Sábado, 7 de março de 2026
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De tempos em tempos, um país se torna alvo da campanha de vilanização movida pela grande imprensa e pelas potências ocidentais, sempre com o objetivo de justificar guerras e intervenções.

O alvo da vez é o Irã. Há décadas acossado pelo assédio do Ocidente, o país está sendo submetido, desde o dia 28 de fevereiro, a uma violenta campanha de bombardeios perpetrados pelas forças armadas dos Estados Unidos e de Israel.

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O ataque já matou quase 800 pessoas, conforme divulgado pela organização Crescente Vermelho. Um bombardeio contra uma escola primária feminina deixou 175 mortos — crianças, em sua grande maioria.

Na imprensa, a agressão é justificada como um “ataque preventivo” e o povo iraniano é privado de sua humanidade. Não há nomes, histórias pessoais das vítimas ou imagens que possam gerar comoção e empatia. O título de um editorial do jornal O Estado de S. Paulo sumariza o objetivo do tom da cobertura: “Ninguém vai chorar pelo Irã”.

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Oculta sob a caricatura do “regime perverso e opressor”, encontra-se a história de uma civilização rica, com mais de 5.000 anos e um longo legado de contribuições para a cultura, para a ciência e para a arte. A história de um povo que está sendo massacrado por tentar exercer o seu direito à autodeterminação e retomar o controle sobre seus recursos.

Na coluna de hoje, falaremos um pouco sobre a história de mais um país que, por mera determinação da Casa Branca, os brasileiros estão sendo instados a odiar.

Uma breve história do Irã

País alvo de um ‘ataque preventivo’ determinado pelos governos americano e israelense, incentiva a reação negativa da comunidade internacional

A República Islâmica do Irã

Localizado entre o Golfo Pérsico, o Mar Cáspio, o Sudoeste Asiático e a Ásia Central, o Irã ocupa uma posição estratégica, cercado por algumas das maiores reservas energéticas do planeta.

O país é o terceiro maior produtor de petróleo da OPEP, extraindo 3,3 milhões de barris por dia. O Estreito de Ormuz, localizado ao sul do território iraniano, concentra cerca de um quinto de todo o fluxo do petróleo marítimo global.

O Irã possui a segunda maior reserva de gás natural do mundo, atrás apenas da Rússia. Também concentra cerca de 7% das reservas minerais conhecidas, sendo rico em jazidas de cobre, minério de ferro, urânio e molibdênio. Possui uma base industrial interna bastante robusta e seu setor de ciência e tecnologia está entre os mais avançadas do Oriente Médio.

Com uma extensão territorial de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, o Irã é 18º maior país do mundo, comparável ao Peru. Sua população soma 92 milhões de habitantes, sendo um pouco maior do que a Alemanha.

É um país de alto desenvolvimento humano, com um IDH de 0,799 — maior do que países como Brasil (0,786) e China (0,797). Possui elevada taxa de alfabetização (cerca de 90% da população) e ampla presença feminina no ensino superior, com as mulheres respondendo por 60% da população universitária.

A população iraniana é marcada pela diversidade étnica. Ao contrário da desinformação comumente propalado pela imprensa brasileira, o Irã não é uma nação árabe. A maior parte dos iranianos são persas. O país também abriga grupos significativos de azeris, guiláquis, curdos, judeus, etc.

O Irã é conhecido por sua cultura rica e diversa. O país é o local de nascimento dos primeiros instrumentos complexos e possui um repertório musical vasto e eclético, que vai da música tradicional persa no sistema dastagh ao pop iraniano. A arte tradicional do Irã abarca desde as ricas miniaturas de Tabriz e Herat até a tecelagem de tapetes, passando pela caligrafia persa. Sua literatura, arquitetura e cinema são admirados mundialmente. O país também possui um dos patrimônios arqueológicos mais importantes do mundo.

