Transformando a dor em arte: trajetória de Frida Kahlo
Referência da arte latino-americana, pintora mexicana foi do Partido Comunista do país e fez de sua obra uma expressão de vivências pessoais, convicções políticas e identidade cultural
Há 119 anos, em 6 de julho de 1907, nascia a pintora mexicana Frida Kahlo. Considerada uma das maiores artistas do século 20, Frida se destacou por seu estilo original, mesclando elementos da cultura popular, do surrealismo, da arte colonial e das vanguardas artísticas latino-americanas.
Suas pinturas evocavam cenas do cotidianos, paisagens fantásticas, temas históricos e, sobretudo, referências autobiográficas. Acometida por lesões permanentes decorrentes de um acidente sofrido na juventude, Frida buscou transformar suas dores físicas e emocionais em um tema central de sua produção artística.
A pintora também se destacou por sua atuação política. Frida foi militante do Partido Comunista Mexicano, mantendo forte compromisso com a causa revolucionária, com a luta anti-imperialista e com as reivindicações populares. Foi também esposa do muralista Diego Rivera, com quem manteve um relacionamento conturbado, pontuado por paixões, traições, términos e reconciliações.
Os infortúnios na juventude
Frida nasceu em Coyoacán, hoje um distrito da Cidade do México, como uma das quatro filhas do imigrante alemão Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón. Aos 13 anos, Frida contraiu poliomielite. A doença — primeira de uma série de infortúnios que enfrentaria no decorrer de sua vida — causou uma lesão permanente em sua perna direita.
Em 1922, Frida ingressou na Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México, objetivando ingressar na Faculdade de Medicina. Frequentou aulas de desenho e modelagem e estudou a técnica da gravura no ateliê de Fernando Fernandez. Durante seus estudos, teve contato com as teorias socialistas e juntou-se ao grupo de esquerda “Los Cachuchas”. Posteriormente, ingressou na Liga dos Jovens Comunistas.
Em 1925, quando tinha 18 anos, Frida sofreu um grave acidente, após o ônibus em que viajava se chocar com um trem. O para-choque do veículo perfurou suas costas e fraturou sua pélvis. A jovem passou meses internada e totalmente imobilizada no hospital, sendo submetida e inúmeras cirurgias e procedimentos de reconstrução.
O acidente deixou com sequelas profundas. Frida passou a utilizar coletes ortopédicos que a acompanhariam pelo resto da vida e sua mobilidade foi severamente comprometida, forçando-a a ficar acamada por longos períodos. Crises de dores lancinantes tornaram-se frequentes e Frida teve de abandonar os estudos. Durante sua recuperação, dedicou-se à pintura, utilizando um cavalete adaptado à sua cama.
Carreira artística, Diego Rivera e Trotsky
Em 1928, Frida se filiou ao Partido Comunista Mexicano (PCM), agremiação onde militaria até o fim de sua vida. Durante os eventos organizados pelo partido, conheceu o muralista Diego Rivera, com quem se envolveu afetivamente. Os dois se casariam já no ano seguinte, dando início a um longo e conturbado relacionamento, marcado por brigas constantes e uma profusão de casos extraconjugais.
Rivera exerceu grande influência sobre a arte da esposa, inspirando o emprego de amplas zonas de cor e a composição de influxo muralista. Frida, entretanto, desenvolveu um estilo único, mesclando elementos do modernismo mexicano, da arte popular, da pintura colonial e do surrealismo. Foi também fortemente influenciada pelo “Mexicayotl”, o movimento estético moderno que buscava a valorização da cultura nativa.
Em suas obras, a pintora abordava temas do folclore e da identidade nacional, questões de gênero, classe, etnia e religião, fatos do cotidiano e referências autobiográficas (expressas em seus numerosos autorretratos), sempre mesclando realismo e fantasia.
Em 1930, Frida Kahlo acompanhou Rivera em uma viagem aos Estados Unidos. Durante sua estadia no país, travou contato com a comunidade artística de São Francisco, Detroit e Nova York e experimentou diferentes técnicas pictóricas. Também diversificou sua temática, até então centrada na representação da cultura folclórica mexicana, passando a abordar o sofrimento, o medo e a dor.
