Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Há 36 anos, em 11 de dezembro de 1989, o empresário Abilio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar, era sequestrado a caminho de seu escritório em São Paulo. A ação ocorreu na reta final da primeira eleição presidencial pós-ditadura.

Cinco dias depois, na véspera do segundo turno, a polícia de São Paulo divulgou imagens tentando vincular os sequestradores ao Partido dos Trabalhadores (PT) e à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva.

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As evidências plantadas incluíam imagens de armas e munições descobertas no cativeiro ao lado de material de campanha do PT. Os sequestradores também foram obrigados a posar para fotos usando camisetas do partido. O factoide foi explorado à exaustão pela imprensa e ajudou a garantir a derrota de Lula no pleito.

A eleição de 1989

Em 1989, concluindo o processo de redemocratização, o Brasil realizava sua primeira eleição direta para a Presidência da República desde o golpe militar de 1964. A eleição permanece até hoje como o pleito com maior número de presidenciáveis — 22 candidatos, incluindo as principais lideranças políticas da época.

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Apoiado pela burguesia e pela imprensa brasileira, o candidato do PRN, Fernando Collor de Mello, foi o mais votado no primeiro turno. Em segundo lugar, ficou o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

Impulsionado pelo ativismo mal disfarçado da mídia, Collor chegou ao segundo turno com uma vantagem de oito pontos percentuais sobre Lula, mas o petista conseguiu diminuir a diferença de forma substancial em questão de dias. As pesquisas de intenção de voto divulgadas na última semana indicavam empate técnico entre os dois candidatos, mas a tendência de alta favorecia o postulante do PT.

Diante do crescimento do adversário, Collor intensificou os ataques contra Lula, fazendo uso indiscriminado de boatos e críticas de cunho moral. O ex-governador de Alagoas acusou o petista de desviar dinheiro do movimento sindical e de ter a intenção de confiscar a poupança dos aposentados. Nas ruas, circulavam boatos de que o petista queria obrigar as famílias de classe média a dividirem seus apartamentos com moradores de rua.

Collor ainda apresentou em seu programa eleitoral um depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o petista de tentar forçá-la a realizar um aborto. O boato que teve maior impacto negativo para a imagem de Lula e do PT, entretanto, surgiria na véspera do segundo turno da eleição, no âmbito do sequestro de Abilio Diniz.

O sequestro

Proprietário da rede varejista Pão de Açúcar, Abilio Diniz estava entre os homens mais ricos do Brasil desde os anos 70. Em 11 de dezembro de 1989, o empresário foi sequestrado enquanto se dirigia ao seu escritório no bairro dos Jardins, em São Paulo.

Os responsáveis pelo sequestro eram quase todos estrangeiros — dois argentinos (os irmãos Humberto Paz e Horácio Paz, incumbidos do planejamento da ação) cinco chilenos (Ulises Gallardo Acevedo, Maria Marchi Badilla, Pedro Lembach, Héctor Collante e Sérgio Urtubia), dois canadenses (David Spencer e Christine Lamont) e um brasileiro (Raimundo Roselio Freire).

Os partícipes da ação eram, em sua maioria, militantes do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), uma organização guerrilheira do Chile, e apoiadores da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), grupo armado que combatia o governo autoritário de El Salvador. O sequestro visava levantar fundos para financiar a guerrilha salvadorenha. Os guerrilheiros exigiram um resgate de 30 milhões de dólares para libertar o empresário.

Abilio Diniz foi levado para uma residência no bairro do Jabaquara, onde permaneceu por cinco dias. Em 16 de dezembro, a polícia localizou e estourou o cativeiro, libertando o empresário e prendendo todos os envolvidos na ação.

Lula na Constituinte. Senado Federal
Wikimedia Commons

O factoide e a cobertura da imprensa

Os detidos ficaram sob responsabilidade do delegado Romeu Tuma, ex-diretor geral do DOPS, aparelho repressivo da ditadura militar. Após convocar a imprensa para divulgar informações sobre o caso, a polícia afirmou ter localizado no cativeiro camisetas, bandeiras e faixas do Partido dos Trabalhadores e um grande número de materiais da campanha de Lula.

Os itens foram apresentados ao lado dos fuzis, metralhadoras, revólveres e munições apreendidas. Os sequestradores, por sua vez, foram apresentados aos jornalistas trajando camisetas do PT.

A cobertura da imprensa teve papel central para difundir o factoide. Diversos exemplos dessa colaboração foram apontados pela pesquisadora Diana Paula de Souza no artigo Jornalismo e narrativa: uma análise discursiva da construção de personagens jornalísticos no sequestro de Abílio Diniz e suas repercussões políticas.

No dia da eleição, quase todos os grandes veículos de mídia publicaram reportagens insinuando ligações entre o PT e os sequestradores. A imprensa também divulgou que os policiais haviam apreendido uma agenda contendo telefones de lideranças petistas, tais como Luiz Eduardo Greenhalgh, vice-prefeito de São Paulo, e o vereador Eduardo Suplicy, então presidente da Câmara Municipal.

O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que a casa teria sido cedida aos sequestradores por um padre que era “simpatizante do PT”. O periódico paulistano ainda afirmou que Alcides Diniz, irmão do empresário sequestrado, havia confirmado que o PT estava envolvido na ação, sem pontuar, entretanto, que Alcides era amigo pessoal de Leopoldo Collor e que estava engajado na campanha do candidato do PRN.

Os desmentidos do partido foram ignorados pela imprensa ou relegados às notas pequenas com títulos capciosos (“Lula teme maracutaia”) e adição de comentários depreciativos (como a observação do jornal O Globo de que Lula “não teria dado importância” ao sequestro por estar “em um jogo de futebol”).

Na televisão, a Rede Globo explorou ao máximo o assunto. Após manipular o debate eleitoral para favorecer Collor — apelando até para o uso de pastas com falsas denúncias — e transmitir um resumo cuidadosamente editado para prejudicar Lula, a emissora dedicou parte substancial de seu tempo para amplificar o factoide ligando o PT aos sequestradores.

Há evidências de que a estratégia deu certo. Em São Paulo, as sondagens de boca de urna indicaram mudanças significativas em relação às pesquisas prévias, sugerindo que a denúncia tirou votos de Lula.

Foi somente após a confirmação da vitória de Collor em 19 de dezembro que a imprensa começou a publicar os desmentidos, buscando se preservar de ações legais. No dia 20, O Globo publicou que “sequestro de Abílio não foi político” e o Jornal do Brasil disse que a tentativa de atrelar o sequestro ao PT era uma “trama policial”.

Quase um ano depois, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma entrevista com o governador Orestes Quércia, afirmando que “houve pressões no sentido de que se conduzissem as investigações para envolver o PT”. As investigações descartaram o envolvimento do partido no episódio e os advogados dos sequestradores confirmaram em juízo que eles foram torturados e forçados a usar as camisetas da agremiação.