Há 63 anos, em 15 de setembro de 1963, um atentado a bomba destruía parte da Igreja Batista da Rua 16, em Birmingham, Alabama, matando quatro meninas negras, com idades entre 11 e 14 anos (Addie Mae Collins, Cynthia Wesley, Carole Robertson e Carol Denise McNair), e ferindo outras 22 pessoas.
O ataque foi perpetrado por membros da Ku Klux Klan, organização supremacista branca responsável por diversos ataques e atos de terrorismo contra a população negra dos Estados Unidos. A explosão ocorreu em meio à crescente mobilização dos afro-americanos pelo fim do regime segregacionista.
Os agentes do FBI rapidamente identificaram os membros da Ku Klux Klan envolvidos no atentado. No entanto, o diretor da agência, John Edgar Hoover, decidido a proteger os assassinos, obstruiu as investigações e impediu o repasse de provas para os promotores, permitindo que o caso fosse arquivado sem a apresentação de quaisquer denúncias.
Nos Estados Unidos, nenhum local resistiu mais à luta pelo fim da segregação racial do que o Alabama. Conhecido pelo seu longo histórico de linchamentos, ataques e chacinas contra afro-americanos, o estado manteve a maior parte do sistema Jim Crow intocado até meados do século 20. Escolas, ônibus, restaurantes, hospitais, parques, banheiros e até cemitérios eram separados por cor.
A segregação era reforçada por mecanismos destinados a restringir o direito de voto dos afro-americanos, como testes de alfabetização, taxas eleitorais abusivas e registros controlados por autoridades locais. A violência era outro instrumento utilizado para preservar a ordem supremacista. Milícias brancas e organizações como a Ku Klux Klan (KKK) atuavam com total impunidade, recorrendo a ameaças, linchamentos, incêndios criminosos, atentados a bomba e assassinatos contra líderes negros.
A violência racial era particularmente notável na cidade de Birmingham, o principal centro industrial do Alabama. O pastor Martin Luther King chegou a descrever Birmingham como “a cidade mais segregada dos Estados Unidos” e “o núcleo mais duro da resistência à integração”. Entre o fim da década de 1940 e o início dos anos 1960, a cidade havia testemunhado dezenas de atentados terroristas cometidos contra as residências de líderes negros e igrejas frequentadas pela comunidade afro-americana.
O bairro de Smithfield, que abrigava muitas famílias negras, foi alvo de tantos ataques que passou a ser conhecido como “Dynamite Hill”, a “Colina da Dinamite”. E os atentados eram tão comuns que renderam à cidade o apelido sarcástico de “Bombingham”.
Os responsáveis pelos ataques nunca eram responsabilizados. A polícia local, comandada pelo comissário Eugene “Bull” Connor, era abertamente hostil ao movimento dos direitos civis e mantinha relações estreitas, ou até de colaboração direta, com as milícias supremacistas e com a Ku Klux Klan. Birmingham abrigava um dos grupos mais violentos da KKK, conhecido informalmente como “Cahaba Boys”, responsável por uma série de assassinatos.
Reagindo à violência racial, a comunidade negra de Birmingham começou a se organizar politicamente para reivindicar o fim do regime segregacionista. Sob o comando de Martin Luther King e da Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC), a comunidade negra da cidade aderiu ao chamado “Projeto C” (de “confrontação”), uma campanha de desobediência civil que incluía passeatas, manifestações, boicotes e ocupações em lanchonetes e comércios segregados.
Em maio de 1963, centenas de estudantes negros ligados à SCLC saíram em marcha pelas ruas do centro de Birmingham na chamada “Cruzada das Crianças”, a fim de exigir o fim da segregação. A polícia reagiu com extrema brutalidade, prendendo mais de 600 manifestantes, espancando e atacando as crianças com cães e jatos d’água de alta pressão.
As imagens de crianças negras sendo atacadas pelos policiais correram o mundo e chocaram parte da opinião pública, pressionando a administração do presidente John Kennedy. George Wallace, o governador do Alabama, infame por seu discurso de posse em que defendeu “segregação hoje, segregação amanhã, segregação para sempre”, tentou neutralizar a intervenção federal. Em junho de 1963, ele tentaria barrar pessoalmente a entrada de dois estudantes negros na Universidade do Alabama, sendo forçado a retroceder pela Guarda Nacional.
