Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Há 19 anos, em 17 de agosto de 2007, ocorria em São Paulo o principal ato do “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, mais conhecido como “Cansei”. Criado por iniciativa de João Doria, o movimento reunia socialites, empresários e celebridades e tinha por objetivo denunciar o “apagão aéreo” de 2006-2007, atribuindo sua responsabilidade ao governo Lula.

A iniciativa surgiu justamente no momento em que a aviação comercial se popularizava e os voos deixavam de um ser um meio de transporte restrito às camadas mais ricas da sociedade. A despeito da grande exposição midiática e do apoio de famosos, o “Cansei” não conquistou apoio popular. O movimento foi percebido como golpista e elitista e acabou se dissolvendo em poucas semanas.

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A popularização dos voos

A crise do sistema aéreo ocorreu, entre outros fatores, pela falta de investimentos em infraestrutura e pelo rápido crescimento do número de passageiros gerado pela ascensão da “classe C” nos primeiros mandatos de Lula.
Com a economia crescendo a uma média de quase 4% ao ano, aliada à redução histórica do índice de desemprego, à política de valorização do salário mínimo (que atingiu seu maior valor relativo desde 1965) e à consolidação de programas sociais que reduziram a pobreza extrema em 75%, o Brasil assistiu ao período de maior mobilidade social de sua história.

Ao todo, 36 milhões de pessoas saíram da miséria e 60% dos brasileiros apresentaram incremento em sua renda. A ascensão social gerou uma “nova classe média”, que passou a financiar a casa própria, cursar a universidade, comprar motocicletas e automóveis e, principalmente, viajar de avião.

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Tendo como enfoque essa clientela, as companhias aéreas empreenderam um processo de popularização das passagens. Dezenas de milhões de brasileiros começaram a frequentar os aeroportos pela primeira vez e a fazer viagens domésticas e internacionais — um privilégio até então restrito às classes mais abastadas. Dados divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) registraram que o Brasil teve um incremento de quase 60 milhões de novos passageiros durante os governos petistas.

O “caos aéreo”

A expansão do número de passageiros levou à criação de gargalos no sistema aéreo, agravando significativamente as deficiências e os problemas de capacidade que já se acumulavam há décadas. O país sofria com equipamentos defasados e com problemas na capacidade de processamento do sistema de controle de tráfego aéreo.

Os passageiros tinham de lidar com aeroportos lotados, longas filas nos guichês, congestionamento nas pistas de pouso e déficit de profissionais para o controle de voo. A situação se agravou ainda em 2006, após a crise financeira da Varig sobrecarregar as companhias aéreas e aumentar ainda mais as filas.

Visando explorar a situação em favor da narrativa antipetista, a grande imprensa não poupou esforços em elevar ao máximo o potencial dramático da crise. Diariamente, os jornais e a mídia televisiva traziam reportagens sobre o “caos nos aeroportos” e entrevistavam passageiros indignados por ficarem duas horas aguardando para realizar o check-in.

O termo “apagão aéreo” foi popularizado e surpreendentemente a lotação dos aeroportos se tornou o grande foco dos debates políticos nacionais — não raramente transparecendo o elitismo explícito e o preconceito de classe expressos no desconforto das camadas sociais altas e médias em dividir espaços com a “classe C”.

O ápice da crise ocorreu em 17 de julho de 2007, quando a aeronave que fazia o voo 3054 da TAM sofreu um acidente ao pousar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A aeronave — um Airbus A320-233, transportando 187 pessoas — colidiu contra um galpão e um posto de gasolina ao ultrapassar os limites da pista de pouso e invadir a Avenida Washington Luís.

O relatório publicado dois anos depois pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos apontou que o acidente teria derivado de uma falha mecânica ou de um erro do piloto, ao configurar incorretamente os manetes. A imprensa e a oposição, entretanto, imediatamente vincularam o acidente à crise aérea, atribuindo a responsabilidade direta pelas mortes ao governo petista.

Manifestação do movimento ‘Cansei’
Reprodução/Pragmatismo Político

“Cansei”

Poucos dias após o acidente, o empresário João Doria se uniu ao executivo Paulo Zottolo, então presidente da Philips, e ao advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), para lançar o “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”.