O Irã na Antiguidade

O Irã abriga uma das civilizações mais antigas da Terra, com uma história que remonta há mais de 5.000 anos. Por volta do terceiro milênio a.C., a cultura elamita emergiu na região sudoeste do país. Eles desenvolveram um sistema de escrita próprio, dominaram a metalurgia e estabeleceram um estado poderoso, apto a rivalizar com os reinos mesopotâmicos — o Reino de Elam.

Por volta do ano 1500 a.C., povos indo-europeus como os medos e os persas migraram para o planalto iraniano. Os medos unificaram várias tribos e fundaram um reino que desempenhou um papel crucial na derrubada do Império Assírio no final do século 7 a.C.

Foi na Pérsia antiga que surgiram os “qanats”, um sistema sofisticado de irrigação subterrânea que possibilitava a produção agrícola em regiões áridas. Os persas também inventaram os primeiros moinhos de vento e os “yakhchal”, um engenhoso sistema de refrigeração desenvolvido há cerca de 2.000 anos.

O primeiro grande império iraniano foi fundado por Ciro, o Grande, que unificou os medos e persas e estabeleceu o Império Aquemênida. Ciro conquistou vastos territórios, incluindo a Lídia, a Babilônia e partes do Egito, criando um dos maiores impérios da história.

O Império Aquemênida se notabilizou por seu código legislativo avançado, que garantia liberdade religiosa e acolhimento a povos exilados. Destacou-se igualmente por suas impressionantes obras de infraestrutura — a exemplo dos avançados sistemas de abastecimento de água e da Estrada Real, uma impressionante via de 2.500 quilômetros de extensão, ligando as cidades de Sardes e Susa.

Dario I, outro governante proeminente, expandiu ainda mais o império e introduziu reformas inovadoras, como a divisão em satrapias (províncias) e a cunhagem de moedas. Dario foi fundador de Perspépolis, a magnífica capital do Império Aquemênida, erguida para substituir Pasárgada. Ele também criou o Chapar Khaneh, o primeiro serviço de correios da história, e construiu um canal ligando o Rio Nilo ao Mar Vermelho.

Em 330 a.C., o Império Aquemênida caiu diante de Alexandre, o Grande. O território persa ficou sob controle dos Selêucidas por um tempo, até que Ársaces I restaurou o domínio local, fundando o Império Parta. Sua nova capital, Ctesifonte, estava entre as cidades mais deslumbrantes do mundo antigo.

O Império Sassânida (224-651), fundado por Artaxes I, foi o último império da era pré-islâmica. Os sassânidas promoveram uma renascença cultural, com importantes avanços na arte e na ciência e a institucionalização do zoroastrismo, uma das primeiras religiões organizadas.

A Era Islâmica

No século 7, a conquista árabe introduziu o islamismo no Irã. Sob os califados omíadas e abássidas, os iranianos desempenharam papéis significativos na administração, ciência e cultura, dando grandes contribuições para o florescimento da Idade de Ouro Islâmica.

Grandes pensadores persas como Avicena conciliaram a filosofia grega à teologia islâmica, influenciando toda a escolástica medieval. Intitulado como “pai da medicina moderna”, Avicena estabeleceu as referências canônicas que seriam utilizadas pela medicina europeia até o século 17.

Alcunhado “pai da álgebra”, Al-Khuarismi introduziu métodos sistemáticos para resolver equações e popularizou o uso dos algarismos arábicos no Ocidente. Já Al-Biruni se destacou por calcular a circunferência da Terra com precisão notável usando princípios trigonométricos.

Os persas também deram enormes contribuições para a literatura. Poetas como Rumi, Hafez e Saadi influenciaram a literatura medieval com seus versos místicos e humanistas. Ferdusi, por sua vez, criaria uma da maiores epopeias de todos os tempos ao escrever a “Épica dos Reis”.

Devastado pelas invasões mongóis no século 13, o Irã se recuperou na era dos Ilcanatos. No século 16, a Dinastia Safávida, criada por Ismail I, estabeleceu o xiismo como religião oficial. O país testemunhou mais uma era de grande prosperidade durante o reinado de Abas I.

