Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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Há 39 anos, em 22 de julho de 1987, o cartunista palestino Naji al-Ali era baleado na cabeça enquanto andava pelas ruas de Londres. O atentado o deixou em coma e resultou na sua morte 38 dias depois, em 29 de agosto.

Naji al-Ali foi expulso da Palestina aos 10 anos de idade, durante a operação de limpeza étnica promovida pelas forças militares israelenses. Vivendo como refugiado no Líbano, ele se destacou como um dos maiores cartunistas do século 20, produzindo obras que denunciavam os crimes de Israel, criticavam a omissão da comunidade internacional e celebravam a resistência. Sua criação mais icônica é Handala, um menino refugiado que até hoje se destaca como um dos maiores símbolos do povo palestino.

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O principal suspeito do assassinato de Naji era Ismail Sowan, um agente duplo que trabalhava para o Mossad, o serviço secreto israelense. Ele chegou a ser preso pela polícia britânica, mas não foi indiciado pelo crime. O caso permanece sem solução até hoje.

A infância, a Nakba e a vida no exílio

Naji Salim Hussain al-Ali nasceu por volta de 1938 em Al-Shajara, uma pequena aldeia de camponeses situada na região da Galileia, no norte da Palestina. Sua infância transcorreu em um período turbulento, marcado pela ocupação britânica e pela expansão colonial sionista. Diversos assentamentos judeus foram fundados na Galileia ao longo dos anos 30, resultando em violentas disputas fundiárias e no deslocamento forçado da população nativa.

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As tensões chegaram ao ápice em 1948, após a Assembleia Geral da ONU aprovar a Resolução 181, determinando a partilha do território palestino e a criação do Estado de Israel. Buscando garantir o domínio completo sobre a região, grupos paramilitares sionistas lançaram uma sangrenta operação de limpeza étnica – chamada pelos palestinos de “Nakba”, ou “Catástrofe”. As ofensivas sionistas resultaram na expulsão de 750 mil palestinos de suas terras. Centenas de aldeias foram destruídas e mais de 15 mil palestinos foram assassinados.

Al-Shajara foi um dos muitos vilarejos despovoados pelas forças sionistas. Em maio de 1948, a aldeia foi atacada por soldados da Brigada Golani, que mataram ao menos 20 pessoas e expulsaram o restante da populçaão. A família de Naji buscou refúgio no sul do Líbano, estabelecendo-se no campo de refugiados de Ain al-Hilweh, nos arredores de Sídon.

A experiência do exílio moldou profundamente a visão de mundo de Naji Al-Ali. Ele vivia em uma tenda de dez metros quadrados, em uma comunidade que sofria com a exclusão social e infraestrutura precária. A condição dos refugiados se tornaria um tema central de sua produção artística, povoada por imagens de famílias deslocadas, idosos carregando as chaves de suas antigas casas e crianças vivendo entre barracas e ruínas.

Naji cursou o ensino básico em uma escola da União das Igrejas Cristãs. Conciliava o estudo com o trabalho na lavoura, plantando e colhendo laranjas e azeitonas. Ainda adolescente, mudou-se para Trípoli, no norte do Líbano, onde frequentou uma escola técnica mantida por missionários. Em 1953, já formado como mecânico de automóveis, Naji se mudou para Beirute, passando a viver no campo de refugiados de Chatila.

A carreira artística e a militância política

Entre 1957 e 1959, Naji trabalhou como mecânico na Arábia Saudita, conseguindo economizar dinheiro para construir uma casa para sua família. Nas horas vagas, dedicava-se a desenhar, demonstrando uma habilidade singular de sintetizar ideias complexas em imagens simples, imbuídas de forte impacto emocional.

Após retornar ao Líbano, Naji se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe (MNA), uma organização panarabista fundada por George Habash, que congregava elementos do nacionalismo árabe e princípios do socialismo revolucionário. Atuou em diversas ações do grupo, distribuindo panfletos, organizando passeatas e colaborando com o jornal Al-Sarkha.

Em 1960, intencionando dar vazão à sua vocação artística, Naji se matriculou na Academia Libanesa de Belas Artes. A militância no MNA, no entanto, o transformou em alvo da perseguição política, resultando em uma série de prisões e inviabilizando a conclusão do curso. Apesar disso, Naji conseguiu um emprego como professor de desenho em uma escola infantil da cidade de Tiro.

A carreira artística de Naji foi impulsionada pelo escritor Ghassan Kanafani, outro destacado militante do MNA e da resistência palestina. Impressionado com os desenhos de Naji ao visitar uma exposição no campo de Ain al-Hilweh, Kanafani tomou a iniciativa de publicar seus trabalhos na revista “Al-Hurriya”. Os desenhos foram muito elogiados e abriram as portas para Naji al-Ali trabalhar como cartunista.

Em 1963, Naji se mudou para o Kuwait, país que abrigava uma expressiva comunidade de intelectuais palestinos e uma imprensa relativamente dinâmica. Foi lá que ele começou a publicar regularmente charges e cartuns, desenvolvendo a linguagem visual que o tornou internacionalmente reconhecido.

Naji trabalhou como editor, ilustrador e diretor artístico do semanário nacionalista “Al-Tali‘a”. Após o fechamento da revista em 1968, colaborou com o diário “Al-Seyassah”. O artista alternou períodos entre Kuwait e Beirute, trabalhando também para o diário “As-Safir”, um dos principais jornais do Líbano.

