Sábado, 7 de março de 2026
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Há 107 anos, em 2 de março de 1919, era fundada em Moscou a Internacional Comunista — também chamada “Comintern” ou “Terceira Internacional”.

Criada por iniciativa de Lenin e do Partido Bolchevique, a Internacional era um órgão de concertação política reunindo agremiações revolucionárias de todo o mundo.

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Seu objetivo estatutário era coordenar a luta pela superação do capitalismo e pela abolição das classes sociais, impulsionando uma revolução socialista mundial por todos os meios disponíveis, incluindo a sublevação armada contra a burguesia.

A AIT e a Internacional Socialista

A Internacional Comunista foi precedida por duas importantes associações internacionais que visavam organizar a luta operária. A primeira foi a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), dita “Primeira Internacional”, agremiação pioneira do movimento operário internacional, fundada em Londres em 1864.

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A AIT surgiu em um contexto de expansão do capitalismo industrial e de avanço das lutas operárias. A organização reunia diversos movimentos dos Estados Unidos e da Europa — agregando anarquistas, comunistas e socialistas das mais diversas correntes. Entre seus participantes mais influentes estavam Karl Marx, responsável por dirigir os estatutos gerais da organização, e Mikhail Bakunin.

A Primeira Internacional coordenou greves e mobilizações históricas e se dedicou a fortalecer a solidariedade internacional da classe trabalhadora. Por meio de sua atuação, reivindicações como o direito ao descanso semanal remunerado e a jornada de trabalho de oito horas tornaram-se bandeiras defendidas pela classe operária em todo o mundo.

A Primeira Internacional entrou em crise na década de 1870, especialmente após a derrota da Comuna de Paris e o acirramento das disputas internas entre comunistas e anarquistas. Em 1876, a organização foi formalmente dissolvida.

Em 1889, durante o Congresso Internacional de Paris, Friedrich Engels promoveu a criação da Internacional Socialista, ou “Segunda Internacional”, reunindo novamente os partidos socialistas, socialdemocratas e trabalhistas.

A Segunda Internacional articulou uma estrutura mais voltada para os partidos de massas e deu maior atenção aos debates relacionados á atuação parlamentar, refletindo o crescimento do socialismo organizado na Europa.

A Internacional Socialista herdou as lutas da AIT, nomeadamente a campanha pela carga horária de 8 horas, e assumiu a defesa de novas bandeiras, como a instituição do 1º de Maio como Dia Internacional dos Trabalhadores.

O apoio dos partidos socialdemocratas europeus ao envolvimento de seus governos burgueses na Primeira Guerra Mundial — vista pelas organizações revolucionárias como uma disputa imperialista de pilhagem — levou à crise interna da organização, que foi formalmente dissolvida em 1916.

O Congresso Mundial da Internacional Comunista

O triunfo dos bolcheviques na Revolução de Outubro de 1917 e a subsequente instalação do governo soviético na Rússia reavivou a esperança da esquerda mundial em organizar uma alternativa revolucionária para a tomada do poder.

O colapso econômico e político da Europa durante a Primeira Guerra Mundial também fortaleceu os sentimentos revolucionários e insuflou a radicalização dos partidos progressistas. Lenin, entretanto, acreditava que revoluções isoladas nos países europeus seriam facilmente debeladas pelas forças militares comandadas pela burguesia.

A alternativa seria então coordenar uma revolução mundial, em uma escala suficientemente abrangente para subjugar a capacidade de reação da plutocracia. Assim, os bolcheviques decidiram fundar a Internacional Comunista, ou “Terceira Internacional”, para orquestrar um movimento revolucionário global.

O Primeiro Congresso Mundial da Internacional Comunista ocorreu em Moscou entre os dias 2 e 6 de março de 1919. O evento ocorreu em meio à Guerra Civil Russa — disputa travada entre os bolcheviques e as forças contrarrevolucionárias do Exército Branco, que tentavam restaurar o regime czarista com apoio de tropas estrangeiras.

