Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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Há 68 anos, em 14 de julho de 1958, militares nacionalistas ligados ao movimento dos Oficiais Livres derrubavam a monarquia hachemita e proclamavam a República do Iraque. A insurreição pôs fim a um regime vassalo extremamente impopular, que se submeteu ao domínio britânico por várias décadas.

A Revolução de 14 de Julho foi impulsionada pelo descontentamento generalizado do povo iraquiano com a desigualdade social, a concentração fundiária, a corrupção das elites e a submissão da classe política às potências ocidentais.

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O governo revolucionário promoveu um amplo programa de reformas, incluindo a redistribuição de terras, a ampliação dos direitos trabalhistas, a expansão dos serviços públicos e a criação de medidas em prol da igualdade de gênero, além de adotar uma política externa autônoma, aproximando-se da União Soviética e dos países não alinhados.

O domínio britânico e a Dinastia Hachemita

Integrado ao Império Otomano desde o século 17, o Iraque foi um dos muitos territórios árabes submetidos ao domínio colonial europeu após o advento da Primeira Guerra Mundial. Ao invés de conceder a independência prometida aos povos árabes durante a guerra, as potências vencedoras do conflito dividiram os antigos territórios otomanos entre si.

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Em 1920, durante a Conferência de San Remo, a recém-criada Liga das Nações concedeu ao Império Britânico o controle sobre o Mandato da Mesopotâmia, que abrangia as províncias de Mossul, Bagdá e Basra — origem do atual Estado do Iraque.

O controle britânico revelou-se mais centralizado e rígido do que o otomano, gerando profunda insatisfação entre a população local. Em 1920, eclodiu a Revolta Iraquiana, um levante nacionalista que uniu líderes sunitas e xiitas contra a ocupação estrangeira. O levante foi violentamente reprimido pelas tropas coloniais, deixando um saldo de milhares de mortos.

Em 1921, visando reduzir os custos administrativos e apaziguar as tensões locais, os britânicos transformaram o Iraque em uma monarquia, instalando no trono o rei Faiçal I, membro da Dinastia Hachemita e aliado do Reino Unido durante a Revolta Árabe.

O reino do Iraque, no entanto, era desprovido de soberania, servindo meramente como um Estado fantoche a serviço dos britânicos. As Forças Armadas, a política externa, as finanças e, sobretudo, a exploração das reservas de petróleo permaneciam sob o domínio de Londres. A Iraq Petroleum Company (IPC), detentora do monopólio de exploração petrolífera no país, era controlada por capitais britânicos e ocidentais, gerando vultosos lucros para as potências estrangeiras.

O Iraque se tornou formalmente independente em 1932, quando o regime de mandato foi encerrado e o país ingressou na Liga das Nações. A influência britânica, entretanto, permaneceu intocada. O Reino Unido manteve suas bases militares e preservou a prerrogativa de intervir no país, ao passo que os recursos naturais iraquianos permaneciam sob controle das corporações europeias. 

O governo de Nuri al-Said

Além da aliança com a Dinastia Hachemita, os britânicos contavam com a colaboração irrestrita do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Said. Entre 1930 e 1958, Nuri ocupou por oito vezes o cargo de premiê, tornando-se o principal dirigente civil do regime.

Embora se apresentasse como um reformista e um defensor da modernização, a imagem de Nuri ficou profundamente associada à subserviência do Iraque em relação ao Reino Unido. Nuri foi um dos responsáveis por formular o Tratado Anglo-Iraquiano de 1930, que concedeu aos britânicos o direito de intervir irrestritamente no país.

Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, um golpe de Estado liderado por Rashid Ali al-Gaylani derrubou o regente Abd al-Ilah e forçou Nuri a fugir do país, instalando um governo nacionalista que buscou se aproximar das potências do Eixo. Reagindo ao golpe, as tropas do Reino Unido invadiram novamente o Iraque e restauraram o trono e o gabinete de Nuri, garantindo a continuidade da influência britânica.

A percepção de que Nuri era uma marionete do Império Britânico o transformou em uma figura extremamente impopular no Iraque. A crise econômica do pós-guerra ampliaria ainda mais o desgaste do seu governo. A recessão, o desemprego e a inflação galopante jogaram milhões de famílias na miséria e ampliaram a desigualdade social.