Povo do Irã. Fotografia de Iman Hamikhah.
Wikimedia Commons

O Irã contemporâneo

Durante a Dinastia Qajar, o Irã tornou-se alvo do imperialismo europeu, perdendo territórios e sendo forçado a aceitar a criação de zonas de influência britânicas e russas. O processo de ocidentalização se acentuou com as reformas implementadas pela Dinastia Pahlavi.

A reação nacionalista ocorreu nos anos 50, quando Mohammed Mossadegh, fortemente apoiado pelo povo, impôs limites ao governo autoritário de Reza Pahlavi, eventualmente forçando-o a abandonar o país. Determinado a recuperar o controle do Irã sobre seus próprios recursos, Mossadegh nacionalizou a indústria petrolífera, expropriando os campos de petróleo que estavam em poder dos britânicos.

A ousadia custaria caro. Em 1953, Mossadegh foi derrubado por um golpe de Estado orquestrado pelos governos dos Estados Unidos e Reino Unido. Reza Pahlavi foi reinstituído como soberano. A nacionalização do petróleo foi revertida e as reservas iranianas foram entregues a um consórcio de empresas europeias e norte-americanas.

Extremamente impopular, Reza Pahlavi reprimiu violentamente o povo iraniano. Apoiado incondicionalmente pelos Estdos Unidos ele impôs um regime tirânico que censurou, perseguiu, prendeu e assassinou milhares de pessoas, esmagando tanto a oposição religiosa quando a esquerda nacionalista.

O descontentamento com o regime de Reza Pahlavi culminou na Revolução Iraniana de 1979. O movimento foi liderado por islamistas, em especial o aiatolá Khomeini, e recebeu apoio da esquerda e de setores seculares. A monarquia foi derrubada e o Irã se tornou uma república.

A Constituição de 1979 definiu o Irã como uma República Islâmica, tendo o Líder Supremo como chefe de Estado. O Líder é escolhido pela Assembleia dos Peritos, corpo de clérigos eleitos pelo povo, mas com candidatos pré-aprovados. O atual líder é Alireza Arafi, que substituiu Ali Khamenei, assassinado na ofensiva dos Estados Unidos em fevereiro de 2026.

No Irã, o poder executivo é exercido pelo presidente, que é eleito diretamente pelo voto popular a cada quatro anos, podendo exercer até dois mandatos consecutivos. O atual presidente é Masoud Pezeshkian. O parlamento conta com 290 membros, também eleitos pelo voto popular para mandatos de 4 anos.

O papel de tribunal constitucional é exercido pelo Conselho dos Guardiões, composto por 12 membros — seis apontados pelo Líder Supremo e seis indicados pelo poder judiciário e referendados pelo parlamento.

O Irã tem acumulado importantes avanços no campo da ciência e da tecnologia desde a queda da monarquia. O número de estudantes universitários saltou de 100 mil pessoas em 1979 para quase 5 milhões de estudantes na última década. O Irã foi o país que obteve o maior crescimento da taxa de produção científica no mundo entre 1996 e 2004.

O país se consolidou como uma potência em nanotecnologia, ocupando a quarta posição mundial em produção científica nessa área. A biotecnologia e a indústria farmacêutica também são setores de amplo destaque. O Irã está hoje entre os sete principais países em desenvolvimento farmacêutico.

O programa aeroespacial iraniano também é bastante avançado. O país desenvolveu sua própria tecnologia de satélites e já lançou vários em órbita. Também entrou para o seleto grupo de nações equipadas com mísseis hipersônicos. Em 2025, o Irã anunciou o lançamento de sua primeira inteligência artificial.

Os avanços iranianos, no entanto, seguem constantemente ameaçados pelas sanções, embargos, campanhas de desestabilização, operações clandestinas e ataques militares diretos impostos pelas nações ocidentais.

Agindo sob o discurso pretensamente humanista de preocupação com os “direitos humanos”, “desenvolvimento de armas atômicas” e a “repressão” do “regime dos aiatolás”, o Ocidente busca há décadas reverter a conquista da soberania afirmada 1979, retomando o controle sobre as rotas energéticas estratégicas e decidindo quem deve se beneficiar das riquezas iranianas.