Quando Cuba derrotou o Império: 65 anos da Invasão da Baía dos Porcos
Milícias civis armadas por Che Guevara resistiram à invasão financiada pela CIA; Fidel Castro denunciou intervenção norte-americana em rede nacional
Há 65 anos, em 17 de abril de 1961, um grupo de 1.400 exilados cubanos, treinados e financiados pela CIA, desembarcava na costa sul de Cuba, na região conhecida como Baía dos Porcos.
Planejada e coordenada por Washington, a invasão tinha como objetivo derrubar o governo revolucionário de Cuba. A Casa Branca acreditava que a campanha estimularia um levante popular contra as forças de Fidel Castro, mas ocorreu exatamente o oposto. Os cubanos aderiram em massa à luta contra os invasores e os paramilitares da CIA foram derrotados em três dias.
O fracasso retumbante da operação constrangeu o governo de John Kennedy e expôs a hostilidade norte-americana contra Cuba. A operação acabou por fortalecer o governo revolucionário de Fidel Castro e impulsionou ainda mais a adesão de Cuba ao bloco socialista.
As tensões com Washington
O triunfo da Revolução Cubana em 1959 representou um grande revés para os interesses norte-americanos no Caribe. A queda de Fulgencio Batista retirou a ilha do círculo de influência dos Estados Unidos e alimentou o ímpeto nacionalista do povo cubano em favor do ideário de soberania e autodeterminação.
O governo revolucionário confiscou terras e os ativos de bancos e empresas norte-americanas e nacionalizou refinarias de petróleo controladas por corporações estrangeiras. Fidel Castro também preteriu os interesses norte-americanos na compra de petróleo e combustível, priorizando o comércio com a União Soviética.
Em represália, o governo dos Estados Unidos decretou um embargo econômico contra Cuba em outubro de 1960 e passou a acusar o governo cubano de suprimir liberdades civis, violar os direitos humanos e “seguir fielmente a agenda bolchevique”.
O governo cubano respondeu ampliando sua adesão à esfera de influência soviética e intensificando as expropriações, nacionalizando 383 negócios privados e outras 166 companhias norte-americanas, incluindo as instalações de corporações gigantes como a Coca-Cola e a Sears.

Prisioneiros da Brigada 2506 capturados por soldados cubanos. Fotografia de Miguel Vinas
Via Wikimedia Commons
Visando retomar o controle norte-americano sobre a ilha, o governo de Dwight Eisenhower incumbiu Allen Dulles, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), de arquitetar um plano para depor ou assassinar Fidel Castro.
Como parte desse plano, a CIA começou a recrutar cubanos anticastristas exilados nos Estados Unidos para formar uma força paramilitar e designou o agente Howard Hunt para coordenar a criação de um governo cubano paralelo no exílio, que seria efetivamente controlado pela agência.
Preparando as milícias
Em março de 1960, o plano para invadir Cuba e derrubar Castro foi aprovado por Eisenhower e pelo Conselho de Segurança Nacional. Em novembro, a CIA já havia recrutado e treinado uma força paramilitar de 1.500 exilados cubanos — a chamada Brigada 2506.
Allen Dulles já tinha experiência com esse tipo de intervenção. Havia sido utilizada com sucesso durante o golpe militar na Guatemala em 1954, por exemplo. Ele assegurou a Eisenhower que a ação seria rápida e efetiva.
Em janeiro de 1961, John Kennedy assumiu a presidência dos Estados Unidos e foi informado sobre o plano de invadir a ilha. Kennedy autorizou a execução da operação três meses mais tarde, em 4 de abril.
Nesse meio tempo, os exilados cubanos receberam treinamento da CIA e das Forças Armadas em instalações militares dos Estados Unidos, Porto Rico e Guatemala. A CIA também forneceu técnicos, especialistas, suprimentos e armas aos dissidentes cubanos e disponibilizou navios e aeronaves militares para prestar assistência logística.
Fidel Castro, por sua vez, já suspeitava que o governo dos Estados Unidos pretendia organizar uma contrarrevolução e passou a se armar com aeronaves, blindados, canhões e peças de artilharia soviética.
