Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Cortes de cabelo obrigatórios, cientistas acreditando em unicórnios, pessoas executadas por ouvirem k-pop. Não há limites para a bizarrice e a extravagância dos boatos sobre a Coreia do Norte impulsionados pela mídia ocidental.

Subordinado a uma rançosa propaganda anticomunista, exalando o cheiro de naftalina do macarthismo, o noticiário sobre o país costuma estar mais próximo da ficção distópica e da literatura fantástica do que do jornalismo.

Entre as muitas manchetes sensacionalistas, invariavelmente atribuídas a “fontes anônimas” e origens obscuras, há uma peculiar categoria de matéria: as pessoas que teriam sido assassinadas pelo “regime norte-coreano”, mas que aparecem vivas, sorrindo para as câmeras, semanas depois.

A fábrica de boatos

O bombardeio de “fake news” sobre a Coreia do Norte não é um fenômeno novo. Sua origem remonta à Guerra Fria e foi impulsionada a partir da década de 1950, quando as tropas norte-americanas se aliaram às forças de Syngman Rhee para tentar derrubar o governo de Kim Il-Sung durante a Guerra da Coreia.

Ainda nos anos 50, a imprensa norte-americana publicou inúmeras matérias alegando que os prisioneiros de guerra dos Estados Unidos estavam sendo submetidos a experiências com hipnose, controle mental e lavagem cerebral, visando transformá-los em marionetes comunistas.

Relatos sobre “execuções em massa de civis” e de “centenas de milhares de mortos” em campos de concentração da Coreia do Norte também eram frequentes no período. Houve, de fato, assassinato em massa de civis durante a guerra — os chamados “Massacres das Ligas Bodo”, que deixaram mais de 200.000 mortos. Mas esses massacres foram conduzidos pelos aliados de Washington na Coreia do Sul.

Documentos do Pentágono publicados no ano 2000 comprovaram que o governo norte-americano não apenas sabia como incentivou o regime de Syngman Rhee a conduzir os massacres. Mesmo assim, o Pentágono produziu um filme de propaganda chamado The Crime of Korea, que tentava responsabilizar o governo norte-coreano pelas matanças.

Um dos principais instrumentos utilizados para difundir propaganda anticomunista no continente asiático é a Radio Free Asia — uma estação internacional de rádio mantida pelo governo norte-americano e controlada diretamente pela CIA.

Fundada no início dos anos 50, a rádio afirmava ter a missão institucional de prover informação livre e independente sobre “regimes fechados e autoritários”. Na prática, sua função era impulsionar planos de desestabilização e mudança de regime, fomentar grupos de oposição aos governos socialistas e conduzir a opinião pública através da manipulação do noticiário e difusão de notícias falsas.

Reativada nos anos 90, a Radio Free Asia segue até hoje como uma das principais fontes de boatos sobre a Coreia do Norte. Seus rumores buscam satanizar o governo norte-coreano, rotulando-o como um regime sanguinário, irracional e grotesco, capaz de realizar as atrocidades mais hediondas por motivos banais.

Ao mesmo tempo, os boatos desumanizam os habitantes do país, tratando-os como caricaturas de vítimas submissas da lavagem cerebral, escravizadas por um líder tirânico que as obriga aos piores abusos, sem esboçar nenhuma reação.

O modus operandi dessa fábrica de boatos é relativamente simples. Tudo começa com uma fonte obscura. Um blog, uma fonte anônima, um dossiê apócrifo, uma postagem em um fórum na internet. Os boatos são então replicados por jornais sensacionalistas de viés conservador da Coreia do Sul, como o “Chosun Ilbo” ou o “Dong-a Ilbo”, e começam a ganhar tração.

Quando não é a origem direta desses boatos, a Radio Free Asia ajuda a espalhá-los e a revesti-los com alguma aura de credibilidade. Por vezes, as matérias são enriquecidas com relatos de “dissidentes” ou denúncias de ONGs europeias e norte-americanas. Em alguns casos, as reportagens são alimentadas por “informações exclusivas” oriundas das próprias agências de inteligência da Coreia do Sul.

Àvidos por matérias bizarras sobre atrocidades do regime norte-coreano, os grandes veículos da mídia ocidental replicam a informação no estado em que a recebem, tratando-a como autenticada ou consubstanciada por fontes credíveis e fiáveis. Caso sejam desmentidos, os jornais simplesmente ignoram o assunto. Na melhor das hipóteses, usam a desculpa de que “o ambiente politicamente fechado impede a checagem”.

A demanda da grande mídia por boatos bizarros sobre a Coreia do Norte é tão grande que uma simples tradução ruim ou uma piada podem virar matéria e ganhar o mundo. É o que ocorreu em 2012, quando jornais norte-americanos publicaram reportagens dizendo que cientistas norte-coreanos afirmaram ter encontrado unicórnios vivendo no país.

Na verdade, o que os arqueólogos norte-coreanos divulgaram foi a descoberta de vestígios de um mausoléu histórico nos arredores de Pyongyang, que fora batizado com o nome de “Lar dos Unicórnios”. O relato foi mal traduzido e tratado como piada por uma página na internet, gerando matérias sensacionalistas que se espalharam pelo mundo — e que até hoje não foram desmentidas.

Um outro exemplo vem do Brasil. Em 2014, um streamer brasileiro criou um hoax em um blog de humor dizendo que o governo de Kim Jong-Un teria informado aos seus cidadãos que a Coreia do Norte venceu a Copa do Mundo. A piada foi tratada como informação factual e replicada por diversos jornais do mundo sem qualquer checagem prévia.

