Terça-feira, 23 de junho de 2026
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Há 81 anos, em junho de 1945, as Forças Armadas do Reino Unido elaboravam a Operação Impensável — um plano secreto para atacar a União Soviética logo após a derrota do Terceiro Reich.

O plano foi criado por ordem de Winston Churchill, alarmado diante da rápida expansão da União Soviética sobre o Leste Europeu. A operação previa um ataque conjunto avassalador contra as forças do Exército Vermelho, mobilizando as tropas britânicas, norte-americanas e até as unidades militares remanescentes da Alemanha nazista.

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Churchill acreditava que o fator surpresa e o desgaste das tropas soviéticas após uma campanha de quatro anos contra a Alemanha permitiriam a vitória das potências ocidentais.

Os oficiais britânicos, entretanto, concluíram que Moscou teria condições de reorganizar suas defesas, impor uma guerra total prolongada e até vencer os Aliados ocidentais, estendendo seu domínio ao restante da Europa. Em função da inviabilidade e dos altos riscos, a Operação Impensável foi abortada

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Aliados “ma non troppo”

Durante a Segunda Guerra Mundial, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos formaram uma aliança que, alguns anos antes, pareceria impossível. Embora tenham estabelecido uma forte cooperação militar para subjugar a Alemanha nazista, as diferenças ideológicas entre o governo socialista soviético e os regimes liberais do Ocidente nunca foram superadas.

Na Grã-Bretanha, uma parte expressiva da aristocracia, do establishment conservador e dos círculos empresariais enxergava a ascensão de Adolf Hitler como uma barreira contra a expansão das ideias socialistas e da influência soviética. O medo de uma revolução semelhante à de 1917 na Rússia estava profundamente entranhado nas elites europeias. Muitos acreditavam que o nazismo poderia estabilizar a Alemanha e impedir a expansão da esquerda revolucionária.

Não eram poucos os líderes britânicos que elogiavam abertamente o Terceiro Reich. O caso mais emblemático foi o do rei Eduardo VIII, que, após abdicar do trono, visitou a Alemanha para se encontrar pessoalmente com Hitler. Durante a viagem, o duque britânico não poupou elogios ao regime nazista e chegou a propor a formação de uma aliança entre Alemanha e Reino Unido para enfrentar a União Soviética.

A condescendente política de apaziguamento conduzida pelo primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain também refletia, em grande parte, a percepção de que uma Alemanha forte poderia servir como contrapeso à União Soviética. E até mesmo Winston Churchill possuía mais afinidades ideológicas com o “führer” do que os liberais gostariam de admitir.

Embora sua imagem tenha sido heroicizada pelos aparelhos ideológicos ocidentais como a de um fervoroso opositor do nazismo, discursos feitos por Churchill entre 1935 e 1937 são recheados de elogios e de exaltação a Hitler.

Além do racismo e da crença na supremacia branca, Churchill e Hitler compartilhavam o mesmo ódio hidrofóbico ao marxismo. Alguns anos antes, o próprio Churchill havia coordenado uma ofensiva militar para combater a Revolução de Outubro — ocasião em que ordenou ataques com gás venenoso contra os combatentes bolcheviques.

Nos Estados Unidos, o cenário era semelhante. Grandes empresários e financistas observaram com interesse a recuperação econômica alemã após a chegada dos nazistas ao poder em 1933. A destruição dos sindicatos independentes, a repressão aos comunistas e a forte colaboração entre Estado e grandes empresas fizeram do nazismo um modelo de governança admirado por boa parte da burguesia norte-americana.

O industrial Henry Ford tornou-se particularmente notório por seu antissemitismo e por suas declarações elogiosas à Alemanha nazista. Em 1938, ele recebeu a Grã-Cruz da Águia Alemã, uma das mais altas condecorações concedidas pelo regime a estrangeiros. A força do movimento pró-apaziguamento que vicejou nos Estados Unidos ao longo dos anos 30 também era um reflexo do respaldo da burguesia norte-americana ao regime nazista.

Mudando o foco

Acuadas diante do agressivo projeto expansionista e do poderio militar do Terceiro Reich, as potências ocidentais tiveram de dar o braço a torcer e aceitar a aliança militar temporária com os soviéticos. Já em 1941, entretanto, Reino Unido e Estados Unidos firmariam a “Carta do Atlântico”, um tratado que buscava neutralizar quaisquer eventuais ganhos geopolíticos que a União Soviética pudesse ter caso vencesse a guerra.

Não é de se surpreender, portanto, que os sucessivos triunfos obtidos pela União Soviética contra a Alemanha a partir de 1943 tenham provocado crescente preocupação entre britânicos e norte-americanos. À medida que o Exército Vermelho dizimava divisões inteiras da Alemanha e empurrava as forças da Wehrmacht para o oeste, tornava-se evidente que a União Soviética seria a grande vencedora da guerra — e que estaria em condições de reivindicar a expansão de seu círculo de influência sobre os territórios libertados.

