Há 36 anos, em 11 de dezembro de 1989, o empresário Abilio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar, era sequestrado a caminho de seu escritório em São Paulo. A ação ocorreu na reta final da primeira eleição presidencial pós-ditadura.
Cinco dias depois, na véspera do segundo turno, a polícia de São Paulo divulgou imagens tentando vincular os sequestradores ao Partido dos Trabalhadores (PT) e à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva.
As evidências plantadas incluíam imagens de armas e munições descobertas no cativeiro ao lado de material de campanha do PT. Os sequestradores também foram obrigados a posar para fotos usando camisetas do partido. O factoide foi explorado à exaustão pela imprensa e ajudou a garantir a derrota de Lula no pleito.
Em 1989, concluindo o processo de redemocratização, o Brasil realizava sua primeira eleição direta para a Presidência da República desde o golpe militar de 1964. A eleição permanece até hoje como o pleito com maior número de presidenciáveis — 22 candidatos, incluindo as principais lideranças políticas da época.
Apoiado pela burguesia e pela imprensa brasileira, o candidato do PRN, Fernando Collor de Mello, foi o mais votado no primeiro turno. Em segundo lugar, ficou o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.
Impulsionado pelo ativismo mal disfarçado da mídia, Collor chegou ao segundo turno com uma vantagem de oito pontos percentuais sobre Lula, mas o petista conseguiu diminuir a diferença de forma substancial em questão de dias. As pesquisas de intenção de voto divulgadas na última semana indicavam empate técnico entre os dois candidatos, mas a tendência de alta favorecia o postulante do PT.
Diante do crescimento do adversário, Collor intensificou os ataques contra Lula, fazendo uso indiscriminado de boatos e críticas de cunho moral. O ex-governador de Alagoas acusou o petista de desviar dinheiro do movimento sindical e de ter a intenção de confiscar a poupança dos aposentados. Nas ruas, circulavam boatos de que o petista queria obrigar as famílias de classe média a dividirem seus apartamentos com moradores de rua.
Collor ainda apresentou em seu programa eleitoral um depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o petista de tentar forçá-la a realizar um aborto. O boato que teve maior impacto negativo para a imagem de Lula e do PT, entretanto, surgiria na véspera do segundo turno da eleição, no âmbito do sequestro de Abilio Diniz.
Proprietário da rede varejista Pão de Açúcar, Abilio Diniz estava entre os homens mais ricos do Brasil desde os anos 70. Em 11 de dezembro de 1989, o empresário foi sequestrado enquanto se dirigia ao seu escritório no bairro dos Jardins, em São Paulo.
Os responsáveis pelo sequestro eram quase todos estrangeiros — dois argentinos (os irmãos Humberto Paz e Horácio Paz, incumbidos do planejamento da ação) cinco chilenos (Ulises Gallardo Acevedo, Maria Marchi Badilla, Pedro Lembach, Héctor Collante e Sérgio Urtubia), dois canadenses (David Spencer e Christine Lamont) e um brasileiro (Raimundo Roselio Freire).
Os partícipes da ação eram, em sua maioria, militantes do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), uma organização guerrilheira do Chile, e apoiadores da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), grupo armado que combatia o governo autoritário de El Salvador. O sequestro visava levantar fundos para financiar a guerrilha salvadorenha. Os guerrilheiros exigiram um resgate de 30 milhões de dólares para libertar o empresário.
Abilio Diniz foi levado para uma residência no bairro do Jabaquara, onde permaneceu por cinco dias. Em 16 de dezembro, a polícia localizou e estourou o cativeiro, libertando o empresário e prendendo todos os envolvidos na ação.

Os detidos ficaram sob responsabilidade do delegado Romeu Tuma, ex-diretor geral do DOPS, aparelho repressivo da ditadura militar. Após convocar a imprensa para divulgar informações sobre o caso, a polícia afirmou ter localizado no cativeiro camisetas, bandeiras e faixas do Partido dos Trabalhadores e um grande número de materiais da campanha de Lula.
Os itens foram apresentados ao lado dos fuzis, metralhadoras, revólveres e munições apreendidas. Os sequestradores, por sua vez, foram apresentados aos jornalistas trajando camisetas do PT.
A cobertura da imprensa teve papel central para difundir o factoide. Diversos exemplos dessa colaboração foram apontados pela pesquisadora Diana Paula de Souza no artigo Jornalismo e narrativa: uma análise discursiva da construção de personagens jornalísticos no sequestro de Abílio Diniz e suas repercussões políticas.
No dia da eleição, quase todos os grandes veículos de mídia publicaram reportagens insinuando ligações entre o PT e os sequestradores. A imprensa também divulgou que os policiais haviam apreendido uma agenda contendo telefones de lideranças petistas, tais como Luiz Eduardo Greenhalgh, vice-prefeito de São Paulo, e o vereador Eduardo Suplicy, então presidente da Câmara Municipal.
O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que a casa teria sido cedida aos sequestradores por um padre que era “simpatizante do PT”. O periódico paulistano ainda afirmou que Alcides Diniz, irmão do empresário sequestrado, havia confirmado que o PT estava envolvido na ação, sem pontuar, entretanto, que Alcides era amigo pessoal de Leopoldo Collor e que estava engajado na campanha do candidato do PRN.
Os desmentidos do partido foram ignorados pela imprensa ou relegados às notas pequenas com títulos capciosos (“Lula teme maracutaia”) e adição de comentários depreciativos (como a observação do jornal O Globo de que Lula “não teria dado importância” ao sequestro por estar “em um jogo de futebol”).
Na televisão, a Rede Globo explorou ao máximo o assunto. Após manipular o debate eleitoral para favorecer Collor — apelando até para o uso de pastas com falsas denúncias — e transmitir um resumo cuidadosamente editado para prejudicar Lula, a emissora dedicou parte substancial de seu tempo para amplificar o factoide ligando o PT aos sequestradores.
Há evidências de que a estratégia deu certo. Em São Paulo, as sondagens de boca de urna indicaram mudanças significativas em relação às pesquisas prévias, sugerindo que a denúncia tirou votos de Lula.
Foi somente após a confirmação da vitória de Collor em 19 de dezembro que a imprensa começou a publicar os desmentidos, buscando se preservar de ações legais. No dia 20, O Globo publicou que “sequestro de Abílio não foi político” e o Jornal do Brasil disse que a tentativa de atrelar o sequestro ao PT era uma “trama policial”.
Quase um ano depois, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma entrevista com o governador Orestes Quércia, afirmando que “houve pressões no sentido de que se conduzissem as investigações para envolver o PT”. As investigações descartaram o envolvimento do partido no episódio e os advogados dos sequestradores confirmaram em juízo que eles foram torturados e forçados a usar as camisetas da agremiação.