Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Dentre as muitas novidades viabilizadas pelo governo socialista na União Soviética, há uma política que até hoje se destaca como uma experiência sem paralelo na história: a criação da rede pública de sanatórios.

Afastando-se da acepção comum da palavra, os sanatórios soviéticos eram resorts mantidos pelo governo. Complexos arquitetônicos construídos junto às praias, fontes termais ou regiões montanhosas, que serviam ao mesmo tempo como hotéis, restaurantes, centros de lazer, spas e clínicas médicas.

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Todos os anos, os trabalhadores soviéticos recebiam vales que permitiam a hospedagem de suas famílias nos resorts por até seis semanas, com todos os custos cobertos pelo governo — incluindo desde massagens, check-ups e tratamentos estéticos até cinco refeições diárias.

O objetivo dos sanatórios era ajudar a criar uma força de trabalho saudável, satisfeita e produtiva, promovendo o fortalecimento dos vínculos comunitários e o apoio popular ao projeto socialista.

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A revolução e os direitos trabalhistas

A Revolução de Outubro de 1917 na Rússia teve grande importância para a consolidação dos direitos trabalhistas, implementando diversas pautas reivindicadas pelos movimentos operários desde o século 19, tais como a jornada de trabalho de oito horas diárias e o descanso semanal remunerado.

Uma das contribuições mais relevantes do governo dos bolcheviques para a classe trabalhadora foi a criação das férias laborais remuneradas, instituída décadas antes das potências ocidentais. O governo russo buscava harmonizar o incentivo ao trabalho e à produtividade com o bem-estar da classe operária.

A criação de uma força de trabalho saudável, bem disposta e contemplada em relação às suas necessidades básicas era considerada um dos elementos indispensáveis para o aumento da produtividade e um alicerce para a construção de uma sociedade próspera.

Assim, em 1920, Vladimir Lenin emitiu o decreto “Sobre a utilização da Crimeia para o tratamento médico de trabalhadores”, determinando a criação de centros recreativos e terapêuticos para usufruto da classe trabalhadora.

Em 1922, o Código de Trabalho foi aprovado, formalizando a obrigatoriedade da concessão de férias anuais remuneradas para todos os trabalhadores que tivessem acumulado mais de cinco meses e meio de trabalho no período de um ano. O “direito ao descanso” seria posteriormente reafirmado como pela Constituição Soviética de 1936.

Os sanatórios

Em cumprimento ao decreto de Lenin, o governo soviético iniciou a instalação dos sanatórios — uma mistura de resort, colônia de férias e clínica médica, oferecendo hospedagem, atividades recreativas e tratamentos terapêuticos.

Os sanatórios tinham por objetivo proporcionar descanso e recuperação para os trabalhadores, revigorando-os física e mentalmente antes do início de mais um ano de trabalho. Esperava-se, assim, criar um ambiente com mais satisfação, diligência e produtividade. Também serviam ao fortalecimento dos vínculos comunitários da classe trabalhadora e reforçavam o apoio popular ao projeto socialista.

Os sanatórios se tornaram parte fundamental da identidade sociopolítica da União Soviética e permanecem até hoje como uma das iniciativas mais impressionantes em prol do bem estar da classe trabalhadora.

A criação de colônias de férias e resorts para que camponeses e operários passassem semanas recebendo massagens e tratamentos médicos e estéticos, frequentando saunas, piscinas e banquetes impressionou os países do Ocidente — onde tais rotinas eram privilégios de uma minúscula elite, acostumada a frequentar os sofisticados balneários termais de Baden-Baden ou Karlovy Vary. Algo bastante admirável em uma época em que, parafraseando o comissário soviético Nikolai Semashko, o único lugar reservado para o descanso dos trabalhadores era o cemitério.

O primeiro sanatório soviético foi inaugurado em 1925, sendo instalado no suntuoso Palácio de Livadia, a antiga residência de verão dos czares russos. Ao longo dos anos 20, vários outros sanatórios foram inaugurados na Crimeia e no litoral do Mar Negro.

Durante o governo de Josef Stalin, acompanhando o acelerado processo de industrialização, iniciou-se uma política de expansão sistemática dos sanatórios por todo o território soviético. Em apenas uma década, Stalin construiu 1.828 sanatórios e inaugurou 239.000 leitos.

Havia uma grande preocupação estética na criação desses espaços, concebidos sob princípios arquitetônicos e projetos decorativos que exaltavam a classe trabalhadora e faziam alusão aos valores nacionais e ao ideário socialista. Mais do que espaços médicos e de repouso, eram centros projetados para fomentar a consciência política do “novo homem”.

O antigo sanatório de Druzhba, em Kurpaty, na região da Crimeia. Via Wikimedia Commons

As férias soviéticas

A maioria dos trabalhadores soviéticos recebia vales (ditos “putevki”) que davam direito à hospedagem gratuita nos resorts públicos. O custo da viagem até os sanatórios também era coberto pelo governo. O período de hospedagem variava entre duas e seis semanas.

Os trabalhadores com problemas de saúde tinham prioridade. Já na chegada, os hóspedes passavam por uma avaliação médica. Tinham direito a até cinco refeições diárias e acompanhamento de um nutricionista, além de um enorme leque de atividades recreativas diárias que incluíam jogar bilhar ou xadrez, ler, nadar na piscina, frequentar a praia, assistir a uma peça de teatro ou apreciar um espetáculo musical.

Entre as atividades físicas e terapêuticas, havia ginástica, caminhada, massagem, sauna, banhos de argila medicinal, radônio ou águas termais e tratamentos então considerados inovadores, como a eletroterapia, a aromaterapia e a oxigenoterapia.

Alguns sanatórios eram especializados em terapias específicas, tais como a Clínica Nacional de Espeleoterapia, na Bielorrússia, onde os hóspedes se purificavam no ar de uma mina de sal subterrânea, ou o sanatório de Kolkhida, na Geórgia, conhecido por suas areias magnéticas cintilantes.

Os sanatórios mais cobiçados ficavam próximos ao mar, mas vários eram construídos junto a fontes termais ou em locais que propiciavam a conexão com a natureza. A expansão dos sanatórios estimulou o desenvolvimento da chamada “resortologia” — ciência médica que estudava propriedades curativas dos elementos e fatores naturais e seus mecanismos de ação sobre o corpo humano.

A hospedagem nos sanatórios consistiu no programa de férias mais cobiçado dos cidadãos soviéticos ao longo de décadas. Todos os anos os sanatórios hospedavam milhões de trabalhadores e a alta demanda fez com que seguissem sendo expandidos de forma contínua até a década de 1980. O último resort público a ser erguido foi o Sanatório de Reshma, inaugurado em 1987 nas margens do Rio Volga.

Após a dissolução da União Soviética em 1991 e a transição para a economia de mercado, os sanatórios localizados em áreas de alto potencial turístico foram privatizados, sendo convertidos em hotéis de luxo, clínicas particulares ou spas.

O antigo sanatório Aurora, no Quirguistão, por exemplo, hoje cobra diárias de mais de mil reais — um valor inacessível para o bolso da imensa maioria dos cidadãos. Muitos balneários foram abandonados em função dos altos custos de manutenção e seguem até hoje sem uso, submetidos à deterioração contínua de suas instalações.