A riqueza proveniente do petróleo beneficiava apenas a minúscula elite e as corporações estrangeiras, sem produzir mudanças significativas nas condições de vida da população. As “reformas modernizantes” prometidas jamais chegaram ao campo, onde os trabalhadores rurais seguiam submetidos às relações semifeudais e aos abusos dos latifundiários.

Incapaz de contornar as críticas ao seu governo, Nuri tornou-se cada vez mais autoritário. A oposição era perseguida e silenciada com prisões, exílios e lei marcial. As fraudes eleitorais eram corriqueiras e as manifestações populares eram brutalmente esmagadas pelas forças de segurança.

O descontentamento com Nuri chegou ao ápice na década de 1950, quando o nacionalismo árabe ganhava força em todo o Oriente Médio — em grande parte graças aos esforços do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. Enquanto o líder egípcio defendia a unidade árabe, o combate ao colonialismo e o anti-imperialismo, Nuri seguia aprofundando a dependência do Iraque em relação ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

Em 1955, Nuri se tornou um dos principais articuladores do Pacto de Bagdá, uma aliança militar anticomunista criada com o propósito de se contrapor à influência da União Soviética no Oriente Médio. Apoiado por Washington, o tratado congregava os governos do Reino Unido, Iraque, Irã, Turquia e Paquistão.

A Crise de Suez agravou ainda mais o isolamento de Nuri. Enquanto Nasser nacionalizava o Canal de Suez e resistia às agressões de Reino Unido, França e Israel, o governo do Iraque apoiava implicitamente a invasão imperialista. Nuri, o rei Faiçal II e os demais membros da Dinastia Hachemita passariam a ser vistos como traidores da causa árabe.

Iraquianos saem às ruas em apoio à Revolução de 14 de Julho de 1958
Wikimedia Commons/factoriahistorica

 A Revolução de 14 de Julho

Em 1958, acirrando a cisão com o movimento pan-arabista, os governantes iraquianos fundaram a Federação Hachemita, unindo os reinos do Iraque e da Jordânia. A criação desse novo Estado era uma resposta à fundação da República Árabe Unida, uma federação pan-árabe governada por Nasser, congregando Egito e Síria.

O regime iraquiano temia que o prestígio de Nasser estimulasse movimentos revolucionários dentro do Iraque, ameaçando a Dinastia Hachemita. A criação da federação era, portanto, uma iniciativa das monarquias conservadoras para preservar o seu poder e conter a expansão do pan-arabismo.

Para os militares nacionalistas iraquianos, a criação da Federação Hachemita foi a gota d’água. Um número crescente de oficiais simpatizava com Nasser e defendia a derrubada da monarquia. Entre eles destacavam-se o brigadeiro Abd al-Karim Qasim e o coronel Abd al-Salam Arif, líderes do movimento dos Oficiais Livres, um agrupamento revolucionário inspirado no grupo homônimo egípcio, que havia levado Nasser ao poder em 1952.

O estopim da revolução ocorreu justamente em razão dessas disputas regionais. Em julho de 1958, temendo que um levante popular no Líbano se estendesse para a Jordânia, o regime iraquiano decidiu enviar tropas para apoiar o rei Hussein e a Federação Hachemita. As unidades encarregadas dessa missão, no entanto, eram justamente aquelas comandadas por oficiais envolvidos na conspiração revolucionária.

Na madrugada de 14 de julho de 1958, os militares nacionalistas se rebelaram. Sob o comando de Arif, as tropas da 20ª Brigada marcharam sobre Bagdá, ocupando as estações de rádio e as instalações estratégicas do governo. Um destacamento rebelde tomou o Palácio Al-Rehab, a residência da família real. O rei Faiçal II, o príncipe regente Abd al-Ilah e outros membros da família real foram executados pelos rebeldes.

Os soldados da 19ª Brigada partiram de Jalawla e chegaram a Bagdá no início da tarde. Liderados por Qasim, os rebeldes instalaram o quartel-general da revolução na sede do Ministério da Defesa e iniciaram as buscas por Nuri al-Said. O primeiro-ministro foi capturado e assassinado a tiros no dia seguinte, enquanto tentava fugir de Bagdá disfarçado sob trajes femininos.

A população iraquiana apoiou em peso a insurreição. Uma multidão furiosa depredou os edifícios governamentais e destruiu os símbolos do antigo regime. A Embaixada do Reino Unido foi invadida e incendiada. Cidadãos norte-americanos, britânicos e jordanianos foram atacados nas ruas e linchados até a morte. Os corpos de Nuri al-Said e Abd al-Ilah foram exumados, execrados, mutilados e arrastados pelas ruas de Bagdá.