Além do conflito civil, a Rússia também estava submetida a sanções e bloqueios econômicos impostos pelas nações europeias. Dessa forma, o congresso teve uma presença relativamente modesta — 52 delegados de 34 partidos da Europa, América do Norte e Ásia.

Participaram do evento nomes como Leon Trotsky e Nikolai Bukharin. Grigori Zinoviev foi incumbido da tarefa de dirigir a Internacional Comunista. Angélica Balabanoff, Victor Serge e Victor Ossipovitch Mazin foram apontados como coordenadores.

O congresso discutiria a difusão do sistema de governança baseado nos conselhos de trabalhadores (ou sovietes) e a estrutura da ditadura do proletariado.

Delegados no Primeiro Congresso da Internacional Comunista, em 1919
wikipedia

A Terceira Internacional

A Internacional Comunista organizaria ao todo sete congressos mundiais. Durante o governo de Lenin, os congressos eram realizados anualmente e tiveram grande importância no desenho da estrutura organizacional da União Soviética.

A organização lançou a revista “Internacional Comunista”, que se tornaria um dos mais importantes veículos de difusão do pensamento revolucionário na primeira metade do século 20.

Entre 1919 e 1923, a Internacional Comunista realizou cinco congressos, abordando temas como o combate ao reformismo e ao sectarismo, a questão da “frente única”, a incorporação das mulheres e dos negros ao movimento revolucionário, etc.

Também ajudou a consolidar o método decisório baseado no princípio do centralismo democrático, sintetizado sob o lema “liberdade de discussão, unidade de ação” — isso é, as medidas seriam discutidas democraticamente, mas defendidas de forma disciplinada e unificada uma vez que houvesse uma decisão.

Esse primeiro período seria marcado pela expansão da revolução soviética para as repúblicas vizinhas e pelo apoio dado às sublevações socialistas europeias, nomeadamente na Hungria, na Itália e na Alemanha.

Após a morte de Lenin em 1924, Josef Stalin e Nikolai Bukharin implementaram a política de Estado denominada “Socialismo em um Único País”, que priorizava o fortalecimento do socialismo na União Soviética antes da coordenação de uma revolução global.

Com isso, a Internacional Comunista mudaria o seu enfoque, buscando flexibilizar a atuação dos partidos comunistas, adaptando as pautas concretas ao contexto político de cada país. Bukharin passaria a dirigir a organização.

Stalin organizou dois congressos mundiais da Internacional Comunista. O sexto congresso, ocorrido em 1928, aprovou a palavra de ordem “classe contra classe”, reconhecendo como inconciliáveis os interesses de comunistas e socialdemocratas e ressaltando a necessidade de preservar o marxismo da “vulgarização” alegadamente pretendida por parte das organizações trabalhistas.

No ano seguinte, Georgi Dimitrov substituiu Bukharin na direção da Internacional. O sétimo e último congresso foi realizado em 1935, no contexto de ascensão e consolidação do nazifascismo na Europa. O congresso retrocedeu no apoio à tese de que a socialdemocracia seria a “ala moderada do fascismo”. Em seu lugar, a Comintern aprovou a política de Frentes Populares, buscando alianças com os sociais-democratas para barrar o avanço do fascismo e manifestando apoio aos movimentos populares asiáticos — sobretudo na Índia e na China.

A Internacional Comunista foi dissolvida em 1943, em meio à Segunda Guerra Mundial, sob a justificativa de dar mais independência aos partidos comunistas e evitar atritos com os aliados ocidentais.

A organização foi sucedida pelo Escritório de Informação dos Partidos Comunistas e Operários, o Cominform, reunindo o Partido Comunista da União Soviética e outros 12 partidos, mas não voltaria a exercer o papel de centro orientador do movimento operário internacional. A “Revista Marxista Mundial”, periódico editado pelo Partido Comunista soviético, seguiria como uma importante referência para o movimento comunista.

Diversas organizações também seriam fundadas a partir da Internacional Comunista, incluindo a Internacional Sindical Vermelha (Profintern), o Socorro Vermelho Internacional, a Internacional Camponesa (Krestintern) e a Liga Contra o Imperialismo, entre outras.