Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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Há 23 anos, no segundo semestre de 2003, tinha início a implementação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma das políticas públicas mais reconhecidas no campo da segurança alimentar e do desenvolvimento das comunidades rurais. Instituído pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o programa prioriza a aquisição de alimentos produzidos por cooperativas ligadas à agricultura familiar, sem a intermediação de atravessadores.

Parte integrante do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), o PAA foi formalmente criado pela Lei 10.696, no âmbito do Programa Fome Zero — um conjunto de mais de 30 políticas públicas criadas com o objetivo de combater a fome e garantir a segurança alimentar dos brasileiros.

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Até o ano de 2002, o Brasil possuía um dos piores indicadores de fome crônica do hemisfério ocidental, acumulando milhares de mortes decorrentes de subnutrição todos os anos e contabilizando mais de 36 milhões de brasileiros passando fome. Complementando os programas de transferência de renda e de subsídio aos pequenos produtores, o PAA visava estimular a agricultura familiar como um meio de baratear o custo da alimentação, aumentar a oferta de alimentos básicos e priorizar o mercado interno.

O programa estabelecia que no mínimo 30% de todos os alimentos adquiridos pelos órgãos da administração pública deveriam ser provenientes de pequenos agricultores, assentados da reforma agrária e cooperativas populares. Os principais destinatários dessas aquisições no âmbito do governo federal eram as Forças Armadas e equipamentos públicos como universidades e hospitais. Parte substancial dos alimentos era repassada para a rede socioassistencial, restaurantes populares, cozinhas comunitárias, organizações de segurança alimentar e nutricional, rede pública de ensino e instituições filantrópicas.

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Outra função do programa era a constituição de estoques públicos de alimentos básicos, com a finalidade de estabilizar os preços de produtos como arroz, feijão, milho, trigo e leite em pó. O PAA incluía ainda a subvenção de sementes e mudas para pequenos agricultores e o estímulo à produção e distribuição de leite para famílias em situação de vulnerabilidade social.

O PAA teve um impacto extremamente benéfico para a agricultura familiar, que responde por grande parte dos alimentos consumidos no Brasil. Além de fomentar os pequenos agricultores, garantindo renda e inclusão socioprodutiva para inúmeras comunidades camponesas, o PAA estimulava o cooperativismo e o associativismo, fortalecendo os circuitos locais de comercialização e incentivando hábitos alimentares saudáveis, através da incorporação de um grande número de alimentos orgânicos nas merendas escolares, restaurantes populares e bandejões universitários.

Em 2009, o governo Lula formulou as novas diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), estabelecendo que ao menos 30% dos alimentos utilizados nas merendas escolares deveriam vir da agricultura camponesa. Também houve aumento significativo da subvenção a cooperativas populares por intermédio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Reconhecido pela ONU como um modelo em políticas de segurança e soberania alimentar, o PAA inspirou a criação de programas semelhantes em todo o mundo. Em 2011, a ONU convidou o governo brasileiro para dirigir o Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos — iniciativa que busca apoiar governos latino-americanos, asiáticos e africanos na criação de soluções contra a fome.

O PAA teve expansão contínua de recursos até o ano de 2012, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando foram investidos 1,2 bilhão de reais na aquisição de 297 mil toneladas de alimentos, beneficiando quase 130 mil pequenos agricultores. O programa foi um dos alicerces para uma conquista histórica do governo brasileiro: em 2014, pela primeira vez na história, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU.

Após o golpe parlamentar de 2016, no entanto, o PAA foi submetido a sucessivos cortes orçamentários e à descaracterização de seus objetivos. Entre 2012 e 2018, houve uma redução de 94,7% dos recursos destinados ao programa e o número de produtores beneficiados despencou de 130 mil para menos de 10 mil.

Presidente Lula participa da cerimônia de relançamento do Programa de Aquisição de Alimentos em 2023. Foto de Ricardo Stuckert, via Wikimedia Commons
Presidente Lula participa da cerimônia de relançamento do Programa de Aquisição de Alimentos em 2023. Foto de Ricardo Stuckert, via Wikimedia Commons

Em 2020, o governo Jair Bolsonaro apresentou um projeto de medida provisória que, na prática, extinguiu o programa, desobrigando o governo de fazer aquisições da agricultura camponesa, mas mantendo a dispensa de licitação para aquisição de alimentos junto aos grandes latifundiários.

Em paralelo ao desmonte do programa, o Brasil assistiu ao avassalador aumento da fome e à degradação das condições de vida da classe trabalhadora. Conforme dados divulgados em 2022 pela Rede Penssan, 33 milhões de brasileiros estavam passando fome e mais da metade da população do país estava em situação de insegurança alimentar no governo Bolsonaro.

O PAA somente foi retomado em 2023, após o retorno de Lula à presidência. A Medida Provisória nº 1.166, cujo texto foi posteriormente incorporado à Lei nº 14.628, retomou o desenho original do programa, priorizando as compras dos pequenos agricultores e a integração com outras políticas de combate à fome.

Desde a reformulação do programa em 2023, o governo federal já investiu mais de 2,8 bilhões de reais, beneficiando 112 mil famílias fornecedoras, distribuindo 288 mil toneladas de alimentos e atendendo a cerca de 16 mil organizações. A retomada do PAA potencializou as políticas de combate à carestia e ajudou o Brasil a sair mais uma vez do Mapa da Fome da ONU em 2025.

 

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