Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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Um comentário feito no dia 24 de setembro de 2026 pela jornalista Maria Cristina Fernandes tem gerado debate nas redes sociais. Durante o programa GloboNews Em Pauta, a jornalista falou sobre a existência de um movimento de evangélicos que estaria pressionando por um projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, pontuando o possível impacto político da ação.

Pressionada por bolsonaristas, a emissora pediu desculpas pela afirmação e acrescentou que o projeto de lei ao qual Maria Cristina se referiu foi arquivado em 2008. A correção da GloboNews, no entanto, poderia ser melhor contextualizada. O projeto de lei que demandava a revogação do título de Padroeira do Brasil foi efetivamente apresentado pelo deputado e pastor Victório Galli, que foi nomeado assessor especial do governo de Jair Bolsonaro.

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A afirmação feita por Flávio Bolsonaro de que pretende decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” também parece dialogar com o ativismo antimariano de parte da comunidade evangélica. Há décadas, a figura de Nossa Senhora tem sofrido ataques iconoclastas no Brasil. Um dos episódios mais conhecidos desse fenômeno foi o atentado contra a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ocorrido em 1978.

A imagem de Nossa Senhora Aparecida

Esculpida em terracota por volta do ano 1600, a célebre imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada por três pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul em 1717. Conforme a tradição católica, a escultura foi apanhada pela rede dos pescadores sem a cabeça. Em uma segunda tentativa de capturar os peixes, a cabeça foi encontrada. A partir de então, a pesca, que fora infrutífera ao longo de todo o dia, tornou-se tão abundante que os peixes não cabiam mais no barco.

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O episódio foi interpretado como um sinal de intervenção divina e a pequena imagem, originalmente uma representação de Nossa Senhora da Conceição, passou a ser venerada na casa do pescador Domingos Garcia. Como a santa havia literalmente “aparecido” nas águas do rio, o povo passou a chamá-la de Nossa Senhora Aparecida, dando origem a uma nova invocação mariana.

Não se sabe quem é o autor da imagem, embora alguns historiadores da arte atribuam a peça a Frei Agostinho de Jesus, considerado o “pai da escultura brasileira”. A imagem mede cerca de 36 centímetros de altura e pesa 2,5 quilos. A cor escura da argila, resultado do tempo em que a peça permaneceu submersa no rio, conferiu à imagem um elemento de conexão com a religiosidade popular, permitindo sua identificação com a população negra e mestiça, em um país que ainda sofria com o flagelo da escravidão.

Exposta inicialmente em um pequeno oratório junto ao Porto de Itaguaçu, na atual cidade de Aparecida, a imagem passou a atrair um número cada vez maior de fiéis. Diante do aumento do número de visitantes, o vigário de Guaratinguetá decidiu transferir a peça, em 1745, para uma capela construída para abrigá-la no Morro dos Coqueiros.

O novo espaço não foi suficiente para atender ao crescente número de fiéis. Os diversos milagres e intercessões atribuídos a Nossa Senhora Aparecida tornaram a capela um local de peregrinação em massa. No início do século 19, a fama da imagem já era tão difundida que Dom Pedro I e sua comitiva foram visitá-la. Assim, em 1834, iniciou-se a construção da primeira Basílica de Nossa Senhora Aparecida, inaugurada somente em 1888.

Em 1904, após um decreto da Santa Sé, a imagem foi solenemente coroada com o seu manto azul e a com a coroa de ouro cravejada de rubis e diamantes — presentes ofertados pela princesa Isabel, que passaram a compor sua iconografia mais conhecida. Em 1930, Nossa Senhora Aparecida transformou-se oficialmente na Padroeira do Brasil, por força de um decreto assinado pelo Papa Pio XI.

A antiga basílica logo se tornou pequena para acolher o fluxo de romeiros que não parava de crescer. Em 1955, iniciou-se a construção da nova Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida, projetada pelo arquiteto Benedito Calixto Neto. Com 145 mil m², ela é a maior catedral do mundo e o segundo maior templo católico do planeta, menor apenas que a Basílica de São Pedro, no Vaticano. Transformada em Santuário Nacional em 1983, a catedral recebe, em média, 12 milhões de peregrinos por ano.

O atentado

Após mais de dois séculos como um dos principais símbolos de devoção do povo brasileiro, a imagem de Nossa Senhora Aparecida sofreu um atentado na noite de 16 de maio de 1978. À época, a escultura ainda era conservada na Basílica Velha de Aparecida.

Um blecaute causado por uma forte tempestade havia interrompido a última missa do dia. Aproveitando-se do incidente, Rogério Marcos de Oliveira, um evangélico iconoclasta de 19 anos, invadiu o espaço reservado ao nicho da imagem e quebrou o vidro protetor, agarrando a estátua. Ao perceber o que estava ocorrendo, o sacerdote que conduzia a missa gritou: “Estão roubando a santa!”.

Quando Rogério saltou do nicho, a cabeça da imagem se desprendeu do corpo e caiu no chão, esfarelando-se. O homem conseguiu deixar a basílica levando o corpo da estátua. Um dos seguranças da igreja tentou alcançá-lo. Nesse momento, Rogério arremessou a imagem ao chão, fragmentando-a em mais de 200 pedaços.