O levante contou com a adesão de partidos políticos de todos os espectros, da esquerda à direita. O Partido Comunista Iraquiano (PCI), muito influente entre os operários e intelectuais, ofereceu apoio crucial à insurreição e ajudou a mobilizar amplas camadas da sociedade. Os exilados curdos, que sofriam severa perseguição sob a Dinastia Hachemita, também deram forte apoio à revolução. 

As reformas pós-revolução

Imediatamente após a tomada de Bagdá, o governo revolucionário anunciou a abolição da monarquia e proclamou a República do Iraque. Muhammad Najib ar-Ruba’i, um dos articuladores da insurreição, assumiu a presidência da república, ao passo que Abd al-Karim Qasim foi nomeado primeiro-ministro.

O governo Qasim implementou um programa abrangente de reformas políticas, econômicas e sociais. Iniciada ainda em 1958, a reforma agrária limitou a concentração de terra, confiscou e distribuiu os latifúndios e desmontou o sistema de servidão de cariz feudal que ainda subsistia nas zonas rurais.

Planos ambiciosos de urbanização, habitação popular e melhoria da infraestrutura foram lançados. Na educação e na saúde, houve expansão significativa do número de escolas, universidades e hospitais. Diversos serviços públicos foram criados. O valor dos aluguéis foi reduzido em 20% e o preço do pão caiu 30%.

O governo republicano conduziu importantes avanços nas questões de gênero. Naziha al-Dulaimi, dirigente do Partido Comunista Iraquiano, foi nomeada Ministra de Assuntos Municipais, tornando-se a primeira mulher a chefiar um ministério no Iraque e em todo o mundo árabe.

A Lei dos Assuntos Pessoais de 1959 reformou o direito de família, facilitando o divórcio, restringindo a poligamia, estabelecendo a idade mínima de 18 anos para casamentos e garantindo direitos de herança mais equitativos para as mulheres.

Qasim reconheceu formalmente os curdos como um povo integrante da nação iraquiana. O idioma curdo foi oficialmente reconhecido e diversos líderes curdos, incluindo Mustafa Barzani, receberam autorização para retornar do exílio, com a expectativa de uma solução negociada para a questão curda.

Na área econômica, Qasim buscou impor maior controle estatal sobre o petróleo. Ele expropriou a maior parte das reservas geridas pela iniciativa privada, lançando as bases para a futura criação da Companhia Nacional de Petróleo do Iraque. Também buscou estimular a industrialização e fortaleceu as empresas públicas, ampliando a capacidade administrativa do Estado.

Os direitos trabalhistas foram ampliados. O governo iraquiano limitou a jornada de trabalho a oito horas diárias e reajustou os salários em até 50% já no primeiro ano da república. Os movimentos trabalhistas e sindicatos foram legalizados.

Na política externa, o Iraque renunciou à Federação Hachemita, aboliu os tratados militares com o Reino Unido e abandonou o Pacto de Bagdá. O novo governo se aproximou da União Soviética e passou a apoiar as lutas de libertação na Palestina, na Argélia e em outros países, fortalecendo os laços com os movimentos anticoloniais e anti-imperialistas.

Apesar dos muitos avanços, o governo revolucionário logo começou a sofrer com a fragmentação e com as lutas internas. A recusa de Qasim em aderir à República Árabe Unida, por receio de que o Iraque ficasse subordinado ao Egito, o colocou em conflito constante com os nasseristas, resultando em uma série de tentativas de golpe.

Os grandes proprietários rurais resistiam à reforma agrária e os setores religiosos condenavam a nova legislação familiar. Os comunistas se frustraram com os limites impostos à sua participação política e as relações com os curdos se deterioraram em função da demora em cumprir as promessas de autonomia regional. Qasim ficava cada vez mais isolado.

As disputas e contradições culminaram com a chamada Revolução Ramadã, deflagrada em 8 de fevereiro de 1963, quando uma coalizão de militares nacionalistas e militantes do Partido Baath derrubou o governo. Qasim foi preso, submetido a um julgamento sumário e executado.

Ahmed Hassan al-Bakr assumiu o cargo de primeiro-ministro, recebendo forte apoio do governo norte-americano. O novo regime organizou uma campanha brutal de repressão aos opositores, resultando no assassinato de milhares de pessoas, em especial os membros do Partido Comunista.