Quarta-feira, 24 de junho de 2026
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Há 44 anos, a população de Londres se chocava ao observar uma cena tétrica às margens do Rio Tâmisa. Enforcado sob a ponte de Blackfriars, balançava o corpo do banqueiro Roberto Calvi, o presidente do Banco Ambrosiano, uma instituição estreitamente vinculada às finanças da Igreja Católica.

A princípio, as autoridades britânicas trataram o caso como suicídio, mas as evidências de que Calvi fora assassinado eram gritantes. Também não faltavam suspeitos. Sob o comando de Calvi, o Banco Ambrosiano se tornara um canal para a lavagem de dinheiro para a máfia siciliana. O banco também canalizava recursos para transações do Vaticano e financiava operações políticas clandestinas vinculadas à CIA.

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As investigações evidenciaram a existência de uma ampla rede de conexões obscuras envolvendo a Cosa Nostra, a Igreja Católica e, sobretudo, a loja maçônica P2 — uma poderosa organização de extrema-direita que congregava membros da elite italiana e que havia se infiltrado nas instituições do governo, estabelecendo um “Estado dentro do Estado”.

Roberto Calvi e o Banco Ambrosiano

Nascido em Milão em 1920, Roberto Calvi iniciou sua carreira no setor financeiro como contador do Banco Comercial Italiano. Após o término da Segunda Guerra Mundial, ele começou a trabalhar para o Banco Ambrosiano, a segunda maior instituição financeira da Itália. Em 1971, foi nomeado gerente geral. Quatro anos depois, em 1975, tornou-se presidente do banco.

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Fundado no fim do século 19, o Banco Ambrosiano se notabilizou por seus vínculos com as organizações católicas e com o Vaticano. O principal acionista do Ambrosiano era o Instituto para as Obras de Religião (IOR), o chamado “Banco do Vaticano”. O IOR é a organização responsável por administrar os bens, fundos e investimentos financeiros da Igreja Católica em todo o mundo.

Roberto Calvi cultivou relações estreitas com a cúpula do IOR, em especial com o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o presidente do instituto. A proximidade rendeu a Calvi o epíteto irônico de “o banqueiro de Deus”. Sua parceria com o Vaticano, no entanto, era baseada em interesses essencialmente mundanos.

Por ser uma entidade pertencente à Igreja Católica, o IOR desfrutava de um grau bastante elevado de autonomia e operava sem transparência ou controles cambiais rígidos. Como o Vaticano é considerado um Estado soberano, o IOR não era obrigado a prestar contas aos órgãos reguladores e às autoridades monetárias da Itália. O “Banco do Vaticano” era uma “caixa preta” — uma particularidade que o tornava ideal para ocultar transações de natureza ilícita.

Calvi aproveitou-se das relações privilegiadas com o IOR para criar uma extensa rede de empresas de fachada e offshores espalhadas por locais como Panamá, Luxemburgo, Bahamas e países da América do Sul. Bilhões de dólares transitavam através dessa rede, sem que houvesse nenhum tipo de controle adequado.

As empresas de Calvi eran utilizadas para movimentar recursos empregados em operações ilegais, que iam desde lavagem de dinheiro para a máfia até o financiamento de atividades políticas clandestinas. O banqueiro também canalizava recursos para organizações conservadoras e anticomunistas, incluindo o Solidariedade, movimento que liderava a oposição ao governo socialista da Polônia e que contava com apoio da CIA e com o beneplácito do Papa João Paulo II.

Propaganda Due

Além das negociatas envolvendo o Banco Ambrosiano e o IOR, Calvi e Marcinkus eram muito próximos de Michele Sindona, um banqueiro da máfia siciliana que fez fortuna lavando dinheiro do tráfico de heroína. A despeito de suas ligações com a “Cosa Nostra”, Sindona foi nomeado assessor financeiro do Vaticano pelo Papa Paulo VI e passou a integrar o conselho administrativo do IOR.

Foi o próprio Sindona quem introduziu Calvi nos meandros das altas finanças e em esquemas de evasão fiscal e lavagem de dinheiro. E assim como Sindona, Calvi também era membro da Propaganda Due (P2), uma loja maçônica que esteve implicada em uma série de escândalos e crimes na Itália.

