Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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Na noite de 16 de setembro de 1952, um pequeno barco de pesca chamado Carella cortava as águas frias do litoral da Escócia. A bordo, 18 homens de Fleetwood, no litoral de Lancashire, voltavam de uma temporada de pesca na Islândia, cansados e ansiosos por chegar em casa.

Nenhum deles sabia — e não saberiam por mais de 50 anos — que, naqueles poucos minutos, o navio havia atravessado uma nuvem invisível de Yersinia pestis, a bactéria responsável pela peste bubônica e pneumônica, a mesma que dizimou um terço da população europeia no século 14.

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Os pescadores serviram como cobaias de um experimento vinculado à chamada Operação Caldeirão (“Operation Cauldron”), um programa secreto de guerra biológica mantido pelo Reino Unido durante a Guerra Fria, em colaboração com os governos dos Estados Unidos e do Canadá.

Porton Down e as origens da guerra biológica britânica

As origens do programa de guerra química e biológica do Reino Unido remontam à Primeira Guerra Mundial. Em 1915, as tropas alemãs haviam utilizado cloro em larga escala na Segunda Batalha de Ypres, abatendo milhares de soldados franceses de uma vez e marcando o início de uma nova era no desenvolvimento de armas químicas.

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Logo após esse evento, o governo britânico autorizou a criação de Porton Down, um campus experimental vinculado ao Departamento de Guerra, localizado em Wiltshire, no sul da Inglaterra. A instituição foi incumbida de estudar e desenvolver agentes químicos como cloro, fosgênio e gás mostarda para uso das Forças Armadas, bem como equipamentos de proteção, máscaras e novos métodos de detecção.

A partir dos anos 30, com o avanço das pesquisas na área de microbiologia, o governo britânico passou a considerar o uso de agentes infecciosos como armas, estudando cenários em que doenças pudessem ser deliberadamente disseminadas contra seres humanos, animais e plantações.

Com o início da Segunda Guerra Mundial e a perspectiva de uma guerra total contra a Alemanha nazista, as autoridades britânicas intensificaram as pesquisas no campo da guerra biológica, versando sobre o uso de toxina botulínica, tifo, cólera, disenteria e febre aftosa, entre outros.

Em 1942, um grupo de cientistas liderados por Paul Fildes deu início às pesquisas com antraz. O local escolhido para servir de área testes foi a pequena Ilha de Gruinard, na costa oeste da Escócia. A ilha foi bombardeada com esporos de Bacillus anthracis para avaliar o impacto de uma arma que fosse capaz de contaminar o solo alemão por gerações. Em consequência dos testes, Gruinard permaneceria interditada por quase meio século, sendo descontaminada somente em 1986 e declarada segura apenas em 1990.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, o governo britânico institucionalizou e ampliou seu programa de armas biológicas. Os alvos potenciais agora eram a União Soviética e as nações pertencentes ao bloco socialista.

Experimentos nas Hébridas Exteriores

Em 1952, o Departamento de Pesquisa Microbiológica de Porton Down deu início à Operação Caldeirão. À frente do programa estava o médico e microbiologista David Henderson, um dos responsáveis pelos testes com antraz na Ilha de Gruinard. Henderson defendia que era preciso testar os agentes biológicos em condições reais, sobre organismos vivos, para saber se realmente poderiam ser utilizados como armas.

A Operação Caldeirão foi concebida como um programa trilateral, contando com participação de observadores canadenses e de oficiais da Marinha dos Estados Unidos. O local escolhido para os novos testes foi a costa nordeste da Ilha de Lewis, no arquipélago das Hébridas Exteriores, uma região de baixa densidade demográfica, relativamente distante dos grandes centros urbanos. Entre junho e setembro de 1952, uma estrutura montada sobre um pontão flutuante, apoiado por um navio adaptado, serviria como laboratório a céu aberto.

Sobre o convés do pontão, os cientistas de Porton Down instalaram gaiolas com centenas de cobaias, sobretudo coelhos e macacos. A cada rodada de testes, uma bomba suspensa por um braço mecânico ou um dispositivo de pulverização liberava, a favor do vento, uma nuvem de aerossol contendo diferentes agentes patogênicos: peste pneumônica e bubônica (Yersinia pestis), brucelose (Brucella spp.) e tularemia (Francisella tularensis).

Os pesquisadores então acompanhavam os animais expostos aos agentes infecciosos e contabilizavam quantos adoeciam e morriam e a que distância o aerossol continuava sendo letal, visando transformar os patógenos em armas de guerra operacionais. Ao final da primeira série de testes, 3.492 cobaias haviam sido deliberadamente expostas aos agentes e sacrificadas para análise.

O Incidente Carella

O teste final da Operação Caldeirão foi marcado para setembro de 1952. Os cientistas pretendiam realizar experimentos com a Yersinia pestis, a bactéria responsável pela peste bubônica e pneumônica, considerada a variante mais letal e de maior interesse militar.

A atividade teve de ser prorrogada por uma semana, pois o vento continuava soprando na direção errada, inviabilizando o experimento. Mas na noite de 16 de setembro, o vento finalmente mudou. A bordo do Ben Lomond, o capitão Philip Welby-Everard, da Marinha Real, ordenou o início dos testes.