As manifestações e ações de resistência negra irritaram os grupos supremacistas, que intensificaram a violência. Em 11 de maio de 1963, uma bomba destruiu o Hotel A.G. Gaston, onde Martin Luther King estava hospedado. Outra bomba destruiu a casa do irmão do pastor, Alfred Daniel King. A partir de setembro, novos bombardeios atingiram as residências da comunidade negra.
Em 9 de setembro de 1963, John Kennedy ordenou a federalização da Guarda Nacional do Alabama, impedindo que o governador George Wallace seguisse utilizando-a para impedir a entrada de crianças negras nas escolas do estado. Instituído por decisão da Justiça, o fim da segregação racial nas escolas do Alabama indignou os supremacistas.
Cinco dias depois que as crianças negras começaram a frequentar os colégios, a Igreja Batista da Rua 16 se tornaria alvo de outro atentado. Erguida e frequentada pela comunidade negra de Birmingham, a igreja havia se tornado um símbolo da luta antissegregacionista e um quartel-general efetivo das ações planejadas pelos dirigentes locais da SCLC. Era no templo que ocorriam as reuniões estratégicas e era de lá que partiam as caminhadas rumo ao centro da cidade.
Na madrugada do dia 14 para 15 de setembro de 1963, Robert Edward Chambliss (conhecido como “Dynamite Bob”, por sua participação em outros atentados), Thomas Edwin Blanton Junior, Bobby Frank Cherry e Herman Frank Cash esconderam uma caixa com ao menos uma dúzia de cartuchos de dinamite, equipados com um temporizador, sob a escadaria lateral da igreja. Os terroristas eram todos membros da Ku Klux Klan e integravam a milícia dos “Cahaba Boys”.
A bomba foi programada para explodir no início do culto dominical, quando o templo estaria cheio de fiéis, sobretudo crianças. Por volta das 10h da manhã do dia 15 de setembro, o telefone da escola dominical tocou. Carolyn Maull, uma menina de 15 anos, atendeu. Do outro lado, uma voz masculina disse a frase “três minutos” e desligou.
Sem compreender o significado da mensagem, Carolyn prosseguiu com seus afazeres. Segundos depois, a bomba detonou. A explosão foi ouvida a quilômetros de distância. A detonação destruiu uma parede inteira do prédio, criou uma cratera no hall, arrancou a escada de concreto, estilhaçou os vitrais e danificou até os automóveis no estacionamento.
Centenas de vizinhos correram até a igreja para ajudar a resgatar os feridos. Sob os escombros do banheiro feminino, os bombeiros e voluntários encontraram os corpos sem vida de quatro meninas, irreconhecíveis pela violência do impacto.
Carol Denise McNair, de 11 anos, era a vítima mais jovem. Ela frequentava a Escola Elementar da Central Street e adorava participar de peças de teatro e recitais. Cynthia Wesley, 14 anos, destacava-se em matemática e tocava piano e clarinete na banda da escola. Sonhava em ser professora. Carole Robertson, 14 anos, era uma aluna aplicada. Era escoteira, cantava no coral no colégio, participava do clube de ciências e queria ser aeromoça. Addie Mae Collins, também de 14 anos, gostava de desenhar e de jogar softball. Costumava vender aventais para ajudar a mãe a complementar a renda.
Ao menos 22 pessoas ficaram feridas no atentado, incluindo Sarah Collins, de 12 anos. Irmã mais nova de Addie Mae, ela estava no mesmo recinto onde a bomba detonou. Sarah sobreviveu à explosão, mas acabou perdendo o olho direito.
A notícia sobre o atentado se espalhou rapidamente, enfurecendo a comunidade negra de Birmingham. Manifestantes imediatamente saíram às ruas da cidade e foram confrontados pela polícia. Mais duas vidas seriam ceifadas naquele mesmo dia. Johnny Robinson, um jovem de 16 anos, foi morto a tiros após supostamente ignorar uma ordem de parada dos policiais. Virgil Ware, de 13 anos, foi assassinado por dois adolescentes brancos que retornavam de um comício supremacista.

