Peter Chicoteado: a imagem que denunciou o horror da escravidão
Fotografia mostra cicatrizes de açoitamento nas costas de Peter, um homem escravizado que conseguiu fugir em meio à Guerra de Secessão
Há 163 anos, em 2 de abril de 1863, dois fotógrafos itinerantes, William McPherson e J. Oliver, produziam uma imagem que se tornaria um dos registros visuais mais contundentes sobre o horror da escravidão nos Estados Unidos.
A fotografia mostrava as cicatrizes de açoitamento nas costas de Peter, um homem escravizado que conseguiu fugir de uma fazenda na Louisiana em meio à Guerra de Secessão. Ele caminhou por 10 dias até chegar a um posto da União em Baton Rouge — a força militar das unidades federadas do Norte dos Estados Unidos, favoráveis à abolição.
A imagem foi reproduzida em matérias de jornal e cartões de visita distribuídos por todo o país. Ela foi utilizada por abolicionistas como evidência material da brutalidade da escravidão, fortalecendo a campanha antiescravagista. Em 2025, o governo de Donald Trump ordenou que a imagem fosse removida de exposições públicas nos Estados Unidos.
A Guerra de Secessão
Entre 1861 e 1865, os Estados Unidos estiveram mergulhados na guerra civil mais sangrenta de sua história: a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana. O conflito dividiu o país em dois, opondo os estados do Norte (a União) aos estados do Sul (os Confederados). A guerra foi motivada pela resistência sulista à abolição da escravatura e ao modelo econômico que beneficiava os estados setentrionais.
Mais industrializados e ávidos pela formação de um mercado consumidor, os estados do Norte defendiam medidas de proteção à indústria e a substituição da mão de obra escrava pelo trabalho assalariado. Os estados do Sul, por sua vez, com economias assentadas na monocultura agroexportadora e no trabalho forçado, seguiam como fervorosos defensores do regime escravocrata.
A eleição do abolicionista Abraham Lincoln para a Presidência, em 1860, desencadeou o início do conflito. Os estados do Sul se separaram da União e fundaram os Estados Confederados da América.
Em janeiro de 1861, a Lousiana se tornou o sexto estado a romper com a União e a se juntar aos Confederados. O estado tinha enorme importância econômica para o Sul, concentrando grandes plantações de algodão e cana-de-açúcar e abrigando o porto de Nova Orleans. Os escravizados eram o motor da economia. Somavam 330 mil indivíduos em 1860 — cerca de 47% da população do estado.
O conflito na Louisiana se intensificou em 1862, quando a União lançou uma ofensiva para obter o controle do Rio Mississippi, visando dividir a Confederação ao meio. Em abril, as tropas unionistas comandadas por David Farragut capturaram Nova Orleans, privando os confederados de seu maior porto. No mês seguinte, os soldados da União tomaram Baton Rouge, a capital do estado.
Em janeiro de 1863, o major Nathaniel Banks emitiu uma ordem geral instituindo a Proclamação de Emancipação no território da Louisiana. A política de Emancipação autorizava o alistamento de homens negros no Exército da União e estabelecia que os escravizados que conseguissem fugir de seus senhores e chegar até os postos militares controlados pelos unionistas passariam a ser livres.
Em busca de liberdade, milhares de escravizados fugiram rumo às linhas da União. Eles formariam a base das chamadas “Tropas de Cor” dos Estados Unidos, os regimentos de soldados negros que ajudaram a derrotar os confederados e a superar o sistema escravagista.
A fuga de Peter
Dentre os milhares de cativos que fugiram das plantações da Louisiana após a Proclamação de Emancipação estava Peter. Ele fora escravizado pelo capitão John Lyons, proprietário de uma fazenda com 1.200 hectares localizada às margens do Rio Atchafalaya, na Paróquia de St. Landry, região central da Louisiana.
Ao menos 38 pessoas eram escravizadas nas terras de John Lyons, forçadas a trabalhar no plantio e na colheita do algodão. Eles eram supervisionados por um capataz sádico e violento chamado Artayon Carrier.
Em outubro de 1862, Peter foi violentamente punido pelo capataz. Ele foi chicoteado repetidas vezes, até que o açoite rasgasse a pele das suas costas, deixando-as em carne viva. Após o açoitamento, o capataz ainda o torturou por vários dias, jogando água de salmoura sobre suas feridas. O castigo brutal deixou Peter à beira da morte. Ele perdeu os sentidos, quase enlouqueceu e ficou acamado por dois meses.
Tão logo se recuperou, Peter começou a planejar sua fuga. No dia 24 de março de 1863, por volta da meia-noite, ele deixou a fazenda do capitão John Lyons acompanhado de outros três escravizados — Gordon, John e um quarto homem, não identificado.
John foi morto por caçadores de escravos durante a fuga, mas os outros três conseguiram escapar. Eles percorreram cerca de 100 quilômetros em dez dias, caminhando apenas à noite para evitar as patrulhas armadas. Cruzavam rios a nado, se embrenhavam pelos pântanos e esfregavam cebolas e ervas de cheiro forte pelo corpo para despistar os cães farejadores.

