Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Há seis anos, em 4 de maio de 2020, a Venezuela era alvo de uma tentativa frustrada de invasão organizada por mercenários ligados à Silvercorp, uma empresa de segurança privada dos Estados Unidos.

Batizada de “Operação Gideão”, a ofensiva tinha como objetivo derrubar o presidente Nicolás Maduro, provocando uma mudança de regime. A operação envolveu cerca de 60 homens, incluindo ex-militares venezuelanos e norte-americanos.

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A operação fracassou graças à ação rápida dos civis e militares venezuelanos, que colaboraram em um plano para interceptar os invasores logo após o desembarque. Oito mercenários foram mortos e 17 foram capturados.

Maduro na mira

Desde a morte de Hugo Chávez em 2013, o governo venezuelano passou a enfrentar uma mobilização golpista cada vez mais violenta, conduzida pela extrema-direita venezuelana em conluio com agentes externos, sobretudo da Colômbia e dos Estados Unidos.

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Vislumbrando a hipótese de enfraquecimento do projeto político bolivariano, os setores reacionários lançaram uma campanha contestando a legitimidade do sucessor de Chávez, Nicolás Maduro. O primeiro grande capítulo dessa ofensiva foi o movimento “La Salida” (2013-2014), liderado por Henrique Capriles, María Corina Machado e Leopoldo López — todos envolvidos em uma tentativa de golpe contra Hugo Chávez em 2002.

Sob uma retórica inflamada acusando Maduro de cometer “fraude eleitoral”, a oposição convocou protestos conhecidos como “guarimbas”, que se transformaram em motins violentos, com apedrejamentos, saques, incêndios e ataques contra instalações públicas e privadas. Os protestos deixaram um saldo de 43 mortes e mais de 500 feridos.

Em fevereiro de 2015, oficiais da Aeronáutica lançaram uma nova operação contra Maduro, batizada de “Golpe Azul”. O plano envolvia o sequestro de aeronaves e o bombardeio de alvos estratégicos como o Palácio de Miraflores, o Ministério da Defesa, o Ministério Público, o Tribunal Supremo e a Telesur. O Serviço Nacional de Inteligência conseguiu desarticular o plano a tempo e apontou indícios de envolvimento da CIA. Oito pessoas foram presas, incluindo o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma.

Em 2016, foi a vez da “Operação Espada de Deus”, idealizada pelos generais Ángel Vivas e Raúl Baduel. Os golpistas pretendiam assassinar Maduro, mas a trama foi neutralizada graças à delação e infiltração de agentes. No ano seguinte, ocorreram mais duas tentativas de golpe, envolvendo o roubo de armamentos e munições: a “Operação Escudo Zamorano” e a “Operação David”. Mais de 500 fuzis, lançadores de granadas e armas foram roubados de arsenais do governo venezuelano.

Ainda em 2017, um grupo de militares insurgentes liderado por Óscar Pérez sequestrou um helicóptero de combate e atacou o Tribunal Supremo de Justiça. Pérez ainda lideraria a “Operação Gênesis”, atacando um posto da Guarda Nacional em Miranda. Ele foi morto em janeiro de 2018 durante operação de captura.

Uma nova tentativa de assassinato contra Maduro foi levada a cabo em agosto de 2018. Durante uma cerimônia da Guarda Nacional Bolivariana, drones carregados de explosivos foram direcionados contra Maduro, seus ministros e o alto comando militar. O ataque foi neutralizado pelas forças de segurança. Ainda naquele ano, o governo venezuelano desmantelou mais dois planos golpistas — um interno, liderado pelo general Miguel Rodríguez Torres, e outro planejado na Colômbia pelo general Oswaldo García Palomo.

Juan Guaidó

Maduro foi reeleito presidente da Venezuela em maio de 2018, com mais de 6,2 milhões de votos. A eleição foi boicotada pela maioria dos candidatos de oposição, que protestaram contra a impugnação de candidaturas pela justiça eleitoral.

Os governos dos Estados Unidos, da União Europeia e de países latino-americanos governados pela direita se recusaram a reconhecer a legitimidade do pleito. A Casa Branca e o Parlamento Europeu impuseram novas sanções contra o governo venezuelano, agravando a crise econômica do país.

