Há 99 anos, em 14 de setembro de 1927, falecia Isadora Duncan. A dançarina norte-americana foi vítima de um trágico acidente, quando a echarpe que usava em volta do pescoço se enroscou na roda de um carro conversível.
Isadora Duncan foi a pioneira da dança moderna, influenciando profundamente os movimentos de vanguarda do século 20. Rompendo com as posições codificadas e com as convenções rígidas do balé clássico, ela criou um estilo original que priorizava a espontaneidade e a expressão emocional, buscando inspiração na arte grega antiga, na poesia, nos elementos da natureza e nos movimentos espontâneos do corpo humano.
A dançarina também se destacou por sua militância política. Defensora do feminismo, da liberdade sexual e do socialismo, ela se aproximou do movimento operário e apoiou a Revolução de Outubro de 1917. Isadora chegou a se mudar para a União Soviética e implementou um ambicioso projeto que pretendia formar indivíduos emancipados e livres através da dança — o que a tornou alvo de ataques e campanhas difamatórias nos Estados Unidos.
Angela Isadora Duncan nasceu em 26 de maio de 1877, em São Francisco, Califórnia. Ela era a caçula dos quatro filhos do banqueiro Joseph Charles Duncan e da professora de piano Mary Dora Gray. O banco de Joseph foi à falência no mesmo ano em que Isadora nasceu, deixando a família em condições difíceis.
Irritada com o escândalo financeiro e farta dos casos extraconjugais do marido, Mary pediu o divórcio. Ela se mudou com os filhos para Oakland e passou a criá-los sozinha, dando aulas de piano e trabalhando como costureira. Isadora foi bastante influenciada pela personalidade forte e pela visão de mundo de sua mãe. Pioneira do feminismo, Mary incentivava a filha a ler autores liberais e a desenvolver seus talentos artísticos.
Isadora demonstrou enorme talento para a dança desde a infância. Aos nove anos de idade, a menina passou a ter aulas de balé clássico. A técnica rígida e a afetação estética a incomodavam. Anos depois, ela diria que as aulas de balé a faziam se sentir como uma “marionete articulada”, produzindo “movimentos mecânicos artificiais, indignos da alma”.
Com apenas dez anos de idade, Isadora já dava aulas de dança para as crianças do seu bairro. Nos anos seguintes, rejeitando os cânones do balé clássico, ela desenvolveu um estilo de dança único, focalizando movimentos livres, expressivos e naturais.
Determinada a seguir a carreira artística, Isadora viajou pelos Estados Unidos fazendo audições para grupos de balé e teatro. Após uma breve passagem por Chicago, ela seguiu viagem para Nova York, onde foi aluna de Marie Bonfanti.
Em 1896, Isadora ingressou na companhia teatral de Augustin Daly, um dos mais influentes dramaturgos do século 19. Seu estilo espontâneo e improvisado e a rejeição aos cânones do balé clássico, no entanto, geraram muitos atritos e crescente insatisfação.
Sentindo-se desvalorizada e sufocada pelo conservadorismo cultural e pelo puritanismo dos Estados Unidos, Isadora se mudou para a Europa no fim da década de 1890, buscando terreno mais fértil para suas ideias. Inicialmente estabelecida em Londres, ela conquistou a chance de se apresentar nos salões frequentados pela aristocracia britânica e obteve uma ascensão meteórica.
Na Europa, Isadora consolidaria o estilo de dança que havia começado a desenvolver ainda na infância. Elegendo a liberdade de movimento e a expressividade como os sustentáculos de sua arte, ela se consagraria como a pioneira da dança moderna e contemporânea.
Isadora buscava superar o modelo artificial e restritivo do balé clássico, abolindo o enfoque na disciplina corporal rígida, nas posições codificadas e nos figurinos sufocantes de espartilhos, tutus e sapatilhas. Ela dançava descalça, com os cabelos soltos, e criava suas coreografias buscando referências nos movimentos espontâneos das crianças ou nos elementos da natureza, como as ondas do mar ou o ritmo dos ventos.
Acima de tudo, Isadora tentava substituir a obsessão com a perfeição técnica pela liberdade de criação. Buscava também inspiração na arte da Grécia Antiga, nos poemas e até nos esportes. Sempre se apresentava trajando túnicas soltas e leves, que deixassem seu corpo livre.
