Quinta-feira, 28 de maio de 2026
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Não são poucas as pessoas que se emocionam ao contemplar pessoalmente a “Pietà”, obra-prima do mestre renascentista Michelangelo (1475-1564) conservada no interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Da perfeição anatômica das figuras ao acabamento extremamente delicado do mármore, polido ao ponto de evocar a maciez da pele humana, tudo na “Pietà” impressiona.

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O observador mais atento, no entanto, talvez ainda consiga enxergar na superfície do mármore as cicatrizes sutis de um episódio ocorrido há 54 anos, em 21 de maio de 1972. Nesse dia, o geólogo húngaro Laszlo Toth atacou a escultura com golpes de martelo, destruindo o braço e o rosto da Virgem Maria.

Coube ao brasileiro Deoclecio Redig de Campos a tarefa de coordenar a restauração da célebre escultura, em um trabalho minucioso que se estendeu por cinco meses.

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Laszlo Toth

Laszlo Toth nasceu em 1º de julho de 1938, em uma família católica de Pilisvorosvar, no norte da Hungria. Formado em geologia, ele emigrou para a Austrália em 1965, em busca de melhores oportunidades profissionais.

Com dificuldades para se comunicar em inglês e sem conseguir validar seu diploma de geólogo, Laszlo teve de se submeter a empregos precários e mal remunerados. Ainda nos anos 60, ele começou a apresentar transtornos psiquiátricos, que possivelmente se agravaram em função do isolamento social.

Em 1971, Laszlo se mudou para a Itália, passando a viver em um albergue modesto de Roma. Ele deixou os cabelos e a barba crescerem, adotando uma aparência que evocava a iconografia europeia de Cristo, e desenvolveu uma estranha obsessão pela Bíblia.

Laszlo mais tarde confidenciaria que havia se mudado para Roma com o objetivo de conversar com o Papa Paulo VI. Sofrendo de delírios religiosos, ele enviou diversas cartas pedindo uma audiência com o pontífice, nas quais afirmava ser o próprio Espírito Santo ou Cristo ressurreto.

O ataque

O ataque ocorreu em 21 de maio de 1972, um domingo de Pentecostes. Laszlo Toth, então com 33 anos, ingressou na Basílica de São Pedro como um peregrino comum, mas carregava um martelo de geólogo escondido sob sua jaqueta.

Os fiéis estranharam quando viram Laszlo pulando a balaustrada que isolava a “Pietà” do público, mas o evento mais chocante ainda estava por vir. Após se aproximar da estátua, o húngaro sacou o martelo e passou a golpear violentamente a figura em mármore da Virgem Maria. Enquanto desferia os golpes, Laszlo berrava “Eu sou Jesus Cristo, eu ressuscitei dos mortos”.

O ataque durou cerca de dois minutos. Laszlo desferiu quinze marteladas contra a estátua até ser contido pelos visitantes. O escultor norte-americano Bob Cassilly foi um dos primeiros a reagir, afastando Laszlo da escultura a socos e pontapés. Ele foi auxiliado por Marco Ottaggio, um bombeiro italiano que imobilizou Laszlo até a chegada da polícia.

O ataque quebrou o braço esquerdo da Virgem, esmagou seu cotovelo e destruiu o nariz e as pálpebras, espalhando mais de 100 fragmentos de mármore pelo chão da basílica.

Muitos turistas que estavam presentes no momento do ataque recolheram os fragmentos da estátua e levaram para casa como “souvenirs”. Alguns desses fragmentos foram devolvidos após repetidos apelos do Vaticano. Outros permanecem desaparecidos até hoje — incluindo o nariz da Virgem.

Laszlo não foi responsabilizado criminalmente pelo ataque, pois foi diagnosticado com insanidade mental. Ele permaneceu internado em um hospital psiquiátrico na Itália por dois anos e foi posteriormente deportado para a Austrália, onde viveu longe dos holofotes até sua morte, ocorrida em 2012.

: Laszlo Toth atacando a “Pietà”.
Via Medium – Yuting Zhang.

Restauração

A restauração da “Pietà” foi coordenada pelo historiador de arte brasileiro Deoclecio Redig de Campos. Nascido em Belém do Pará e formado na Europa, Deoclecio trabalhou por mais de quatro décadas em Roma, tendo a missão de auxiliar na preservação do patrimônio histórico e artístico do Vaticano.

Deoclecio foi diretor do Palácio das Oliveiras e curador dos Museus Vaticanos. Antes da “Pietà”, o brasileiro já havia dirigido a restauração dos afrescos de Michelangelo na Capela Sistina e dos retábulos de Rafael pertencentes à Pinacoteca Vaticana.

Não havia consenso sobre o tipo de restauração a ser executada. Alguns conservadores defenderam preservar as marcas das marteladas, como registro histórico. Outros opinaram em favor de uma “intervenção crítica”, deixando evidentes as adições posteriores.

Prevaleceu a restauração integral defendida por Deoclecio. “A Pietà tira a sua força expressiva em grande parte da pureza do mármore. É uma estátua tão bem acabada que um simples arranhão no rosto perturbaria mais do que a falta dos braços na Vênus de Milo”, argumentou o brasileiro.

O trabalho artístico ficou a cargo de Vittorio Federici. Os fragmentos perdidos foram refeitos a partir de um pedaço de mármore retirado da parte posterior da estátua.

Após meses de meticulosa restauração, a estátua foi devolvida à Basílica de São Pedro em março de 1973, agora protegida por um vidro à prova de balas. À exceção de pequenas marcas de marteladas na nuca da Virgem, todos os demais danos foram reparados.

A Pietà

Esculpida por Michelangelo em 1499, a “Pietà” é uma das obras mais icônicas do Renascimento Italiano. A obra representa a Virgem Maria, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade, lamentando-se sobre o corpo de seu filho, Jesus Cristo, repousando em seu colo já sem vida.

A obra foi encomendada pelo cardeal francês Jean Bilhères de Lagraulas, que pretendia usá-la como monumento funerário. Foi esculpida em menos de um ano, utilizando um único bloco de mármore. Possui 174 cm de altura e 195 cm de largura.

A obra impressiona pelo domínio técnico do autor, então com apenas 23 anos. Michelangelo soube reproduzir magistralmente na pedra a leveza do drapeado e os músculos pressionados no braço de Cristo.

Além da perfeição técnica, a obra equilibra força expressiva e serenidade, fugindo da ênfase na tragédia e na dor, tipicamente presente nas representações de Cristo morto — sobretudo nas obras dos artistas florentinos influenciados pelas pregações de Girolamo Savonarola.

Embora seu tema seja sacro, a obra retoma atributos típicos das antigas esculturas greco-romanas. A expressão atemporal das figuras remete às representações clássicas dos deuses do Olimpo. A estrutura piramidal do conjunto busca reforçar a estabilidade visual da composição.

Bastante idealizado, o rosto de Maria expressa um semblante de resignação e chama a atenção pelos traços suaves, que lhe conferem um aspecto jovem, simbolizando sua pureza e castidade.

“Pietà” é uma das obras que melhor sintetizam a mescla da expressão naturalista com os ideais da beleza clássica, típica da arte renascentista. É também a única escultura assinada por Michelangelo em toda sua vida, indicativo do apreço que o jovem escultor lhe dedicava.