Segunda-feira, 8 de junho de 2026
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Há 92 anos, em maio de 1934, a União Soviética fundava o Oblast Autônomo Judaico, uma região administrativa situada no extremo-leste do país, na fronteira com a China.

A criação do oblast (“província”) visava estabelecer um território autônomo para a população judaica soviética, servindo como uma alternativa socialista e secular ao sionismo e aos planos para a colonização da Palestina.

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O experimento enfrentou enormes dificuldades econômicas e políticas e foi praticamente abandonado após a criação do Estado de Israel. Não obstante, o Oblast Judaico seguiu existindo como território autônomo mesmo após a dissolução da União Soviética. É o único oblast autônomo existente hoje na Rússia.

Os judeus na Rússia

A presença de judeus no atual território da Rússia remonta ao século 7, quando comunidades asquenazes começaram a se estabelecer na Europa Oriental. Após a constituição do Czarado da Rússia, o país chegou a hospedar a maior população de judeus do mundo, mas a perseguição religiosa e o antissemitismo levariam à dispersão gradual das comunidades judaicas.

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Em 1791, a imperatriz Catarina II instituiu uma política oficial de segregação dos judeus, criando uma Zona de Assentamento Judaico na porção ocidental russa e proibindo os judeus de se fixarem no restante do país. A medida reforçou ainda mais a repressão e os estigmas impostos à população judia.

O antissemitismo na Rússia atingiu o seu ápice com prática dos pogroms — linchamentos e violentos ataques conduzidos de forma deliberada contra a população judia, não raramente com a conivência ou assistência das autoridades do Império Russo. Durante o reinado do czar Alexandre III, uma onda brutal de pogroms varreu o sul da Rússia, provocando uma nova diáspora judaica entre 1881 e 1884.

A política de segregação estabelecida pela Zona de Assentamento Judaico somente seria abolida em 1917, após a deposição do czar Nicolau II e o triunfo dos bolcheviques na Revolução de Outubro. Além de revogar as restrições de locomoção, o governo revolucionário estabeleceu a igualdade formal entre a população judia e os demais habitantes da Rússia.

As medidas do governo soviético refletiram no apoio de uma parcela dos judeus à revolução, o que contribuiu para o forte sentimento antijudaico manifestado pelas forças reacionárias.

A violência contra os judeus irrompeu novamente durante a Guerra Civil Russa, quando os contrarrevolucionários os acusaram de participar de um “complô judaico-bolchevique” e de terem tramado a revolução socialista. Sob a liderança de Anton Denikin, as tropas anticomunistas do Exército Branco chacinaram mais 200 mil judeus na Ucrânia e no sul da Rússia.

Planos para uma “República Judaica Soviética”

Debelado o intento contrarrevolucionário, o governo soviético passou a aventar a possibilidade de criar um território para a população judia. O objetivo era fomentar a criação de uma cultura proletária judaica, que fosse integrada aos valores do socialismo, mas que ao mesmo tempo possibilitasse a autodeterminação e a emancipação do povo judeu, garantindo a preservação de suas tradições e de seu estilo de vida.

Já em 1926, o presidente do Soviete Supremo, Mikhail Kalinin, passou a defender a criação de uma “república judaica soviética” e em 1928 o Comitê Executivo Geral da União Soviética aprovou por decreto a criação de um “Komzet”, isso é, um território para assentamento dos trabalhadores judeus.

Josef Stalin foi um dos principais defensores da ideia. Além de estar em conformidade com sua política de prover os diferentes grupos nacionais do território soviético de estruturas políticas autônomas para o desenvolvimento de suas tradições, a criação de um estado judeu soviético serviria de alternativa ao sionismo — movimento de cariz reacionário e colonialista, imbuído de valores que contrastavam com o ideário socialista.

À época, o movimento sionista, auxiliado pela burguesia judaica e avalizado pelos interesses imperialistas das potências ocidentais, já começava a financiar a imigração em massa de judeus para a Palestina e a criar milícias para expulsar a população nativa e confiscar suas terras.

Como parte da estratégia de fomento à colonização da Palestina, os ideólogos sionistas atacavam rispidamente a União Soviética, acusando-a de perseguir os judeus e instigando a sublevação da comunidade judaica. Em resposta aos ataques, o governo soviético decidiu acelerar a criação de seu próprio “Estado judeu”.

Uma menorá gigante enfeita a praça em frente à estação ferroviária de Birobidjan, no Oblast Autônomo Judaico
wikimedia

O Oblast Autônomo Judaico

Por critérios geopolíticos e econômicos, a União Soviética decidiu criar o Oblast Autônomo Judaico nas regiões esparsamente povoadas do extremo-leste soviético, localizadas às margens do Rio Amur, junto à fronteira com a China.

