.

Outros nazistas também participaram diretamente do projeto MK-Ultra, a exemplo de Kurt Blome, responsável pelas pesquisas de guerra biológica do Terceiro Reich e por experimentos letais que mataram milhares de pessoas nos campos de Mauthausen, Dachau e Buchenwald. Os alemães foram beneficiados pela Operação Paperclip, que levou secretamente milhares de cientistas, engenheiros e técnicos do regime nazista para atuar em projetos militares e centros de pesquisa dos Estados Unidos.

Em busca de robôs humanos

Com a escalada da Guerra Fria, a Agência Central de Inteligência (CIA) decidiu dar continuidade aos estudos da Alemanha nazista, visando criar novas estratégias para subjugar opositores, baseadas em controle mental. Os alvos eram dirigentes das nações do bloco socialista, dissidentes e grupos opositores rotulados como comunistas ou antiamericanos.

Em 1951, a CIA criou o projeto Artichoke (inicialmente denominado projeto Bluebird), uma iniciativa que visava descobrir se uma pessoa pode ser involuntariamente conduzida a tentar assassinar um determinado alvo. Dois anos depois, no governo de Dwight Eisenhower, o projeto seria ampliado, transformando-se no MK-Ultra.

Com o novo programa, a CIA pretendia criar drogas de manipulação mental e desenvolver um “soro da verdade”, aumentando a confiabilidade das informações coletadas durante os interrogatórios ou sessões de tortura impostas aos prisioneiros capturados. A agência também objetivava criar estimulantes para aumentar a resistência e lealdade dos soldados norte-americanos, transformando-os em “robôs humanos”.

Outros objetivos incluíam fabricar substâncias que obrigassem pessoas a realizar ações contra a sua vontade e desenvolver drogas que permitissem apagar a memória, induzir amnésia, esquizofrenia ou outras doenças mentais — drogas que poderiam ser usadas como armas para desmoralizar ou incapacitar adversários do governo norte-americano.

Após autorização de Allen Dulles, o psiquiatra militar Sidney Gottlieb foi incumbido de chefiar o projeto secreto. Os recursos financeiros para manter o programa eram camuflados como financiamento de pesquisas médicas. Boa parte da verba do projeto MK-Ultra teve como origem a Fundação Rockefeller.

A maior parte dos recursos foi gasta no desenvolvimento de substâncias incapacitantes e materiais biológicos, químicos e radioativos utilizados para produzir mudanças comportamentais ou fisiológicas nos indivíduos. A imensa maioria das vítimas foram forçadas a participar das experiências ou sequer tomaram conhecimento de que estavam sendo usadas como cobaias.

Os experimentos

O projeto MK-Ultra manteve ao menos 149 linhas de pesquisa desenvolvidas em parceria com mais de 80 instituições, incluindo escolas, universidades, hospitais e penitenciárias. Ao menos 185 pesquisadores participaram dos testes.

As cobaias humanas eram geralmente pessoas com problemas mentais, prisioneiros, prostitutas, soldados de baixa patente, pacientes oncológicos, dependentes químicos, imigrantes e outros indivíduos considerados “descartáveis” ou incapazes de revidar — incluindo crianças e adolescentes das classes baixas.

Em alguns casos, os indivíduos eram submetidos aos procedimentos após procurarem hospitais ou clínicas médicas para tratar alguma enfermidade. É o que ocorreu com vários estudantes que procuraram a Clínica Psicológica de Harvard e acabaram sendo utilizados como cobaias.

Durante a Operação Midnight Climax, a CIA montou falsos bordéis em São Francisco para atrair cobaias que eram então submetidas aos experimentos. O governo dos Estados Unidos criou centros de detenção secretos nos territórios sob seu controle durante o pós-Guerra (sobretudo no Japão, nas Filipinas e na Alemanha) para realizar torturas e experiências humanas em indivíduos tidos como “dispensáveis”.

O projeto MK-Ultra também foi conduzido no Canadá, sob a liderança do psiquiatra Donald Ewen Cameron, pesquisador da Universidade McGill e diretor do Allan Memorial Institute. A CIA repassava recursos para Cameron por meio de uma organização de fachada intitulada Sociedade para a Investigação da Ecologia Humana.

Em geral, as experiências conduzidas pelo projeto MK-Ultra envolviam a necessidade de solapar a resistência física e psicológica das cobaias, drogando-as com medicamentos psicoativos e submetendo-as a abusos físicos e psicológicos extremos.

A droga mais utilizada durante os experimentos era o LSD, mas os pesquisadores também recorriam a barbitúricos, anfetaminas, heroína, morfina, mescalina, temazepam, psilocibina e escopolamina, entre outras.

As torturas físicas incluíam choques elétricos, privação do sono, privação de água e comida, exposição a temperaturas extremas, afogamento, compressão com pesos, indução de paralisia, incapacitação, isolamento cognitivo, submissão ao trabalho escravo, abusos sexuais, etc.

Durante os procedimentos, as cobaias eram agressivamente interrogadas sobre banalidades ou fatos de suas vidas. Sessões de hipnose também eram comuns.

