Terça-feira, 8 de setembro de 2026
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Há 116 anos, em 1º de setembro de 1910, um grupo de operários de São Paulo fundava o Sport Club Corinthians Paulista. Rompendo com o caráter elitista que predominava entre os primeiros clubes de futebol do país, o “time do povo” se tornou uma das principais expressões culturais das classes populares e amealhou uma das maiores e mais engajadas torcidas do Brasil.

Embora o futebol angariasse crescente popularidade em São Paulo desde o fim do século 19, as entidades desportivas e os grandes clubes da cidade conservaram sua natureza aristocrática até as primeiras décadas do século 20. Fundada em 1901, a Liga Paulista de Futebol (LPF) congregava apenas clubes de origem burguesa, tais como o Club Athlético Paulistano, o São Paulo Athletic Club e o Sport Club Germânia.

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As agremiações oficiais tinham elencos compostos quase exclusivamente por jovens de classes abastadas e os times populares eram propositalmente excluídos da LPF, sendo relegados ao chamado “futebol de várzea”.

O ressentimento em relação às barreiras de classe impostas pelos clubes aristocráticos explica em parte a empolgação popular com as vitórias categóricas do esquadrão londrino do Corinthian Football Club sobre os times da cidade.

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Nos amistosos disputados em agosto de 1910 no Velódromo Paulistano, o clube britânico venceu a Atlética das Palmeiras por 6 a 0, o Paulistano por 8 a 1 e o São Paulo AC por 9 a 2. A vitória dos ingleses se tornou um dos assuntos mais comentados pelos operários do Bom Retiro, bairro paulistano que concentrava imigrantes e trabalhadores fabris.

Na noite de 1º de setembro de 1910, um grupo de cinco operários do Bom Retiro (Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correa e Carlos Silva) se reuniu nos arredores da barbearia de Salvador Battaglia com o objetivo de fundar um novo time de futebol, de caráter popular.

A iniciativa recebeu o apoio de outras oito pessoas, que colaboraram com a empreitada como sócios-fundadores, cada um doando 20 mil réis. O irmão do dono da barbearia, Miguel Battaglia, foi indicado para o cargo de diretor. Salvador Lapomo e Alexandre Magnani foram nomeados primeiro e segundo vice-presidentes, Antônio Alves Nunes assumiu como secretário, João da Silva como tesoureiro e Carlos da Silva como procurador.

Equipe do Corinthians que conquistou o Campeonato Paulista de 1914, primeiro título do clube. Arquivo Corinthians. Via Lance

Equipe do Corinthians que conquistou o Campeonato Paulista de 1914, primeiro título do clube. Arquivo Corinthians
Via Lance

Em homenagem ao feito dos ingleses, a agremiação recebeu o nome de Sport Club Corinthians Paulista. Miguel Battaglia vaticinou: “o Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”. Com os recursos arrecadados, os sócios compraram a primeira bola, os primeiros uniformes e alugaram um terreno na Rua José Paulino onde o time começou a treinar.

A primeira partida oficial do time foi disputada em 10 de setembro de 1910, contra o União Lapa Futebol Clube, então uma das mais respeitadas equipes de futebol varzeano da cidade. A partida terminou com a vitória dos adversários por um a zero. Quatro dias depois o Corinthians venceu o segundo amistoso, disputado contra o Estrela Polar, por 2 a 0.

Nos dois anos seguintes, o time se consolidou como uma potência do futebol de várzea, recebendo o epíteto de “galo brigador do Bom Retiro” e frequentes elogios por sua raça e persistência. Sua fama logo ultrapassou os limites da cidade e as partidas do time atraíam grandes públicos, malgrado o fato de que o clube permanecia excluído dos calendários desportivos oficiais.

Foi justamente a capacidade de mobilização popular do clube, sem paralelo entre os times burgueses da cidade, que chamou a atenção da LPF. Financiada pela cobrança de ingressos, a liga aventou a possibilidade de aceitar a adesão de times de várzea como meio de incrementar sua receita.

A proposta de ingresso de clubes populares provocou um racha na LPF. Além de se opor à medida, o Club Athlético Paulistano passou a exigir da liga o pagamento de valor robusto de aluguel pelo uso de seu velódromo, palco das competições da entidade. A LPF, entretanto, contornou o problema alugando o Parque Antárctica, de propriedade do Germânia, por um valor mais acessível.

A medida serviu de estopim para que o Club Athlético Paulistano rompesse com a liga e criasse uma entidade paralela — a Associação Paulista de Sports Athléticos. A nova organização instituiu então o seu próprio campeonato, ao qual aderiram agremiações como a Atlética das Palmeiras (que não estava relacionada à atual Sociedade Esportiva Palmeiras) e o Mackenzie. A cisão deu aos clubes de origem popular a oportunidade de disputar as competições da LPF.

O Corinthians venceu a seletiva contra o Minas Gerais e o FC São Paulo e foi aprovado pela comissão da liga, que avaliou se o clube tinha “um nível condizente de bons modos sociais”. Obteve, assim, o direito de disputar o Campeonato Paulista de 1913.

O clube não teve um desempenho notável durante a disputa, terminando o campeonato em quarto lugar. Não obstante, o Corinthians brilharia na temporada seguinte, sagrando-se vencedor do Campeonato Paulista de 1914 de forma invicta, obtendo 10 vitórias em 10 partidas e marcando 37 gols — doze feitos por Neco, artilheiro da competição. Além de Neco, o elenco que conquistou o primeiro título do Corinthians incluía Sebastião, Fúlvio, Casimiro, Police, Bianco, César, Américo, Peres, Amílcar e Aparício, entre outros.

Nas décadas seguintes, o Corinthians se firmaria como uma das equipes mais importantes e populares do Brasil, com uma torcida estimada em até 33 milhões de pessoas. O time acumula dois Mundiais de Clubes da FIFA, uma Copa Libertadores da América, uma Recopa Sul-Americana, sete Campeonatos Brasileiros, quatro Copas do Brasil, duas Supercopas, cinco Torneios Rio-São Paulo e 31 Campeonatos Paulistas.

E a despeito da elitização e da intensificação do caráter comercial do futebol nas últimas décadas, o Corinthians protagonizou episódios únicos na história do esporte brasileiro que demonstram cabalmente a sua capacidade de mobilização popular — tais como a “Invasão Corintiana” do Maracanã em 1976 e, sobretudo, a “Democracia Corintiana”, um dos exemplos mais representativos de movimentos políticos-desportivos e da instrumentalização da paixão popular na luta contra a ditadura militar.

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