Peter, ‘Costas Flageladas’; Fotografia de McPherson e Oliver, retocada por Mathew Brady < br / > Coleção da Cidade de Baton Rouge / Wikimedia Commons
A imagem das costas flageladas
Em 2 de abril de 1863, Peter conseguiu chegar a um acampamento da União na cidade de Baton Rouge. Ele estava exausto, faminto e coberto por farrapos sujos de lama.
Ao ser interrogado sobre o motivo de sua fuga, Peter mostrou aos oficiais as marcas dos açoites em suas costas. As cicatrizes chocaram os soldados da União, mas não causaram espanto aos outros negros presentes no recinto, já acostumados a ver cenas parecidas nas plantações.
Peter logo foi apresentado a William McPherson e J. Oliver, dois fotógrafos itinerantes que haviam montado um estúdio improvisado no acampamento da União em Baton Rouge. Eles foram responsáveis por tirar a famosa fotografia de Peter sentado em uma cadeira, com as costas nuas, mostrando suas cicatrizes.
Os fotógrafos produziram ao menos mais duas versões da imagem. A segunda foto mostrava Peter sentado em um assento sem encosto e a terceira o apresentava já com a barba crescida.
A fotografia ficaria conhecida pelo título de “Costas Flageladas” e o modelo seria chamado de “Whipped Peter” (“Peter Chicoteado”). A imagem se espalhou rapidamente no formato “carte de visite”, muito popular nos Estados Unidos na década de 1860.
Em maio de 1863, a história de Peter foi publicada pelo jornal The Independent. A matéria, assinada pelo poeta abolicionista Theodore Tilton, afirmava que a fotografia deveria ser “multiplicada por cem mil e espalhada pelos Estados Unidos”. O conselho foi seguido à risca. Fotógrafos como Mathew Brady e Chandler Seaver Junior e estúdios como o McAllister & Brother da Filadélfia produziram milhares de cópias impressas.
O registro visceral das cicatrizes de Peter passou a ser difundido pelos abolicionistas como uma comprovação material dos horrores da escravidão. A imagem contradizia diretamente a propaganda sulista de que a escravidão era “benevolente”, “cristã” e “humanitária” e de que os cativos eram “bem tratados”.
Em julho de 1863, a revista Harper’s Weekly, então a mais lida dos Estados Unidos, publicou uma matéria sobre Peter, ilustrada com uma gravura tripla inspirada nas fotografias de McPherson e Oliver. O texto, porém, identificava o modelo da imagem como “Gordon” e atribuía a Peter uma história fictícia, composta por relatos de vários fugitivos.
Essa confusão de nomes perdurou por mais de 150 anos e até hoje costuma conduzir historiadores e jornalistas a erros. O relato mais confiável sobre a história de Peter aparentemente foi o que apareceu nas páginas do New-York Daily Tribune em novembro de 1863, com base em uma carta anônima enviada por um abolicionista de Boston.
Legado
“Costas Flageladas” é considerado um dos primeiros exemplos do uso da fotografia como instrumento de denúncia social e mobilização política. A imagem fortaleceu a campanha abolicionista nos Estados Unidos, ajudando a mudar a percepção de milhares de norte-americanos sobre a escravidão e fomentando o alistamento de voluntários nas tropas da União.
As informações sobre Peter no período posterior à fotografia são vagas e contrastantes. Segundo a Harper’s Weekly, Peter teria se juntado ao Exército da União em meados de 1863. A matéria afirma que ele foi capturado e brutalmente espancado pelos Confederados, mas conseguiu sobreviver e fugir, reunindo-se novamente com as forças unionistas.
A suposta imagem de Peter trajando uniforme militar que ilustra a matéria, entretanto, aparentemente retrata outro soldado chamado Furney Bryant, que serviu nas Tropas Coloridas da Carolina do Norte.
Outra reportagem do jornal abolicionista The Liberator afirmava que Peter teria se juntado à Segunda Guarda Nativa da Louisiana e que teria lutado no célebre Cerco de Port Hudson, ocorrido em maio de 1863. Não obstante, a unidade militar supracitada não participou dessa batalha.
É muito provável, de qualquer forma, que Peter tenha de fato servido nas tropas da União. Especula-se que ele pode ter integrado os chamados “Corps D’Afrique” recrutados por Daniel Ullman para lutar na campanha de Port Hudson.
Ao longo da história, a célebre imagem inspirou poemas, canções e obras de arte. A história de Peter foi retratada no filme Emancipação – Uma História de Liberdade, dirigido por Antoine Fuqua e estrelado por Will Smith.
Mais de um século e meio após ter sido produzida, a fotografia se mantém como um registro contundente da barbárie escravagista — e segue incomodando os representantes da intolerância e do ódio racial. Em setembro de 2025, o governo de Donald Trump determinou que todas as reproduções da fotografia fossem removidas de exposições, monumentos e parques nacionais.























