Negro Matapacos: o cão que se tornou símbolo da luta popular no Chile
Enfrentando bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água, um cachorro de rua entrou para história chilena e latina como protagonista das manifestações populares
Os protestos estudantis que irromperam no Chile em 2011 pavimentaram o caminho para a ascensão de diversas lideranças políticas, incluindo o ex-presidente Gabriel Boric. O manifestante mais carismático, no entanto, andava sobre quatro patas e ostentava um lenço vermelho amarrado ao pescoço, contrastando com sua pelagem preta.
Seu nome era “Negro Matapacos”, um cão vira-lata que vivia nas ruas de Santiago. Falecido há exatos 9 anos, em 26 de agosto de 2017, ele se tornou um símbolo da luta popular e da resistência contra a repressão policial.
Batizado inicialmente como “El Negro”, o cão costumava perambular pelos ambientes universitários da capital chilena, ganhando afagos e petiscos dos alunos. Era sempre visto nos arredores da Universidade de Santiago do Chile (USACH), da Universidade Tecnológica Metropolitana (UTEM) ou da Universidade Central (UCEN).
Em 2009, Negro foi adotado por Maria Campos, uma mulher que vivia a poucas quadras da USACH. Ganhou casa, comida e uma cama confortável, mas manteve o hábito de sair às ruas para rever seus amigos universitários.
A “carreira militante” de Negro teve início em 2011, quando milhares de estudantes chilenos foram às ruas reivindicar educação pública de qualidade, gratuita e acessível. A insatisfação tinha como pano de fundo o alto endividamento dos estudantes, obrigados a frequentar colégios e universidades particulares, privatizados durante a ditadura. O movimento se tornou uma das mais importantes mobilizações sociais do Chile das últimas décadas, colocando em questão o modelo educacional herdado da ditadura de Augusto Pinochet.
Negro adquiriu o hábito de acompanhar os estudantes durante os protestos, sempre com seu pescoço adornado pelo lenço vermelho. Ele seguia os alunos ao longo de toda a marcha. Quando a polícia era enviada para atacar os manifestantes, o cão revidava, latindo, rosnando e ameaçando morder os carabineiros.
O corajoso rebelde de quatro patas estava sempre disposto a enfrentar canhões d’água e bombas de gás lacrimogêneo. Em referência à sua combatividade, acabou adquirindo o apelido de “Matapacos” (matador de policiais).
Apesar do nome forte, Negro Matapacos nunca chegou a ferir ninguém. Ocorreu, no entanto, o oposto. O cãozinho foi agredido pelos policiais em algumas ocasiões e chegou até mesmo a ser atropelado por uma viatura.
A imagem do cão se tornou um símbolo poderoso da luta popular, eternizado através de fotografias que o retratavam em poses dramáticas de enfrentamento aos policiais. Em 2013, ele se tornou objeto de um documentário intitulado “Matapacos”, dirigido por Víctor Ramírez. A obra ajudou a consolidar sua fama e a consagrá-lo como um personagem da história política chilena.
Matapacos continuou participando das mobilizações populares nos anos seguintes, até sua morte em 2017. Ele faleceu de causas naturais, assistido por veterinários e cuidadores. Tinha cerca de 12 anos de idade. Fontes mencionam que ele teria deixado cerca de 32 filhotes com seis cadelas diferentes.
A contribuição de Matapacos não se encerrou com sua morte. Ele voltaria aos holofotes dois anos depois, em outubro de 2019. Um movimento que começou com protestos contra o aumento da tarifa do metrô de Santiago se expandiu rapidamente, transformando-se em uma grande revolta social, envolvendo reivindicações relacionadas a salários dignos, direito à aposentadoria, saúde, educação, combate à desigualdade — contestando, enfim, todo o modelo econômico e político construído durante a ditadura.

Negro Matapacos. Fotografia por Nando.
Via Flickr (licença Creative Commons BY-NC-SA 2.0)
Reivindicada pelos manifestantes, a imagem de Matapacos passou a aparecer em cartazes, bandeiras, adesivos, camisetas, grafites, estênceis, caricaturas, memes e até esculturas e murais. O cão se tornaria uma representação visual do próprio “estalido social”. Sua figura cruzou fronteiras, aparecendo em protestos contra a violência policial nos Estados Unidos, adornando murais no México e inspirando monumentos em Tóquio e Nova York.
Assim como todos os símbolos caros à mobilização popular, o cão também se tornou alvo das ofensivas da direita chilena. Líderes políticos e influenciadores passaram a criticar o uso de sua imagem como “apologia à violência contra os policiais”.
Cedendo à pressão dos conservadores, Gabriel Boric, companheiro de protestos de Matapacos durante as manifestações de 2011, tratou de se distanciar do cão. “Nunca comemorei ou dei qualquer sentido àquela imagem grosseira daquele cachorro, o cão assassino de policiais, como o chamavam. (…) Considero isso ofensivo, degradante e não é assim que entendo que a política deva ser feita”, afirmou o mandatário.
As muitas concessões de Boric não bastaram para impedir a derrota de sua coalizão nas eleições de 2025. Amargando um índice de aprovação de apenas 28%, o líder chileno viu sua candidata à sucessão, Jeannette Jara, ser derrotada pelo ultradireitista José Antonio Kast no pleito.
Matapacos, ao contrário, fez seu sucessor. Em 2019, durante os protestos estudantis em Antofagasta, um cão de rua chamado “El Vaquita” se somou à luta. Assim como Matapacos, ele se distinguia pelo hábito de avançar contra os policiais que tentavam atacar os manifestantes. E, ao contrário da coligação de esquerda, El Vaquita conseguiu se firmar nas urnas. Foi eleito como a Personalidade do Ano de 2019, superando todos os seus concorrentes humanos.