A sede da CIA em Langley, Virginia.
Wikimedia Commons

Revelação e comissão de inquérito

Em 1973, em meio ao pânico gerado pela eclosão do Caso Watergate, que culminaria na renúncia do presidente Richard Nixon, o diretor da CIA, Richard Helms, ordenou que todos os arquivos relativos ao projeto MK-Ultra fossem destruídos, de modo a evitar que os servidores da agência fossem eventualmente responsabilizados pelas operações ilegais.

Com isso, a imensa maioria das informações sobre a operação, sua real extensão e a quantidade exata de vítimas se perdeu. O que se sabe hoje sobre o projeto MK-Ultra deriva de algumas páginas de um conjunto com 20.000 documentos que sobreviveu ao expurgo.

Em 1974, o jornalista Seymour Hersh publicou uma reportagem no “New York Times” revelando que a CIA estava conduzindo experimentos ilegais em cidadãos norte-americanos, incluindo testes com drogas sem consentimento dos participantes. A repercussão levou à abertura de investigações oficiais. Em 1975, o Congresso dos Estados Unidos estabeleceu uma comissão de inquérito para apurar as operações da CIA.

Vítimas dos experimentos foram chamadas a depor publicamente sobre as experiências conduzidas pelo projeto MK-Ultra, chocando a opinião pública norte-americana, que exigiu o encerramento das pesquisas com seres humanos conduzidas pela agência. Não obstante, Victor Marchetti, vice-diretor da CIA, declarou alguns anos depois que a agência seguiu conduzindo secretamente o projeto.

O relatório final produzido pelo Congresso dos Estados Unidos em 1977, os documentos revelados pela Lei de Liberdade de Informação e os registros oficiais da CIA que perderam o status de confidencialidade em 2018 são as principais fontes primárias disponíveis sobre o projeto MK-Ultra.

Ainda hoje, boa parte dos relatórios que sobreviveram ao expurgo de 1973 permanece sob sigilo. Os documentos abertos ao público registram vítimas que ficaram com sequelas físicas graves e traumas severos, além de inúmeros abusos de direitos civis e dos princípios éticos estabelecidos pelo Código de Nuremberg.

Algumas das técnicas de tortura desenvolvidas pela MK-Ultra foram compiladas nos Manuais KUBARK, utilizados pela Escola das Américas — organização do governo norte-americano que compartilhava técnicas de tortura e repressão com os ditadores latino-americanos durante a Guerra Fria. Muitas dessas técnicas seriam empregadas contra os prisioneiros de Guantánamo e Abu Ghraib.

Vítimas

A destruição dos registros detalhados torna impossível saber o número exato de vítimas do projeto MK-Ultra. Historiadores acreditam que milhares de pessoas foram diretamente submetidas a experimentos, quase sempre sem consentimento.

Entre as vítimas conhecidas do projeto está o tenista Harold Blauer. Após procurar um hospital psiquiátrico para tratar sua depressão, ele recebeu sucessivas injeções de mescalina, vindo a falecer de overdose.

Outra vítima do programa foi o bacteriologista Frank Olson. Em novembro de 1953, após receber doses cavalares de LSD, ele teria se suicidado pulando de uma janela. A família de Olson contesta até hoje o relato oficial do governo, afirmando que o cientista foi assassinado por ameaçar divulgar informações sobre o MK-Ultra para a imprensa.

Artistas ligados aos movimentos de contracultura nos Estados Unidos também foram alvo dos experimentos, incluindo o poeta Allen Ginsberg, ícone da Geração Beat, o escritor Ken Kesey e os membros da banda Grateful Dead.

Há um caso comprovado de um jovem com problemas mentais do Kentucky que foi submetido a abusos físicos combinados com administração diária de doses altas de LSD por 174 dias seguidos. Ellen Atkin, filha de uma paciente psiquiátrica, também alega ter sofrido abusos sexuais e torturas físicas pela CIA quando ainda era uma criança.

No Canadá, dezenas de pacientes ingressaram com ações solicitando indenização por terem sido submetidos ao programa. Entre as vítimas está Lana Ponting, torturada e forçada a passar por processos de manipulação mental quando tinha 16 anos.

Julie, filha de Charles Tanny, também processou o governo em nome de seu falecido pai. Após procurar um hospital queixando-se de dores de cabeça, Charles foi forçado a passar por terapias de eletrochoque e administração de drogas até acabar em coma induzido. Antes um pai amoroso e gentil, ele se tornou frio, distante e agressivo com a família.

Esther Schrier procurou ajuda médica para tratar de uma depressão pós-parto. Após o programa, não conseguia mais reconhecer seus familiares, sofria de incontinência, dores excruciantes e dificuldade para engolir alimentos sólidos.

Outras vítimas do projeto MK-Ultra tornaram-se famosas por envolvimentos em crimes. Theodore Kaczynski, conhecido como Unabomber, participou de um “experimento psicológico propositalmente traumatizante” conduzido pelo psicólogo de Harvard Henry Murray. Posteriormente, ele se tornou um terrorista doméstico, responsável por conduzir uma série de atentados a bomba nos Estados Unidos entre 1978 e 1995.

James J. Bulger foi submetido ao experimento enquanto cumpria pena por roubo. Depois de ser libertado, ele cometeu 19 assassinatos. Sirhan Sirhan, responsabilizado pelo assassinato do senador Robert Kennedy em 1968, também foi apontado como um egresso do projeto MK-Ultra por seu advogado, Lawrence Teeter.