Essa preocupação influenciou diretamente a estratégia militar dos Aliados ocidentais. O receio de que a União Soviética tomasse sozinha grande parte dos territórios ocupados pela Alemanha foi um dos fatores que mais pesaram para a abertura de uma segunda frente na Europa Ocidental, concretizada através da Operação Overlord no chamado “Dia D”.

Desde 1941, o governo soviético pressionava britânicos e norte-americanos pela abertura de uma frente ocidental, a fim de aliviar a pressão sobre o Exército Vermelho no Leste Europeu. Não obstante, foi somente três anos depois, quando a maré da guerra já havia virado a favor de Moscou, que Estados Unidos e Reino Unido correram para lançar a ofensiva.

Conforme o Exército Vermelho ocupava países como Polônia, Romênia, Hungria, Bulgária e parte da Alemanha, os governos ocidentais compreendiam que a presença militar soviética provavelmente se transformaria em influência política duradoura. Para os dirigentes britânicos e norte-americanos, a questão deixou de ser apenas derrotar Hitler. Conter a expansão soviética se tornou uma prioridade central.

Churchill, Roosevelt e Stalin na Conferência de Ialta. Arquivos Nacionais do Reino Unido, via Wikimedia Commons

A Operação Impensável

Nos últimos meses da guerra, a preocupação chegou a tal ponto que setores do governo britânico começaram a estudar cenários de confronto contra a própria União Soviética. O exemplo mais conhecido foi a Operação Impensável (“Operation Unthinkable”), elaborada por ordem de Churchill em junho de 1945.

Criada por oficiais das três Forças Armadas do Reino Unido, a operação visava, expressamente, “impor à Rússia a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico”, neutralizando e revertendo o domínio soviético no Leste Europeu.

A data hipotética estabelecida para o início do ataque dos aliados aos soviéticos seria 1º de julho de 1945. Tropas norte-americanas, britânicas, francesas, polonesas e alemãs agiriam de forma coordenada e se aproveitariam do fator surpresa e do desgaste da União Soviética após sua campanha de quatro anos para derrotar os nazistas — ao custo do extermínio de 27 milhões de vidas, quase um sexto da população soviética.

Quarenta e sete divisões britânicas e norte-americanas, estacionadas na área de Dresden, iniciariam a ofensiva contra unidades militares soviéticas que ocupavam o território alemão. Elas seriam auxiliadas por até 10 divisões das Forças Armadas da Alemanha Nazista, remobilizadas do status de prisioneiros de guerra. Em seguida, os ataques seriam dirigidos à Europa Oriental até adentrarem o território soviético.

Além do plano ofensivo, o oficialato britânico também elaborou uma segunda proposta para a Operação Impensável, estudando cenários de defesa das Ilhas Britânicas, do Atlântico Norte e da Europa Ocidental diante de uma eventual expansão soviética para além do Leste Europeu. Assim como a versão original, a proposta também incluía o emprego dos soldados alemães. À altura, Churchill já considerava válida uma aliança tática com o inimigo derrotado, enxergando na União Soviética uma “ameaça maior”.

O descarte do plano

A operação foi considerada extremamente perigosa. Mesmo com todas as baixas registradas na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética mantinha superioridade numérica de tropas na proporção de 2,5 para 1 em todo o território entre a Europa e o Oriente Médio.

A única vantagem efetiva das potências ocidentais seria o fator surpresa, mas se o ataque não obtivesse um sucesso rápido, a União Soviética teria condições de organizar a resistência para uma guerra total prolongada, na qual, em função do tamanho do território sob seu controle e de suas tropas numerosas, teria franca vantagem.

Os britânicos analisaram que seria praticamente impossível obrigar a União Soviética a se render. A própria experiência da guerra contra a Alemanha demonstrara a extraordinária capacidade soviética de absorver perdas, mobilizar recursos e continuar lutando.

O governo britânico também avaliava que uma derrota para a União Soviética poderia tirar a Europa Ocidental da esfera de influência anglo-americana, permitindo à União Soviética dominar todo o continente.

Churchill teve dificuldades em convencer o governo norte-americano a aderir à ideia. Embora Harry Truman fosse radicalmente anticomunista, a Casa Branca adotou uma postura mais cautelosa. Washington, afinal, ainda estava em guerra contra o Japão e não considerava prudente iniciar outro conflito de grandes proporções. Uma guerra contra a União Soviética exigiria do governo norte-americano a aplicação de recursos volumosos, mobilização prolongada e teria resultados altamente incertos.

A derrota do Partido Conservador na eleição de julho de 1945 representaria uma dificuldade adicional para a concretização da operação, já que Churchill, principal entusiasta da ideia, perdeu seu cargo de primeiro-ministro. Sob todos os aspectos, os riscos superavam largamente as possíveis vantagens. Considerado inviável, o plano foi abortado.

A Operação Impensável ilustra de forma emblemática a transição imediata da aliança antifascista para a polarização da Guerra Fria. Embora não tenha sido levado adiante, o plano serviu de base para outros projetos militares — nomeadamente a Operação Totality, uma campanha do governo norte-americano que visava intimidar Moscou com a ameaça de ataques nucleares em larga escala contra o território soviético.