Para acalmar os ânimos dos fiéis e tentar evitar que o agressor fosse linchado, o padre Antônio Lino Rodrigues disse aos gritos que a imagem era uma réplica. No dia seguinte, no entanto, o bispo de Aparecida, Dom Geraldo Penido, confirmou que a estátua destruída era mesmo a original.

fragmentos da estátua de Nossa Senhora Aparecida
Imagem de Nossa Senhora Aparecida em pedaços após atentado de 1978
Arquivo pessoal de Maria Helena Chartuni / Wikimedia Commons

Rogério havia se cortado ao quebrar o vidro do nicho onde estava a santa. Após sua captura, ele foi levado à Santa Casa da cidade para receber atendimento médico e, na sequência, conduzido à delegacia. Considerando que o homem sofria de transtornos psiquiátricos, a Igreja Católica optou por não apresentar denúncia. Rogério foi então liberado sem a abertura de inquérito.

Levantamentos posteriores, feitos com base em registros paroquiais e no livro “Aparecida: a biografia da santa que perdeu a cabeça”, do jornalista Rodrigo Alvarez, revelaram que Rogério integrava um grupo protestante que pregava a destruição de imagens religiosas por considerá-las formas de idolatria incompatíveis com os preceitos bíblicos. Antes do atentado em Aparecida, Rogério já havia atacado uma imagem em uma paróquia de São José dos Campos.

Desesperado após o atentado, o reitor do santuário, padre Izidro de Oliveira Santos, entrou em contato com o Vaticano para saber o que fazer. O brasileiro Deoclecio Redig de Campos, conservador dos Museus Vaticanos e responsável pela restauração da Pietà de Michelangelo, recomendou ao padre Izidro que procurasse o Museu de Arte de São Paulo (MASP).

A restauração foi confiada a Maria Helena Chartuni, chefe do Departamento de Restauro do museu. O processo de restauração levou mais de dois meses. A etapa mais delicada foi a cabeça da imagem, que havia sido parcialmente pulverizada na queda. Maria Helena teve de esculpir novamente a porção direita do rosto, baseando-se na comparação com o lado oposto e em réplicas fornecidas pelos padres. Em agosto de 1978, a imagem retornou ao santuário.

Menos de um ano após o restauro, Maria Helena foi chamada às pressas para restaurar novamente a imagem, agora danificada pelo próprio padre Izidro, que a manchou ao tentar fabricar um molde. A restauradora afirmou que o trabalho com a obra a ajudou a recuperar sua espiritualidade. Por esse motivo, Maria Helena se voluntariou para realizar gratuitamente a manutenção anual da imagem enquanto estiver viva. Ela segue até hoje cumprindo a promessa.

Outros ataques

A indignação nacional gerada após o atentado à imagem não impediu a escalada da retórica antimariana. A figura de Nossa Senhora Aparecida permaneceu como alvo de ataques de lideranças de igrejas neopentecostais que consideram o culto de imagens uma forma de idolatria.

Um dos episódios mais emblemáticos foi o caso do “chute na santa”, ocorrido em 12 de outubro de 1995, data em que se celebra o Dia de Nossa Senhora Aparecida. Durante o programa “Show da Fé”, exibido ao vivo pela Rede Record, o pastor evangélico Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, deu chutes e socos em uma imagem da Padroeira do Brasil, ao mesmo tempo em que proferia insultos, rotulando-a como “um boneco feio, horrível e desgraçado”.

O episódio causou comoção nacional. Templos da Igreja Universal foram atacados e o pastor Von Helder foi obrigado a deixar o país. O líder evangélico foi condenado por discriminação religiosa e vilipêndio a objeto de culto. Edir Macedo, anos depois, classificou o episódio como um dos piores erros da Igreja Universal.

Apesar do mea culpa, muitas denominações neopentecostais prosseguiram com a radicalização das críticas à doutrina da Igreja Católica, estimulando novos ataques. Em 2012, um monumento com a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi atacado a marretadas em Águas Lindas de Goiás. Dois anos depois, várias imagens foram destruídas em ataques contra igrejas de Minas Gerais.

Em 2016, um frequentador da Igreja Universal destruiu duas imagens conservadas na Catedral de Santo Antônio, em Duque de Caxias. No ano seguinte, a pastora Zélia Ribeiro, de Botucatu, destruiu uma imagem de Nossa Senhora a marteladas.

Novo ataque ocorreu em Santo Antônio da Platina, no Paraná, em 2021, quando o pastor Miguel Moreira destruiu e queimou uma imagem de Nossa Senhora. Em 2022, um homem destruiu com um bastão uma grande imagem pública da Padroeira, instalada em uma praça de Praia Grande, no litoral paulista.

Buscando validação e apoio junto às bases neopentecostais, lideranças políticas da extrema-direita também têm radicalizado o discurso anticatólico. Em 2021, o deputado estadual Frederico D’Ávila, aliado de Jair Bolsonaro, proferiu insultos ao arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, chamando-o de “vagabundo” e “safado” e acusando-o de usar a batina para fazer “proselitismo político”. Frederico também se referiu ao Papa Francisco como “papa vagabundo”, chamou os líderes católicos de “pedófilos safados” e afirmou que a CNBB era um “câncer que precisa ser extirpado do Brasil”.

Outro episódio ocorreu em 12 de outubro de 2022, quando Jair Bolsonaro visitou o Santuário Nacional de Aparecida durante a campanha eleitoral. A visita provocou críticas de setores da Igreja Católica, incomodados com a transformação do espaço religioso em palanque político. A imprensa registrou apoiadores de Bolsonaro bebendo cerveja e fazendo algazarra nos arredores da basílica. Os bolsonaristas também proferiram vaias ao padre durante a Consagração a Nossa Senhora Aparecida e entoaram palavras de ordem e gritos de “mito” dentro do complexo religioso.

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