Ao longo de sua carreira, Naji produziu mais de 40 mil desenhos, retratando a violência da ocupação israelense, a resistência popular, os bombardeios, a expulsão dos civis, os assentamentos ilegais e a situação dos refugiados. Criticava não apenas o regime de Israel e a política externa dos Estados Unidos, mas também a hipocrisia e a inércia dos governos árabes e as concessões e posições recuadas da Organização para Libertação da Palestina (OLP).

Os cartuns de Naji eram composições relativamente simples, mas de forte impacto emocional. Com poucos traços, o artista conseguia sintetizar críticas políticas bastante sofisticadas. Suas obras eram construídas a partir de uma perspectiva de classe evidente, dialogando com as lutas dos povos oprimidos em todo o mundo. Frequentemente, o autor recorria a uma ironia amarga, construída a partir do contraste entre os discursos oficiais dos governantes e a realidade vivida pela população.

Naji al-Ali foi assassinado há 39 anos
Instituto de Estudos Palestinos

Handala

Foi nas páginas do jornal “Al-Seyassah” que surgiu Handala, o mais famoso dos personagens criados por Naji al-Ali. Publicado pela primeira vez em julho de 1969, Handala é um menino palestino de 10 anos de idade. Ele está sempre descalço, com as roupas esfarrapadas e os cabelos eriçados. Handala é sempre retratado de costas para o observador, com as mãos cruzadas atrás do corpo.

Todos os elementos na figura de Handala possuem um simbolismo. Sua idade corresponde à idade em que Naji foi expulso de sua terra. O menino não envelhece – um recurso que evoca a infância interrompida pela guerra e pelo exílio.

Os trajes em farrapos e os pés descalços simbolizam a pobreza e a exclusão social imposta aos refugiados. Handala está de costas para o mundo pois se recusa a aceitar uma realidade marcada pela injustiça e pela ocupação. Seu rosto somente será revelado quando os refugiados palestinos puderem retornar para suas casas.

Handala se converteu em um dos mais populares símbolos do povo palestino e da resistência contra a ocupação sionista. Até hoje o personagem ilustra murais, grafites, cartazes, livros, manifestações e obras de arte. Naji definiu Handala como “uma bússola que está sempre apontando para a Palestina”. Era uma espécie de “personificação” da memória coletiva dos refugiados, reafirmando a luta contra o apagamento histórico e o esquecimento.

O sucesso de Handala consagrou definitivamente a carreira de Naji al-Ali. Em 1979, o desenhista foi eleito presidente da Liga de Cartunistas Árabes. Ele também integrou o secretariado-geral da União de Escritores e Jornalistas Palestinos.

Entre 1976 e 1985, Naji publicou três livros com compilações de suas obras. O desenhista foi premiado na Exposição de Caricaturas Árabes de Damasco e foi eleito como um dos 10 cartunistas mais importantes do mundo pelo jornal japonês Asahi Shimbun.

Exílio em Londres e assassinato

Naji seguiu trabalhando no jornal “As-Safir” até 1982, quando as tropas israelenses invadiram o Líbano. Após ser preso pelas forças ocupantes em Ain al-Hilweh, o cartunista retornou para o Kuwait, passando a trabalhar para o jornal “Al-Qabas”.

Cedendo às pressões de Israel, o governo kuwaitiano expulsou Naji al-Ali em 1985. O palestino buscou refúgio em Londres, onde continuou trabalhando no escritório local do “Al Qabas” e preparando o lançamento de seu quarto livro.

Em 22 de julho de 1987, enquanto caminhava até o escritório do jornal, Naji al-Ali foi alvejado com um tiro na cabeça. O desenhista foi socorrido pelos transeuntes e levado às pressas para o Hospital Charing Cross, mas acabou falecendo em 29 de agosto de 1987, após passar 38 dias em coma.

Naji foi sepultado no Cemitério de Brookwood. Sua morte provocou indignação e comoção. Intelectuais, artistas, jornalistas e líderes políticos palestinos organizaram homenagens ao cartunista e pressionaram pela identificação e punição dos assassinos.

O principal suspeito do assassinato foi preso ainda em 1987. Tratava-se de Ismail Sowan, um palestino que atuava como pesquisador na Universidade de Hull. Durante as investigações, a polícia de Londres descobriu que Ismail era um agente duplo do Mossad, o serviço secreto israelense. Ele havia recebido a missão de se infiltrar em uma célula de operações especiais da OLP, conhecida como Força 17.

Ismail Sowan admitiu que trabalhava para o Mossad, mas negou envolvimento no crime. Ele foi condenado a 11 anos de prisão por porte ilegal de armas e explosivos. As investigações prosseguiram, revelando o envolvimento de outros agentes israelenses. A polícia britânica também descobriu que o Mossad tinha conhecimento prévio sobre o plano para assassinar Naji.

A revelação de que o Mossad mantinha uma base com armas e explosivos em Londres causou um incidente diplomático e constrangeu o governo de Margaret Thatcher. O governo britânico expulsou diplomatas israelenses e ordenou o fechamento da base do serviço secreto. Membros da OLP também foram expulsos do país.

O assassinato de Naji al-Ali nunca foi totalmente esclarecido e ninguém foi formalmente punido pelo crime. A investigação foi reaberta em 2017, mas não trouxe quaisquer avanços.

O cartunista foi postumamente laureado com a “Caneta de Ouro da Liberdade”, outorgada pela Federação Internacional de Editores de Jornais. Uma estátua de Naji al-Ali foi erguida na entrada do campo de refugiados de Ain al-Hilweh, mas foi destruída por uma bomba pouco tempo depois. O monumento chegou a ser restaurado, mas voltou a ser destruído logo após a reinauguração.