Seguindo a sugestão de Che Guevara, Castro também criou milícias revolucionárias, armando a população civil. Em 13 de abril de 1961, o serviço secreto soviético informou ao governo cubano que os Estados Unidos planejavam de fato um ataque contra a ilha para os próximos dias.
A invasão
Em 15 de abril de 1961, os paramilitares deram início a uma operação de distração, com o desembarque de uma flotilha em Baracoa, na província de Oriente, além de um ataque de aviões-bombardeiro B-26, que visava destruir ou inutilizar a frota de aviões da Força Aérea cubana.
No dia seguinte, os exilados organizaram um motim em Las Villas e uma frota de navios, apoiada pela marinha norte-americana, aproximou-se da ilha transportando paramilitares e armamentos.
A invasão propriamente dita começou no dia 17 de abril, quando uma coluna com quatro navios de desembarque entrou na Praia Girón, na Baía dos Porcos, costa sul de Cuba, conduzindo 1.400 paramilitares da Brigada 2506, veículos blindados, armamentos, munições e suprimentos.
Outros navios menores transportando mais exilados também começaram a chegar, enquanto seis aeronaves lançavam paraquedistas. As milícias civis cubanas, entretanto, conseguiram avistar os navios se aproximando e alertaram as autoridades. Em seguida, organizaram a resistência civil armada, visando impedir o avanço dos paramilitares, enquanto os aviões da Força Aérea cubana chegavam para atacar os navios invasores no litoral.
Fidel Castro fez um pronunciamento ao povo em rede nacional denunciando a intervenção norte-americana e afirmando que os invasores pretendiam “destruir a revolução” e “acabar com a dignidade e os direitos dos homens”.
O pronunciamento inflamou o povo cubano e as milícias civis. Volumosas tropas de cubanos armados imediatamente se lançaram ao combate contra os exilados, logrando recapturar em poucas horas algumas localidades que tinham sido tomadas pelos invasores, tais como Palpite e Playa Larga. Osvaldo Ramírez, líder de um movimento insurgente contra Castro na zona rural, foi capturado no mesmo dia.
Em 18 de abril, tropas do exército cubano tomaram Playa Larga e forçaram os exilados a recuar até San Blas. Percebendo a dificuldade dos paramilitares, a CIA enviou bombardeiros para atacar alvos civis e militares com bombas e napalm.
No dia seguinte, ocorreu a última missão de combate aéreo, quando os cubanos conseguiram abater dois B-26 e neutralizar a ação aérea de apoio às forças terrestres, que já estavam cercadas sob fogo da artilharia pesada e dos blindados do exército de Castro.
Kennedy capitula
Com a situação se deteriorando, Kennedy autorizou o uso de aviões militares para apoiar os exilados. As aeronaves partiram de um porta-aviões nos arredores da ilha, mas não conseguiram fornecer auxílio significativo aos invasores.
Dois contratorpedeiros norte-americanos foram até a Baía dos Porcos para tentar prestar apoio, mas foram recebidos com fogo intenso e forçados a recuar. Diante das dificuldades e ciente de que intervir de forma mais enfática tornaria impossível dissimular o envolvimento do governo norte-americano na operação — justificando, assim, o eventual ingresso da União Soviética no conflito — Kennedy desistiu da invasão.
Cercadas, as últimas tropas paramilitares se renderam entre os dias 19 e 20 de abril. O governo cubano capturou e encarcerou 1.189 paramilitares que participaram da invasão. Ao menos 114 membros da Brigada 2506 morreram durante os embates. Pepe San Román, comandante da unidade invasora, conseguiu se esconder nas áreas de mata, mas foi capturado pelos cubanos em 25 de abril.
O fracasso da operação envergonhou Kennedy, humilhou Dulles e levou ao aprofundamento da cisão entre os governos norte-americano e cubano. Castro convenceu-se de que era necessário aprofundar o caráter socialista da Revolução Cubana e aproximou-se de forma definitiva da União Soviética.
Em agosto de 1961, durante uma conferência da Organização dos Estados Americanos sediada em Punta del Este, Uruguai, Che Guevara enviou uma nota a Kennedy em que agradecia ironicamente pela invasão: “Obrigado pela Batalha da Praia Girón. Antes da invasão, a revolução era fraca. Agora, graças a você, ela é mais forte do que nunca”.
























