Terça-feira, 23 de junho de 2026
APOIE
Menu

Há 71 anos, em 16 de junho de 1955, a cidade de Buenos Aires servia de palco a um dos episódios mais sombrios da história da Argentina: o Bombardeio da Plaza de Mayo.

Em um esforço dos setores militares antigovernistas para assassinar o presidente Juan Domingo Perón, pilotos da Armada Argentina lançaram várias bombas sobre o centro de Buenos Aires, atingindo uma multidão de civis que protestavam pacificamente contra os intentos golpistas.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

O ataque matou mais de 350 pessoas, incluindo 40 crianças, e deixou cerca de 1.200 feridos. Foi o maior bombardeio aéreo já ocorrido na Argentina continental e um prelúdio da onda de terrorismo de Estado que seria implementado posteriormente pela ditadura militar.

A ascensão de Perón

Oficial de carreira, Juan Domingo Perón ascendeu politicamente após sua participação na chamada “Revolução de 43”, movimento político-militar que encerrou o regime autoritário e corrupto da “Década Infame”.

Mais lidas

Apoiado pela classe trabalhadora em função da abrangente legislação de direitos trabalhistas que implementara durante sua gestão no Ministério da Guerra e do Trabalho, Perón foi eleito presidente da Argentina em 1946.

O governo de Perón foi marcado pela aplicação da doutrina do justicialismo, aliando projetos de reformas e justiça social ao dirigismo econômico e à neutralidade em política externa — uma plataforma que o próprio Perón classificaria como uma “terceira via entre o capitalismo e o socialismo”.

Além das medidas de proteção dos operários, sua gestão se destacou pelo trabalho social desenvolvido por sua esposa, a primeira-dama Eva Perón, a Evita, granjeando-lhe enorme popularidade entre os chamados “descamisados” — as classes baixas e os trabalhadores precarizados.

A conspiração golpista

A partir da reeleição em 1951 e da morte de Evita em 1952, Perón moderou significativamente suas ações trabalhistas e sociais, priorizando as demandas dos setores conservadores e os interesses dos empresários argentinos. A inflexão, contudo, não bastaria para debelar o antiperonismo hidrofóbico da burguesia e a aversão nutrida por um grande contingente das Forças Armadas.

Desde meados dos anos 40, o diplomata norte-americano Spruille Braden agia para articular e unificar os setores golpistas. Medidas como a expropriação de latifúndios, a nacionalização de setores da economia e a ampliação dos direitos trabalhistas causaram enorme rancor na elite e o receio de perda de privilégios sociais e econômicos em amplas camadas da classe média.

Essa oposição raivosa logo se manifestou na criação de um estado de conspiração permanente, tendo os militares como ponta de lança. Em 1951, ocorreu uma primeira tentativa de golpe por tropas do exército que se recusavam a aceitar a reeleição de Perón.

Dois anos depois, um comando militar antiperonista realizou um atentado terrorista na Plaza de Mayo, atacando uma manifestação de trabalhadores organizada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país. O atentado deixou 6 mortos e 95 feridos.

As tensões entre o governo de Perón e a oposição atingiram o ápice em 1955, num contexto de forte agitação social, com a ocorrência de grandes manifestações pró e contra o governo, cada vez mais tumultuadas. A Igreja Católica juntou-se à oposição, conclamando ativamente os fiéis a se juntarem às mobilizações antigovernistas, que já contavam com o apoio da imprensa e da maior parte do empresariado argentino.

A oposição passou a realizar ataques violentos às organizações vistas como governistas e setores antiperonistas dos militares iniciaram um enfrentamento aberto contra as forças legalistas. A sede da Confederação Geral do Trabalho foi metralhada e militares sublevados atacaram uma coluna de soldados do Regimento de Infantaria de La Tablada.

O ataque à Casa Rosada

Em 16 de junho de 1955, pilotos da Armada Argentina puseram em prática um plano para assassinar Perón e seus ministros. Os golpistas apoderaram-se de 30 aeronaves estacionadas na Base Aérea de Morón e decolaram rumo à Casa Rosada, sede do governo argentino.

Enquanto os pilotos sobrevoavam o centro de Buenos Aires, um grupo com cerca de 700 militares sublevados do 4º Batalhão de Infantaria da Marinha iniciou uma incursão terrestre para tomar a Casa Rosada. Os militares se dividiram em duas colunas. A primeira cercou a fachada norte do palácio e a segunda se posicionou junto ao estacionamento do Automóvil Club Argentino, a cerca de 100 metros da parte posterior do edifício.