Kim Jong-Un e Vladimir Putin na Praça Kim Il-Sung, Pyongyang.

As “ressurreições”

Os boatos mais impressionantes sobre a Coreia do Norte, no entanto, são os que se referem às “vítimas” que teriam sido assassinadas pelo “regime”, mas que reaparecem vivas logo depois.

Esses episódios são tão frequentes que poderiam configurar um subgênero jornalístico: o morto-vivo norte-coreano. O país já acumula mais histórias de “ressurreições” mal explicadas do que os quadrinhos da Marvel.

Essa tradição remonta ao início do governo de Kim Jong-Un. Já em 2011, surgiram boatos dizendo que Kim Ok, a ex-secretária pessoal de Kim Jong-Il, fora assassinada ou enviada para um campo de concentração por ordem do novo líder. Em 2013, no entanto, ela apareceu sendo condecorada em uma cerimônia pública.

Também em 2013, a imprensa noticiou com consternação o assassinato de Hyon Song Wol, uma artista norte-coreana identificada como ex-namorada de Kim Jong-Un. Republicando informações repassadas pela agência Chosun Ilbo, a mídia ocidental relatou que Hyon Song-Wol teria sido flagrada vendendo vídeos pornográficos e, por esse motivo, o líder norte-coreano ordenou que fosse executada por um pelotão de fuzilamento.

No entanto, a artista reapareceu viva e cantando algumas semanas depois em um evento cultural. Hyon Song-Wol não apenas “ressuscitou” como foi indicada para integrar o Comitê Central do Partido do Trabalho da Coreia. Ela também fez parte de uma delegação diplomática enviada para iniciar conversas com o governo sul-coreano em 2018.

Em 2014, Kim Jong-Un foi acusado de assassinar sua própria tia, Kim Kyong-Hui, a irmã do fundador da República Popular da Coreia. Conforme relatado pela CNN, ela teria sido envenenada por conta de disputas políticas. A narrativa caiu por terra em 2020, quando Kim Kyong-Hui foi filmada em uma cerimônia de comemoração do ano-novo lunar ao lado do sobrinho.

Em 2015, foi a vez do Ministro da Defesa da Coreia do Norte, Hyon Yong-Chol. As agências ocidentais se escandalizaram diante do trágico destino do burocrata. Hyon Yong-Chol fora flagrado cochilando durante uma cerimônia militar, justamente quando Kim Jong-Un proferia um discurso.

Indignado com a insolência, o líder norte-coreano ordenou que Hyon Yong-Chol fosse executado por uma bateria de armas antiaéreas. O caso virou notícia até no Jornal Nacional, mas foi desmentido quando o ministro reapareceu vivo em uma cerimônia transmitida pela televisão da Coreia do Norte duas semanas depois.

Em 2016, a mídia noticiou que o chefe do Estado-Maior do exército norte-coreano, Ri Yong Gil, fora executado a mando de Kim Jong-Un, sob a acusação de “proselitismo, abuso de autoridade e corrupção”. O caso foi fartamente coberto pela CNN, que chegou a dizer que confirmou a história com fontes anônimas do próprio governo norte-coreano. Três meses depois, entretanto, Ri Yong Gil apareceu vivo durante um evento do Partido do Trabalho da Coreia.

Duas novas “ressurreições” ocorreram em 2019. A imprensa ocidental relatou que o diplomata Kim Yong Chol e um outro negociador teriam sido executados a mando de Kim Jong-Un. O líder norte-coreano estaria insatisfeito com a inabilidade diplomática da dupla durante as negociações com os Estados Unidos.

Três dias depois de ter sua “morte” confirmada pelas agências de notícias ocidentais, Kim Yong Chol apareceu em uma transmissão ao vivo da televisão norte-coreana. O outro diplomata “ressurgiu” alguns dias depois, acompanhando o próprio Kim Jong-Un em uma exposição de arte.

Em abril de 2020, foi a vez do próprio Kim Jong-Un “ressuscitar”. Um portal norte-americano assegurou que o mandatário havia morrido por complicações decorrentes de uma cirurgia cardíaca. Posteriormente, uma revista japonesa “corrigiu” a informação, esclarecendo que o líder norte-coreano não havia morrido, mas estava em estado vegetativo. Kim Jong-Un reapareceu em perfeito estado de saúde no mês seguinte.

Todas as matérias sobre supostas execuções ordenadas por Kim Jong-Un são amplamente difundidas por veículos de grande alcance. Quando são desmentidas, no entanto, a regra é o silêncio. Não há pedido de desculpas, não há esclarecimentos. Na maioria dos casos, não há sequer divulgação de que a informação anterior era um boato.

O resultado é a distorção da percepção sobre a realidade da Coreia do Norte. Mesmo na esquerda ocidental, prepondera uma visão negativa sobre o país e suas lideranças. Uma percepção que não é calcada em análises objetivas, mas majoritariamente construída com base em desinformação, boatos e manipulações grosseiras.

A imprensa também parece estar desenvolvendo meios para evitar o desgaste do contraditório. Nos últimos anos, as reportagens sobre “abusos de direitos humanos” na Coreia do Norte têm priorizado relatos sem nomes ou identificação das vítimas.

As matérias apenas afirmam que pessoas foram executadas por motivos banais, como ouvir K-pop ou ver doramas, sem dizer os nomes das supostas vítimas. É uma estratégia eficaz para continuar difundindo boatos sem dar margem para desmentidos.