O “Mestre Venerável” da P2 era o financista Licio Gelli, eminência parda da Itália no pós-Segunda Guerra. Assumidamente fascista, Gelli se orgulhava de ter integrado as organizações paramilitares de Mussolini nos anos 30 e de ter servido voluntariamente nas tropas de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola.

Posteriormente, Gelli se tornou um colaborador da CIA, atuando para manipular a política italiana e impedir a rearticulação da esquerda. Ele ajudou a organizar a Operação Gladio, uma violenta campanha anticomunista que coordenou projetos de desestabilização, manipulação e sabotagem. A operação recorreu ao uso de atentados terroristas em operações de bandeira falsa para culpar a esquerda e justificar o aumento da repressão e do controle social.

Sob o comando de Licio Gelli, a P2 se converteu em uma estrutura de poder paralelo que se infiltrou nas principais instituições do Estado italiano, obtendo a capacidade de influenciar os rumos do governo. Os membros da organização eram empresários, banqueiros, mafiosos, parlamentares, magnatas da imprensa e burocratas do primeiro escalão do governo.

O objetivo da P2 era subverter o sistema democrático italiano e instaurar um regime autoritário de extrema-direita. As ações do grupo eram guiadas pelo “Plano para o Renascimento Democrático”, que elencava como prioridades o combate ao comunismo, o enfraquecimento dos partidos políticos, a supressão dos sindicatos e movimentos sociais e o controle da imprensa.

Além da ligação com a máfia e do envolvimento em fraudes financeiras e esquemas de corrupção, membros da P2 foram diretamente implicados em alguns dos piores atentados terroristas ocorridos na Itália entre as décadas de 1960 e 1980, incluindo o Massacre de Bolonha (85 mortos e 200 feridos) e o atentado da Piazza Fontana (17 mortos e 88 feridos).

Investigação e prisão de Calvi

As atividades criminosas da P2 foram descobertas em 1981, quando o Ministério Público da Itália conduziu uma investigação sobre a atuação de Michele Sindona junto à máfia.

Ao realizar uma operação de busca e apreensão na mansão de Licio Gelli em Arezzo, a polícia descobriu uma lista com o nome de 962 membros da P2. Entre eles estavam quatro ministros do governo, 44 deputados, oficiais das Forças Armadas, magistrados e os chefes dos três serviços secretos italianos, além de empresários como Silvio Berlusconi.

A descoberta desatou uma grave crise política na Itália, levando à queda do primeiro-ministro Arnaldo Forlani e de todo o seu gabinete. Luciano Rossi, oficial da Guarda de Finanças, cometeu suicídio. A P2 foi oficialmente dissolvida e uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada.

As investigações acabaram por implicar Roberto Calvi e o Banco Ambrosiano no escândalo. As auditorias revelaram violações sistemáticas das leis cambiais italianas e o desaparecimento de quase 1,5 bilhão de dólares nas contas do Ambrosiano — dinheiro que provavelmente foi desviado para offshores e paraísos fiscais por meio do Banco do Vaticano.

O rombo causou a falência do Banco Ambrosiano e mais de 30 pessoas foram condenadas por fraude fiscal. Em maio de 1981, Calvi foi preso por exportação ilegal de capitais. Ele seria condenado a quatro anos de prisão, mas recebeu autorização para recorrer em liberdade após o pagamento de fiança.

Preocupado com o abandono dos antigos aliados e temendo ser usado como bode expiatório, Calvi passou a fazer ameaças veladas. Ele chegou a enviar uma mensagem em tom de chantagem ao IOR e escreveu uma carta para o Papa João Paulo II informando-o sobre a iminência de “uma catástrofe de proporções inimagináveis” envolvendo a Igreja Católica.

À medida que o escândalo se ampliava, Calvi passou a temer por sua segurança. O banqueiro possuía informações comprometedoras que ameaçavam algumas das pessoas mais poderosas da Itália, de políticos a mafiosos, passando por financistas e líderes religiosos.