A contestação da eleição abriu caminho para a escalada golpista. Em janeiro de 2019, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, se autoproclamou “presidente interino” da Venezuela. Ele foi imediatamente reconhecido pelo governo norte-americano, fomentando novas conspirações, divisões nas Forças Armadas e protestos violentos.

Em abril de 2019, Guaidó e Leopoldo López lideraram a “Operação Liberdade”, que preconizava a tomada da Base Aérea de La Carlota e a subsequente derrubada do governo de Maduro. Mais duas tentativas golpistas foram neutralizadas em junho (“Operação Vuelvan Caras”) e agosto (“Operação Força e Liberdade”).

Policiais venezuelanos prendem mercenários da Silvercorp
Via Wikimedia Commons

Operação Gideão

Em 2020, a Venezuela testemunharia a mais ousada tentativa de golpe contra o governo de Nicolás Maduro até então: a Operação Gideão. O ataque foi coordenado por Jordan Goudreau — um mercenário canadense-americano que atuou nas guerras do Iraque e do Afeganistão, responsável por fundar a Silvercorp em 2018.

Sediada em Miami, a Silvercorp é um exército privado de aluguel ativa nos Estados Unidos, em Porto Rico e na Colômbia. A empresa foi contratada pelo governo dos Estados Unidos para prestar serviços de segurança para Donald Trump.

A operação ocorreu poucas semanas depois de Donald Trump oferecer uma recompensa de 15 milhões de dólares para quem prendesse Maduro e altos burocratas do governo venezuelano, acusados de suposto envolvimento com o “Cartel dos Sóis”.

Após o ataque, um documento descrevendo o objetivo da operação, firmado pela Silvercorp e por um membro do Comitê de Estratégia de Juan Guaidó chamado Juan José Rendón, veio a público. O documento detalhava possíveis cenários e planos para remover Maduro do poder e instalar Guaidó como presidente.

No dia 4 de maio de 2020, 60 mercenários da Silvercorp, divididos em duas lanchas, zarparam da Colômbia rumo à costa venezuelana. Uma das lanchas desembarcaria no vilarejo de Chuao, estado de Arágua, e a outra em Macuto, em La Guaira.

O plano dos mercenários consistia em duas operações paralelas. Um grupo tomaria o controle de instalações estratégicas, incluindo o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetia, enquanto um segundo grupo seguiria para o Palácio de Miraflores, sede do poder executivo venezuelano, para sequestrar ou matar Nicolás Maduro e a cúpula do governo.

Os mercenários eram boinas-verdes (i.e., ex-combatentes das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos) e desertores das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas.

Antes mesmo que desembarcassem, os mercenários foram descobertos. Pescadores venezuelanos avistaram as embarcações e alertaram as autoridades. Com o apoio de cinco policiais do vilarejo e a ajuda de um helicóptero militar, os pescadores arquitetaram um plano de defesa na praia.

Oito mercenários foram mortos na operação e outros 17 invasores foram capturados — incluindo dois “boinas verdes” norte-americanos, Airan Berry e Luke Denman. Os mercenários foram amarrados com linhas e cordas dos pescadores e rendidos deitados de frente para o chão até a chegada das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas junto à “Casa do Pescador Socialista”, uma associação sindical cuja sede é decorada com os rostos de personagens históricos venezuelanos: Simón Bolívar, Francisco de Miranda, Ezequiel Zamora e Hugo Chávez.

Outros mercenários que escaparam da ação em Chuao foram presos nos dias seguintes, na cidade de Cepe e em outras localidades vizinhas, elevando o total de suspeitos detidos para mais de 40.

Assim como no caso dos pescadores de Chuao, em todas essas prisões houve participação de civis que haviam passado por treinamentos militares administrados pela Milícia Nacional Bolivariana — um corpo de segurança que conforma um exército popular de civis com conhecimentos de técnicas militares, abrangendo cerca de quatro milhões de cidadãos.

Donald Trump negou veementemente qualquer envolvimento com a operação e afirmou que não possuía sequer conhecimento prévio sobre o ataque. Seis anos depois, no entanto, uma nova invasão, dessa vez executada por forças militares dos Estados Unidos sob ordens diretas de Trump, logrou atingir o objetivo que a Silvercorp não conseguiu concretizar, capturando Nicolás Maduro e o conduzindo até os Estados Unidos para responder a acusações forjadas de envolvimento com o narcoterrorismo.