Segunda-feira, 15 de junho de 2026
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Há 53 anos, em 18 de maio de 1973, Araceli Crespo, uma menina de apenas 8 anos de idade, era raptada após sair da escola. Seu corpo seria encontrado uma semana depois, desfigurado por ácido, com sinais de tortura e abuso sexual.

Os principais suspeitos do crime eram Paulo Constanteen Helal e Dante de Brito Michelini. Ambos pertenciam a famílias ricas e influentes do Espírito Santo, conhecidas por seus vínculos estreitos com a ditadura militar.

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A apuração do caso foi marcada por irregularidades. Visando proteger os acusados, a ditadura mobilizou o aparato estatal para obstruir a investigação. Ao menos 14 pessoas foram assassinadas para impedir a resolução do caso. Os suspeitos chegaram a ser condenados na Justiça, mas a sentença foi posteriormente anulada.

O desaparecimento

Araceli Cabrera Sánchez Crespo nasceu em São Paulo, em 2 de julho de 1964. Ela era a segunda filha de um casal de imigrantes radicados no Brasil — o eletricista espanhol Gabriel Crespo e a dona de casa boliviana Lola Sánchez.

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Ainda pequena, Araceli se mudou com seus pais e o irmão para Cubatão, na Baixada Santista. A menina desenvolveu problemas respiratórios em função do ar poluído da cidade. A família resolveu, então, mudar-se novamente, passando a viver em uma casa modesta no bairro de Fátima, na cidade de Serra, no Espírito Santo.

Araceli estudava no Colégio São Pedro, localizado na Praia do Suá, na cidade vizinha de Vitória. No dia 18 de maio de 1973, ela deixou a escola mais cedo. A mãe a orientou a antecipar a saída por conta do horário do ônibus, já que a menina retornaria sozinha para casa naquele dia.

Uma testemunha afirmou ter visto Araceli conversando com adultos e brincando com um gato em um bar localizado nos arredores da escola. Essa foi a última vez que ela foi vista com vida.

Angustiado com o sumiço da filha, Gabriel alertou a polícia e iniciou uma busca desesperada pelos hospitais e delegacias da região. A princípio, os pais acreditavam se tratar de um sequestro. A polícia, entretanto, considerava a hipótese improvável, em função das limitações financeiras da família.

Com a divulgação do caso na imprensa, surgiram diversos boatos e pistas falsas. Um homem chegou a telefonar para a família exigindo o pagamento de 50 mil cruzeiros como resgate, mas nunca mais entrou em contato. Em Vitória, populares organizaram uma manifestação para pressionar as autoridades.

Arquivo do jornal A Gazeta
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

A confirmação da morte e a investigação

Seis dias depois do desaparecimento, os pais receberam a notícia de que o corpo de uma criança fora encontrado em um terreno baldio ao lado do Hospital Infantil de Vitória.

Inicialmente, Gabriel Crespo reconheceu o corpo como sendo de sua filha, mas negou a informação já no dia seguinte, iniciando uma controvérsia que se estendeu por semanas. A perícia e os exames posteriores, no entanto, comprovaram que o corpo era mesmo de Araceli.

A menina apresentava sinais de que havia sido dopada, espancada, torturada e estuprada. Conforme determinado pelo perito Carlos Eboli, a “causa mortis” foi intoxicação por barbitúricos e asfixia mecânica por compressão. O corpo de Araceli apresentava várias lacerações e o rosto fora desfigurado com ácido corrosivo.

Com base nas evidências e nos depoimentos de várias testemunhas, a polícia identificou três suspeitos: Dante de Brito Michelini, vulgo Dantinho; o latifundiário Dante de Barros Michelini, pai de Dantinho; e Paulo Constanteen Helal.

A família Michelini estava entre os maiores proprietários de terra do Espírito Santo, destacando-se na plantação e exportação de café, na indústria e no comércio. Próximos da cúpula da ditadura, os Michelini tinham enorme influência política no estado.

Igualmente vinculada ao regime militar, a família Helal se destacava pelas atividades comerciais e por seus negócios no ramo hoteleiro e imobiliário. Em Vitória, a Avenida César Helal, onde Araceli foi vista pela última vez com vida, homenageia um membro da família.

Testemunhas afirmaram que Dante Michelini e Paulo Helal costumavam se drogar com barbitúricos e assediar meninas. Conforme a versão apresentada pelo promotor Wolmar Bermudes, Araceli teria sido raptada por Paulo Helal e conduzida em um Ford Mustang branco até o Bar Franciscano, de propriedade de Dante de Barros Michelini. O crime teria ocorrido no porão do bar, onde a menina permaneceria sob cárcere privado por dois dias.

Impunidade

Embora existissem fartas evidências e muitos relatos de testemunhas, os suspeitos nunca foram punidos pela morte de Araceli. Ao longo da apuração, ocorreram 14 mortes de testemunhas e de agentes que investigavam o caso.

Dentre os mortos, está o sargento José Homero Dias, que foi executado com um tiro pelas costas quando estava próximo de concluir as investigações. Também foram assassinados Fortunato Piccin e José Paulo dos Santos, duas das principais testemunhas do crime. Denúncias de álibis forjados e suborno a policiais também foram registradas.

Dante Michelini e Paulo Helal chegaram a ser condenados em 1980, quando o juiz Hilton Silly proferiu uma sentença de 18 anos de reclusão. Não obstante, as condenações foram anuladas logo em seguida. Os dois réus foram absolvidos em um novo julgamento ocorrido em 1991.

Uma CPI instalada na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, por iniciativa do deputado Clério Falcão, concluiu que houve omissão por parte das autoridades, visando proteger as poderosas famílias implicadas no crime, mas de nada adiantou.

Houve diversos relatos de censura e intimidação contra jornalistas. José Louzeiro, um jornalista que investigou o caso de forma independente, autor do livro “Araceli, Meu Amor”, foi censurado pela ditadura militar e proibido de publicar sua obra. Durante as investigações, ele sofreu um atentado.

Após a redemocratização, como forma de homenagem, a data do sequestro de Araceli, 18 de maio, tornou-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O crime, entretanto, segue até hoje impune. Junto com o assassinato de Ana Lídia, outra menina morta em condições parecidas, o Caso Araceli permanece como um dos símbolos da condescendência e cumplicidade da ditadura militar em relação aos crimes cometidos por ricos e poderosos.

Em fevereiro de 2026, Dante de Brito Michelini, o Dantinho, um dos acusados do assassinato de Araceli, foi encontrado morto, decapitado e carbonizado em um sítio em Meaípe, na cidade de Guarapari.