Calvi fugiu da Itália em 10 de junho de 1982, auxiliado por Flavio Carboni, um empresário associado à máfia. Ele foi para a Suíça e de lá voou para o Reino Unido em um avião particular, utilizando um passaporte falso. Carregava consigo uma maleta repleta de documentos sobre as operações ilícitas do Banco Ambrosiano.

: Roberto Calvi em 1982.
Via Wikimedia Commons

O mistério de Blackfriars Bridge

Na manhã de 18 de junho de 1982, oito dias após sua fuga da Itália, Roberto Calvi foi encontrado morto no centro de Londres. Seu corpo balançava em uma estrutura de andaimes, pendurado sob uma ponte às margens do Rio Tâmisa.

Em seu laudo forense, a polícia britânica afirmou que o banqueiro havia se suicidado. As circunstâncias, no entanto, eram estranhas. Os bolsos de Calvi estavam cheios de tijolos. Ele também carregava 14 mil dólares em moedas de vários países e um passaporte falso em nome de “Gian Roberto Calvini”, com um visto válido para o Brasil e uma passagem só de ida para o Rio de Janeiro.

A família de Calvi contestou o laudo da polícia e contratou detetives particulares para realizar uma apuração paralela. Os investigadores observaram que seria muito difícil para um homem de 62 anos, na condição física de Calvi, alcançar sozinho o local onde o corpo foi encontrado. A ausência de tinta e ferrugem nos sapatos também sugeria que ele não havia caminhado sobre o andaime.

Ainda em 1982, o jornalista Paolo Filo della Torre contestou abertamente a tese do suicídio e apontou a possibilidade de o banqueiro ter sido assassinado pela maçonaria. Elementos simbólicos militavam em favor dessa hipótese, a começar pelo nome da ponte onde o corpo de Calvi foi encontrado: Blackfriars Bridge, ou “Ponte dos Frades Negros”.

O nome da ponte evocava a expressão “frati neri” (“frades negros” em italiano) utilizada para designar os membros da loja maçônica P2, que usavam túnicas pretas em suas reuniões. A presença de tijolos nos bolsos de Calvi também poderia ser interpretada como um simbolismo, aludindo à palavra “maçon” — “pedreiro” em francês.

Outro associados de Calvi morreram no mesmo período, a começar por sua secretária pessoal, que teria se suicidado pulando do quarto andar de um edifício em Milão. O mentor de Calvi, Michele Sindona, também morreria envenenado na prisão.

Em 1998, a justiça italiana determinou a exumação do corpo de Calvi. A nova análise forense confirmou que o banqueiro foi assassinado. As lesões no pescoço não eram compatíveis com enforcamento. Calvi havia sido estrangulado antes de ser pendurado no andaime.

O caso foi reaberto pela polícia italiana, mas as investigações não foram conclusivas. Um dos principais obstáculos para a resolução do mistério é o enorme emaranhado de suspeitos. Não eram poucas as pessoas interessadas em se livrar de Roberto Calvi.

Entre os principais suspeitos do crime estavam os chefões da “Cosa Nostra”. A máfia siciliana havia investido enormes somas de dinheiro no Banco Ambrosiano e amargou prejuízos bilionários após a falência da instituição. O mafioso Giuseppe Calò foi formalmente acusado pelo assassinato de Calvi em 2005, ao lado de Flavio Carboni, Manuela Kleinszig, Ernesto Diotallevi e Silvano Vittor. No entanto, todos os cinco acusados foram absolvidos por falta de provas.

Licio Gelli e outros membros da rede maçônica P2 também foram apontados como possíveis mandantes. O assassinato de Calvi, nesse caso, serviria como “queima de arquivo”, a fim de proteger os segredos de figuras poderosas da elite italiana.

Há ainda suspeitas envolvendo os serviços secretos da Itália e até nomes ligados ao Vaticano, que poderiam estar receosos de que Calvi expusesse seus crimes ou tentasse chantageá-los. Passados 44 anos do assassinato, a morte do “banqueiro de Deus” permanece um mistério.