Foi nesse momento que o barco de pesca Carella surgiu no horizonte, exatamente na rota planejada para a nuvem de aerossol, a apenas um minuto do início programado da liberação dos agentes. Welby-Everard avaliou que ainda havia tempo para afastar a embarcação da área e ordenou sinais de alerta. Os avisos, no entanto, foram ignorados — talvez sequer tenham sido notados pela tripulação do Carella, exausta após semanas em alto-mar.

Quando o barco estava se aproximando, o comandante britânico mudou de ideia. Em vez de abortar o teste, ele resolveu utilizar os pescadores como cobaias. A bomba com a cultura de peste pneumônica foi liberada, e a nuvem bacteriana começou sua trajetória a favor do vento, diretamente na direção do Carella.

Dezesseis minutos depois de o experimento ter começado, o barco pesqueiro passou a cerca de três quilômetros do pontão, atravessando o local que os cientistas de Porton Down calculavam ser o raio de dispersão mais letal da nuvem de bactérias.

Em seu primeiro relatório ao Almirantado, Welby-Everard minimizou os riscos, argumentando que a velocidade do vento não fora suficiente para levar a bactéria até o barco. As alegações do capitão foram contestadas pelos próprios cientistas de Porton Down, que recomendaram que o navio fosse desinfetado antes de continuar sua rota, de modo a impedir o possível início de uma epidemia de peste.

O alto comando militar observou que alertar a tripulação resultaria em um escândalo. A população britânica e a imprensa tomariam conhecimento de que militares estavam realizando testes com armas biológicas utilizando civis como cobaias. O caso subiu pela cadeia de comando até o Primeiro Lorde do Mar, a mais alta autoridade da Marinha Real, e chegou à mesa do então chanceler do Tesouro, Rab Butler, que substituía interinamente o primeiro-ministro Winston Churchill, ausente do país naquele momento.

O governo britânico decidiu então não informar nem a tripulação do Carella nem qualquer autoridade de saúde pública sobre o que havia ocorrido. Em vez de desinfecção, quarentena ou exame médico, as autoridades optaram pela vigilância silenciosa.

Um contratorpedeiro da Marinha Real foi despachado da base de Clyde, carregando soros antipestosos e vacinas. A embarcação deveria acompanhar o Carella à distância, permanecendo além da linha do horizonte, fora da vista da tripulação. Caso o barco pesqueiro emitisse um pedido de socorro médico, o contratorpedeiro se aproximaria e prestaria assistência. Caso contrário, ninguém interviria.

Por 21 dias, o Carella foi seguido de forma discreta, sem que os tripulantes suspeitassem de nada. O barco aportou em Blackpool, uma das cidades litorâneas mais movimentadas do Reino Unido. A tripulação se misturou normalmente à população local, frequentando pubs, lojas e ruas cheias de veranistas, sem que uma única autoridade soubesse do risco de exposição.

Por sorte, nenhum dos marinheiros do Carella adoeceu. A explicação para esse desfecho estava em uma limitação técnica do próprio experimento. A nuvem de aerossol havia se dispersado e perdido concentração muito mais rapidamente do que era previsto pelos modelos teóricos. A falha dos cientistas acabou por poupar a vida da tripulação e dos moradores de Blackpool.

Encerrado o risco imediato, o aparato de segurança do Estado tratou de apagar os rastros do episódio. A maior parte dos registros diretamente relacionados ao incidente do Carella foram deliberadamente destruídos tão logo o perigo foi considerado superado.

Cientistas britânicos com cobaias enjauladas. Frame do youtube, via The Scotsman
Cientistas britânicos com cobaias enjauladas. Frame do youtube, via The Scotsman

A revelação

Durante décadas, o episódio permaneceu completamente desconhecido, tanto pelo público britânico quanto pelos pescadores do Carella. As informações sobre a Operação Caldeirão só começaram a emergir na década de 1990, quando um grupo de pesquisadores e jornalistas passou a vasculhar arquivos parcialmente desclassificados do Ministério da Defesa.

Em 1994, Calum Macdonald, representante das Hébridas Exteriores no Parlamento, levou o caso à Câmara dos Comuns, pressionando o então secretário de Defesa, Malcolm Rifkind, a autorizar uma investigação independente sobre a Operação Caldeirão e sobre um programa correlato, a Operação Hesperus, realizada em 1953 nas proximidades das Ilhas Flannan. Pediu também explicações oficiais sobre outros testes químicos e biológicos similares conduzidos na mesma região ao longo da década de 1950.

O governo encaminhou a questão ao diretor-geral do Departamento de Defesa Química e Biológica, mas, nos bastidores, atuou para abafar o caso e impedir a difusão de informações sobre o assunto. O episódio, no entanto, chegou à imprensa britânicos em meados dos anos 2000, após o pesquisador Brian Balmer obter acesso a documentos do Ministério da Defesa que detalhavam com precisão o episódio do Carella.

Paralelamente, uma investigação independente realizada por Jolyon Jenkins, da BBC, rastreou e localizou sobreviventes da tripulação e oficiais da Marinha que haviam participado da operação. Um dos homens localizados, o marinheiro Bellerby, relatou à reportagem que notara um estranho episódio de queda de cabelo em tufos, levantando a suspeita de que outras cepas biológicas secretas tenham sido liberadas durante a experiência.

Em setembro de 2005, 53 anos após o incidente, o jornal Daily Telegraph publicou uma ampla reportagem investigativa, assinada por Ben Fenton, trazendo a público de forma definitiva a operação que o governo britânico passou décadas tentando ocultar.

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