Para Isadora, os movimentos deveriam nascer de um impulso interior autêntico, oriundo do plexo solar, e não decorados a partir de posições pré-estabelecidas. Os cenários eram simples, quase sempre se limitando a um palco vazio com uma cortina, de modo a dar destaque total às expressões corporais.
Isadora também passou a coreografar e improvisar sobre obras musicais de grandes compositores como Beethoven, Chopin, Wagner e Brahms — uma decisão que chocou as plateias conservadoras. Em 1904, ao se apresentar na Alemanha ao som da “Sétima Sinfonia” de Beethoven, a dançarina causou um grande escândalo e foi acusada de “profanar” a música instrumental germânica, destinada apenas às salas de concerto.
Apesar das críticas conservadoras, Isadora fez um sucesso estrondoso na Europa. Ela acompanhou Loie Fuller em uma grande turnê e se apresentou em palcos prestigiados de cidades como Paris, Berlim, Viena e Budapeste. Habituée dos círculos artísticos e intelectuais, tornou-se amiga e inspiração para nomes como Antoine Bourdelle, Auguste Rodin, Pablo Picasso e Aleister Crowley. Adepta do amor livre, ela teve diversos amantes famosos, tanto homens quanto mulheres.
Em 1905, durante uma série de apresentações na Rússia, a dançarina testemunhou a agitação popular que se seguiu ao massacre dos trabalhadores pelas tropas czaristas no “Domingo Sangrento”, culminando com a Revolução de 1905. O acontecimento a marcou profundamente e contribuiu para o seu crescente interesse no socialismo. A viagem também a colocou em contato com nomes como Michel Fokine e Serguei Diaguilev, contribuindo para impulsionar a renovação do balé europeu.
Isadora enxergava a dança como um importante instrumento de educação e emancipação, sobretudo para as mulheres. Ela acreditava que superar as amarras mecânicas e artificiais do balé clássico ajudaria a libertar a arte do domínio da aristocracia. Assim, a partir de 1904, a dançarina começou a abrir suas escolas. Em vez de treinar bailarinas profissionais para o entretenimento das elites, ela pretendia ajudar a libertar o espírito e o corpo humano.
A primeira escola de Isadora foi aberta em Grunewald, nos arredores de Berlim. Lá, a dançarina serviu como tutora a um grupo de seis jovens moças conhecidas como “Isadoráveis” (Anna Denzler, Maria-Theresa Kruger, Irma Erich-Grimme, Elizabeth Milker, Margot Jehl e Erica Lohmann), que se tornariam suas protegidas e efetivas continuadoras de seu legado.
Posteriormente, Isadora abriu uma nova escola em Paris, mas a instituição foi fechada após o início da Primeira Guerra Mundial. De volta aos Estados Unidos, ela tentou inaugurar outra escola de dança em Nova York, mas as dificuldades financeiras e a instabilidade de sua rotina inviabilizaram o empreendimento.
A dançarina também excursionou pela América do Sul. No Brasil, visitou a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Protagonizou um episódio polêmico na antiga capital, quando dançou quase nua na Cascatinha da Tijuca, em uma apresentação especial para o cronista João do Rio. Isadora revelou em suas memórias que viveu uma grande paixão no Brasil, mas não disse com quem.
Malgrado seu sucesso profissional, Isadora teve de lidar com tragédias pessoais que a abalaram profundamente. Posicionando-se abertamente contra o casamento, por considerá-lo uma instituição burguesa que aprisionava as mulheres, ela teve dois filhos de relacionamentos abertos — Deirdre Beatrice, com o coreógrafo Gordon Craig, e Patrick Augustus, filho de Paris Singer.
Em 1913, os dois filhos de Isadora morreram afogados quando um automóvel que os conduzia durante um passeio caiu acidentalmente no Rio Sena, em Paris. Sofrendo de profunda angústia após a perda das crianças, Isadora engravidou mais uma vez, agora do artista plástico Romano Romanelli, mas seu terceiro filho também faleceu pouco tempo depois do nascimento. Isadora jamais se recuperou desse trauma, desenvolvendo um quadro de depressão e instabilidade emocional.