A ocupação do território era vista como estratégica, desestimulando invasões estrangeiras e eventuais disputas de território, ao mesmo tempo em que viabilizaria a criação de uma infraestrutura para o transporte e escoamento de mercadorias vindas da Sibéria.

A partir de 1928, o governo soviético iniciou a propaganda em massa estimulando a imigração de judeus para a região, utilizando cartazes, panfletos, textos e anúncios evocando as vantagens de viver no “Sião socialista”.

Até mesmo filmes foram produzidos em língua iídiche para convencer os judeus a se mudarem para o novo oblast. É o caso da obra “À Procura da Felicidade”, que narra a história de uma família judia, afligida pela miséria da Grande Depressão, que decide deixar os Estados Unidos para iniciar uma vida nova no Oblast Judaico.

Em 1931, foi fundada a cidade de Birobidjan, a capital do oblast. Planejada pelo arquiteto suíço Hannes Meyer, a cidade tinha sinagogas, monumentos evocando a cultura judaica, placas bilíngues em cirílico e iídiche e até grandes menorás decorando as praças da região central. O Oblast Autônomo Judaico, por sua vez, foi oficialmente criado em maio de 1934.

Para facilitar a instalação dos imigrantes judeus, o governo soviético se encarregava de pagar as despesas da viagem, além de distribuir terras para os colonos que aceitassem se estabelecer no campo ou moradias para os que optassem pelas cidades. Também fornecia auxílio financeiro aos imigrantes por até dois anos e prestava serviços básicos de assistência médica, educação, transporte e segurança.

O influxo de imigrantes não se limitou à população local, ganhando dimensão internacional após o governo soviético assinar um acordo de imigração com o American Jewish Joint Distribution Committee, uma organização judaica de mútua assistência sediada em Nova York. Ainda no fim da década de 1920, o oblast recebeu centenas de imigrantes oriundos dos Estados Unidos, Canadá e Argentina.

A ascensão do nazismo na década de 1930 e a subsequente intensificação da perseguição aos judeus na Europa levou à intensificação da imigração para o oblast, que passou a ser visto como um refúgio seguro para os judeus. Novas levas de imigrantes chegaram da Alemanha, Polônia, Romênia e de outros países do Leste Europeu, fazendo a população de Birobidjan saltar de 25 mil pessoas em 1932 para 40 mil habitantes em 1938.

Uma terceira onda de imigração ocorreu em paralelo com a Segunda Guerra Mundial, mas a cidade também perdeu muitos habitantes, conscritos pelo Exército Vermelho para lutar contra as forças do Eixo.

Abandono do projeto

O ímpeto imigratório inicial dos judeus rumo ao oblast arrefeceu gradativamente em função das dificuldades econômicas e dos atritos políticos. O solo era pouco fértil e as condições climáticas tornaram as colheitas irregulares. O isolamento geográfico da região também dificultava o projeto de industrialização.

As medidas governamentais limitando o proselitismo religioso, as contendas entre Josef Stalin e lideranças locais, acusadas de serem contrarrevolucionárias ou trotskistas e o mal-estar gerado pela acusação de que algumas comunidades judaicas da região teriam colaborado com o Japão durante a Segunda Guerra Mundial tornaram-se obstáculos para a consolidação do projeto de um “estado judeu soviético”.

Com a fundação do Estado de Israel em 1948, apoiada pelo governo soviético e acompanhada da exitosa propaganda sionista levada a cabo nos países ocidentais, o fluxo de novos imigrantes judeus foi completamente interrompido.

A oposição soviética ao sionismo, visto como uma manifestação de nacionalismo burguês de cariz supremacista, bem como o alinhamento de Israel aos Estados Unidos e seu virulento discurso anticomunista durante a Guerra Fria também se tornaram elementos de tensão entre as comunidades judaicas do oblast e o governo da União Soviética nas décadas seguintes.

Com a interrupção do fluxo imigratório de judeus e a chegada de outros grupos étnicos, o perfil demográfico do oblast foi sensivelmente alterado. Os judeus são hoje um grupo minoritário, representando cerca de 1% da população do oblast.

A região mantém, entretanto, forte influência da cultura judaica. Birobidjan sedia o Centro Judaico e a Universidade Nacional Judaica, especializada no estudo do iídiche, da língua hebraica, da história dos judeus e dos estudos dos textos clássicos do judaísmo. Escolas públicas da região ainda ensinam o iídiche e a língua segue sendo utilizada em programas de rádio e nos jornais locais.