O ataque dos fuzileiros navais foi repelido por tropas legalistas do Exército Argentino e pelo Regimento de Granadeiros Montados. O fogo cerrado das metralhadoras Browning M2, posicionadas nos altos da Casa Rosada, conseguiu impedir que os golpistas invadissem o palácio. Forçados ao recuo, os rebeldes se refugiaram no Ministério da Marinha.

Embora estivessem inicialmente em desvantagem numérica, os militares legalistas receberam o valoroso auxílio dos apoiadores civis de Perón. Combates intensos se espalharam pelas ruas de Buenos Aires, causando pânico na população. Pegos de surpresa no meio do fogo cruzado, populares corriam desesperadamente para encontrar um abrigo contra os tiroteios, ataques de morteiros e rajadas de metralhadoras.

A Plaza de Mayo, destruída pelos bombardeios de 16 de junho de 1955.
Via Wikimedia Commons

Os bombardeios na Plaza de Mayo

À medida que a notícia sobre a tentativa de golpe se espalhava, mais apoiadores de Perón se dirigiam à Casa Rosada. O fluxo se intensificou enormemente no período da tarde, após o líder sindical Héctor Hugo Di Pietro, chefe interino da CGT, fazer um pronunciamento em rede nacional conclamando os trabalhadores a defenderem o governo constitucional.

As centrais sindicais responderam ao chamado e iniciaram a mobilização imediata dos operários nas fábricas e subúrbios de Buenos Aires. Em poucas horas, a Plaza de Mayo estava tomada por manifestantes que expressavam apoio ao governo de Perón e repúdio à tentativa de golpe.

A mobilização popular não bastou para dissuadir o levante golpista. Os pilotos da Armada Argentina conduziram sucessivas ondas de ataques aéreos contra Buenos Aires, despejando mais de 100 bombas sobre a Casa Rosada e a multidão concentrada na Plaza de Mayo.

Os militares utilizaram cerca de 14 toneladas de explosivos durante a ofensiva aérea. Além do palácio presidencial, eles atacaram as sedes dos ministérios, prédios da administração pública e o Departamento Central de Polícia.

A Casa Rosada foi atingida por 29 bombas. O ataque devastou a ala sul do edifício, matando vários oficiais legalistas. Perón sobreviveu ao bombardeio, pois não estava no edifício. Avisado sobre o levante golpista por seu Ministro da Guerra, Franklin Lucero, o presidente havia se abrigado em um bunker no subsolo do Edifício Libertador.

Embora os edifícios do governo fossem os alvos principais, as bombas atingiram ruas, comércios, veículos e áreas onde circulavam trabalhadores, funcionários públicos e transeuntes. Um dos primeiros bombardeios atingiu um trólebus lotado de estudantes que voltavam da escola, matando mais de 40 crianças.

Consequências

Não se sabe o número exato de pessoas assassinadas durante o ataque. As autoridades governamentais informaram que ao menos 308 civis foram mortos, mas essa cifra é subdimensionada, já que não inclui as vítimas não identificadas. As pesquisas efetuadas posteriormente relatam mais de 350 vítimas. Cerca de 1.200 pessoas ficaram feridas e mutiladas.

Apesar da violência do ataque, civis peronistas seguiram lutando contra os golpistas ao lado dos militares leais ao governo. Aviões das tropas legalistas interceptaram as aeronaves utilizadas no ataque, forçando o recuo dos golpistas. Ao longo do dia, esquadrões do exército conseguiram sitiar as tropas sublevadas no solo, forçando-as à rendição.

Enfurecidas após o ataque, multidões peronistas saíram às ruas de Buenos Aires, exigindo punição para os golpistas e justiça para as vítimas do bombardeio. Em represália ao apoio dos líderes católicos à oposição, os peronistas incendiaram 10 igrejas e atacaram o escritório da Cúria Metropolitana. À noite, Perón discursou em rede nacional, pedindo aos seus apoiadores que mantivessem a calma, confiassem na justiça e não buscassem retaliações.

Os principais líderes do golpe, Samuel Toranzo Calderón, Benjamín Gargiulo e Aníbal Olivieri, foram presos e informados de que seriam levados à corte marcial. Gargiulo cometeu suicídio na prisão, mas Calderón e Olivieri seriam reabilitados pouco tempo depois.

Embora tenha fracassado, a tentativa de golpe evidenciou a fragilidade do governo de Perón, aprofundando as divisões nas Forças Armadas e galvanizando a coalizão antiperonista.

A conspiração culminaria em uma nova insurreição golpista das Forças Armadas, a chamada “Revolução Libertadora”, que obrigou Perón a renunciar em setembro de 1955. O presidente permaneceria exilado por 18 anos. O Partido Justicialista foi banido e a militância peronista foi perseguida, proscrita e criminalizada.