O atentado teve repercussão internacional e causou enorme comoção. O funeral conjunto de Addie, Cynthia e Denise reuniu mais de 8.000 pessoas, incluindo líderes religiosos brancos e negros. A família de Carole Robertson preferiu um sepultamento separado.
Martin Luther King participou da cerimônia e responsabilizou o governador do Alabama pela violência. “O sangue de nossas crianças está em suas mãos”, escreveu o pastor em um telegrama enviado a George Wallace. Nenhuma autoridade de Birmingham ou do Alabama compareceu ao velório.
Apesar da indignação que o atentado provocou, a Justiça norte-americana demorou décadas para punir os responsáveis. O FBI enviou agentes a Birmingham logo após a explosão. Em 1965, quatro suspeitos ligados à Ku Klux Klan já tinham sido identificados — Robert Chambliss, Thomas Blanton Junior, Bobby Frank Cherry e Herman Frank Cash.
As evidências reunidas pelos agentes do FBI, no entanto, não chegaram aos tribunais. Isso porque o diretor da agência, John Edgar Hoover, interveio pessoalmente para impedir o compartilhamento das provas com os promotores estaduais, alegando falsamente que as testemunhas se recusavam a depor publicamente e que gravações obtidas por métodos de vigilância duvidosos não resistiriam ao julgamento. Em 1968, o FBI encerrou o inquérito sem oferecer quaisquer denúncias, mesmo sabendo quem eram os autores do atentado.
Hoover era conhecido por sua postura racista e pela hostilidade extrema contra o movimento dos direitos civis. Ele enxergava a resistência negra com extrema desconfiança, rotulando-a como uma ameaça subversiva. Sob seu comando, o FBI submeteu líderes negros a perseguições, vigilância intensa e campanhas de desinformação. Hoover também coordenaria a campanha de desarticulação contra os Panteras Negras e o infame COINTELPRO, um programa de contrainteligência que visava neutralizar as organizações políticas do movimento negro.
O caso somente foi reaberto em 1971, após vários anos de pressão exercida por militantes e jornalistas independentes. As investigações foram retomadas por ordem de Bill Baxley, o procurador-geral do Alabama. Impedido de acessar os arquivos originais reunidos pelo FBI, Baxley teve que recomeçar a investigação do zero, o que permitiu que a maioria dos acusados se safassem.
Em 1977, Robert Edward Chambliss, o “Dynamite Bob”, foi finalmente julgado e condenado à prisão perpétua pelo assassinato de Denise McNair. Ele viria a morrer na cadeia em 1985, sem jamais revelar o nome de seus cúmplices. Herman Cash faleceu em 1994 sem nunca ter sido formalmente acusado.
Novos avanços somente foram registrados na década de 1990, quando o FBI finalmente decidiu reabrir sua investigação, recuperando gravações, depoimentos e evidências antigas. Em 2001, quase 40 anos depois do crime, Thomas Blanton Junior foi condenado a quatro sentenças de prisão perpétua. No ano seguinte, o mesmo destino coube a Bobby Frank Cherry, então com 71 anos. Cherry morreu na prisão em 2004.
O atentado à Igreja Batista da Rua 16 se tornou um ponto de inflexão na história do movimento negro norte-americano. A brutalidade do crime chocou setores da opinião pública que até então se mantinham indiferentes ou hostis às reivindicações por igualdade racial, ajudando a consolidar o apoio político necessário à aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964, que aboliu formalmente a segregação em espaços públicos nos Estados Unidos.
Em 2013, no quinquagésimo aniversário do atentado, as quatro meninas foram postumamente agraciadas com a Medalha de Ouro do Congresso, uma das mais altas honrarias civis do país. O caso também ganhou destaque internacional por meio do documentário “Quatro Meninas – Uma História Real”, dirigido por Spike Lee e indicado ao Oscar de Melhor Documentário de 1998.