Ao longo dos anos, Isadora Duncan desenvolveu uma visão cada vez mais crítica sobre as sociedades burguesas, aderindo integralmente à defesa do pensamento socialista. O ponto culminante do engajamento político de Duncan veio após a Revolução de Outubro de 1917.
Entusiasmada com a promessa bolchevique de construir uma sociedade sem classes e de democratizar o acesso à arte e à educação, Isadora aceitou, em 1921, um convite do governo soviético para se mudar para Moscou e fundar ali uma escola de dança gratuita, financiada pelo Estado e destinada aos filhos da classe trabalhadora.
O convite partiu de Anatoli Lunatcharski, Comissário do Povo para a Educação e um dos principais arquitetos da política cultural soviética. A ideia era que Isadora desenvolvesse uma experiência pedagógica em larga escala, lecionando para milhares de alunos e contribuindo para a criação de uma nova cultura corporal, mais alinhada ao projeto socialista.
Ainda em 1921, Isadora e 100 de suas alunas se apresentaram no Teatro Bolshoi, onde dançaram ao som do hino socialista “A Internacional”, tendo Lenin como convidado especial na plateia. A dançarina participou de diversos projetos, coreografando peças de tom revolucionário e se apresentando em teatros operários e fábricas soviéticas.
Em 1922, Isadora se casou com o poeta russo Serguei Iessienin, principal expoente do Imagismo, uma corrente literária de vanguarda. O casamento foi em parte motivado pelo desejo da dançarina de obter a cidadania soviética. O relacionamento, no entanto, foi bastante conturbado. Alcoólatra e emocionalmente instável, Iessienin provocava brigas e protagonizava escândalos constantes. Após pouco mais de um ano de convivência, o casamento chegou ao fim.
O apoio explícito de Isadora Duncan às ideias socialistas e seu trabalho na União Soviética causaram muitos atritos na sua relação com seu país natal. À época, os Estados Unidos atravessavam a primeira onda da “ameaça vermelha”, marcada pelo clima de pânico moral e pela forte perseguição aos comunistas e anarquistas. Isadora se tornou um alvo frequente de ataques e boatos ventilados pela imprensa e pelos setores conservadores.
Entre 1922 e 1923, Isadora fez uma turnê pelos Estados Unidos que se tornou um pesadelo de relações públicas. Plateias a vaiavam em todas as apresentações e os jornais a acusavam de ser uma “traidora”, uma agente a serviço da “propaganda bolchevique”.
Farta dos ataques, a dançarina resolveu responder com uma performance-protesto no encerramento de seu espetáculo no Symphony Hall, em Boston. Agitando uma echarpe vermelha, Isadora deixou um seio à mostra e gritou para a plateia: “Isso é vermelho e eu também sou”, assumindo com orgulho sua ideologia. A performance causou um escândalo. Acusada de indecência, Isadora foi banida de Boston pelo prefeito James Curley. Os teatros cancelaram suas apresentações e a polícia passou a monitorar todos os seus passos de perto.
Isadora acabou se decepcionando com a falta de apoio do governo soviético ao seu projeto educacional. Em 1924, ela deixou o país e se mudou para a França, onde viveria até sua morte. Os convites para apresentações rarearam e a dançarina passou por dificuldades financeiras e problemas de saúde. Em 1927, publicou sua autobiografia, intitulada “Minha Vida”.
Isadora Duncan faleceu na cidade de Nice, em 14 de setembro de 1927, vitimada por um acidente. Durante um passeio no automóvel conversível de Benoît Falchetto, a longa echarpe de seda que a dançarina usava em volta do pescoço se enroscou na roda do veículo. Isadora foi arremessada para fora do carro e teve seu pescoço quebrado. Ela tinha 50 anos.
O legado artístico de Isadora Duncan teve enorme importância para o desenvolvimento da dança moderna e contemporânea ao longo do século 20, influenciando diretamente coreógrafas como Martha Graham e toda uma geração de artistas que buscaram romper com o formalismo do balé clássico. Suas ideias sobre o corpo livre, a expressão emocional autêntica e a necessidade da democratização da arte seguem vivas até hoje.