Essa nova abordagem refletia a fragilidade de seu estado emocional após mais um trauma: Frida sempre nutriu o desejo de ser mãe, mas o acidente com o ônibus comprometeu sua capacidade de levar uma gestação até o final. Nos Estados Unidos, Frida engravidou pela terceira vez e sofreu seu terceiro aborto espontâneo.
Após retornar ao México, Frida acomodou em sua casa o revolucionário russo Leon Trotsky, que estava exilado da União Soviética desde 1929, após uma série de acirradas disputas políticas com Josef Stalin. Frida e Trtosky se envolveram amorosamente por um período de seis meses.
A pintora mexicana, entretanto, sempre manifestou sua discordância em relação ao pensamento trotskista. Em 1953, anotou em seu diário: “Eu entendo claramente a dialética materialista de Marx, Engels, Lenin, Stalin e Mao Tsé-Tung. Eu os amo como pilares do novo mundo comunista. Percebi o erro de Trotsky desde que ele chegou ao México. Nunca fui um trotskista.”

Frida Kahlo em 1932. Fotografia de Guillermo Kahlo.
Via Wikimedia Commons
A carreira internacional
Ainda nos anos trinta, Frida daria início a uma bem sucedida carreira artística internacional. Seu estilo singular despertou o interesse dos intelectuais norte-americanos e europeus. Em 1938, o surrealista André Breton organizou sua primeira exposição individual na Julien Levy Gallery, em Nova York.
No ano seguinte, Frida expôs na Galeria Renón et Colle de Paris, em uma mostra viabilizada por intercessão de Marcel Duchamp. Durante a exposição, o Museu do Louvre adquiriu uma de suas obras — “A Moldura” —, transformando Frida na primeira artista mexicana a estar representada no acervo da instituição.
Na capital francesa, Frida fez amizade com Pablo Picasso, Joan Miró e outros ícones da “Escola de Paris” e provocou interesse dos estilistas, impressionados pelo “exotismo” do seu visual. A pintora, entretanto, teve uma impressão negativa sobre intelectualidade parisiense, que descreveu como frívola e pedante. De volta ao México, terminou seu relacionamento com Rivera, após descobrir que o pintor estava tendo um caso com sua irmã, Cristina.
Em 1941, Frida expôs seus trabalhos no Instituto de Arte Contemporânea de Boston. No ano seguinte, tomou parte em duas mostras de relevo sediadas em Nova York, versando sobre o surrealismo e a retratística moderna. Em 1943, expôs no Museu de Arte da Filadélfia e no Museu Peggy Guggenheim de Nova York.
A arte de Frida também ganhou maior visibilidade e apreço no México. A artista foi uma das fundadoras do Seminário da Cultura Mexicana — um grupo de 25 artistas contratados pelo Ministério da Educação Pública para traçar estratégias de divulgação da cultura mexicana, sendo responsável por coordenar exposições e conferências sobre arte.
Frida também integrou diversas mostras de arte mexicana e participou do “Salon de la Flor”. Passou a lecionar arte na Escola La Esmeralda e foi tema de uma exposição individual na Galeria de Arte Contemporânea da Cidade do México. Apesar do sucesso, Frida se recusou a submeter sua produção às exigências de seus clientes e recusava trabalhos cuja temática não estivesse alinhada às suas convicções pessoais.
Os últimos anos
Reconciliada com Rivera, Frida tentou suicídio após descobrir outra traição do marido. A pintora também manteve romances extraconjugais com homens e mulheres, mas nunca estabeleceu outro relacionamento duradouro.
Na década de quarenta, Frida sofreu rápido declínio de seu estado físico, sendo acometida de severas dores na coluna que a impediam de ficar em pé. Em 1945, foi submetida a uma cirurgia de enxerto ósseo e suporte de aço para endireitar sua coluna, mas a intervenção não trouxe os resultados esperados. Pouco tempo depois, teve de amputar a perna direita, em função de uma gangrena.
Deprimida, a artista passou a sofrer com um estado constante de ansiedade e alcoolismo. A despeito de suas limitações físicas, Frida seguiu atuante politicamente, chegando a participar das manifestações contra o golpe de Estado da Guatemala, perpetrado por mercenários financiados pela CIA. Faleceu em sua casa na Cidade do México em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, vitimada por uma broncopneumonia.
