O movimento ficaria conhecido pelo lema “Cansei”, que estampava as campanhas, faixas, camisetas e materiais publicitários, e tinha por objetivo criticar o “caos aéreo”, a “corrupção” e “falta de segurança” do governo Lula.

A iniciativa ganhou apoio de entidades patronais, sobretudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), e de diversas associações comerciais, além de ser promovido por atores globais, apresentadores de televisão, cantores e celebridades em geral.

O principal ato organizado pelo movimento foi um protesto na Praça da Sé, no centro de São Paulo. O evento, fartamente anunciado na mídia, foi marcado para 17 de agosto de 2007, aniversário de um mês do acidente aéreo.

A manifestação contou com a presença de diversos famosos, incluindo celebridades da televisão (Hebe Camargo, Ana Maria Braga, Regina Duarte, Boris Casoy, Paulinho Vilhena), cantores (Ivete Sangalo, Seu Jorge, Sérgio Reis, Zezé di Camargo), atletas (Lars e Torben Grael, Fernando Scherer, Caio Ribeiro), empresários e socialites (Gabriel Chalita, Beth Szafir, Patrícia Rollo).

O protesto

Apesar das convocatórias e da presença de celebridades, a adesão ao protesto foi baixa: cerca de 5 mil pessoas compareceram à Praça da Sé. Embora os idealizadores afirmassem que a iniciativa era “apartidária”, a manifestação foi marcada por gritos de “Fora Lula” e “Fora PT” e muitas vaias ao mandatário.

Convidados ao ato, os parentes das vítimas do acidente, que vieram de várias partes do Brasil, foram ignorados pela organização. Ficaram presos na rampa de acesso, sem permissão para ir até o palco, que foi reservado para as celebridades. Os organizadores sequer anunciaram a presença dos parentes.

Agnaldo Rayol cantou o Hino Nacional e o mestre de cerimônias João Batista de Oliveira citou um trecho do Hino do Exército, exortando o público a “lutar pela pátria com fervor”. Já o padre Antônio Maria evocou a inspiração divina. “Hoje, Deus diz para nós: ‘Estou cansado’. Deus está cansado”, afirmou.
Identificado como uma manifestação do antipetismo da elite brasileira, o movimento se tornou alvo de zombaria.

As cenas de socialites e celebridades multimilionárias enroladas na bandeira nacional, ostentando óculos de grife e acessórios de luxo enquanto berravam que estavam cansadas eram intragáveis.

Para piorar, um dos organizadores do evento, Paulo Zottolo, deu uma declaração lamentável ao criticar a gestão do governo Lula. “Não se pode pensar que o Brasil é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez”, afirmou o presidente da Philips, complementando que “se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado”.

A declaração de Zottolo lhe rendeu o título de “persona non grata” no estado do Piauí e conferiu ao movimento a pecha adicional de xenófobo. Wadih Damous, presidente da seccional fluminense da OAB e parlamentar do PT, classificou o “Cansei” como “um movimento de fundo golpista, estreito, que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas do estado de São Paulo”.

Até mesmo Cláudio Lembo, governador de São Paulo, criticou a manifestação, dizendo que o movimento tinha “figuras conhecidas que sempre possuíram e possuem uma visão elitista do país e da sociedade” e ironizando o lema “Cansei” como um termo tipicamente usado por “dondocas enfadadas em algum momento das vidas enfadonhas que vivem”.

A cozinheira Conceição Aparecida dos Santos, moradora de uma ocupação no centro, pediu a palavra, mas foi convidada a se retirar. “Os pobres é que estão cansados. Pedi aos organizadores para falar ao microfone, não deixaram. Moro em uma ocupação aqui no centro, e eles estão para nos despejar”, afirmou aos repórteres da Folha de S. Paulo.

O movimento não conseguiu mobilizar a população e se diluiu em poucas semanas. O “cansaço” dos endinheirados com a presença do povo nos aeroportos, no entanto, ainda persistiu por muitos anos. Não foram poucos os episódios de colunistas e socialites queixando-se de que seu porteiro estava viajando para Paris ou que o novo público dos aeroportos tornavam o espaço menos condigno, “parecendo rodoviária”.