Vilanova Artigas: o mestre do 'brutalismo paulista'
Militante do Partido Comunista e arquiteto, participou da construção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do Estádio do Morumbi
Há 111 anos, em 23 de junho de 1915, nascia o arquiteto, engenheiro e urbanista João Batista Vilanova Artigas. Formulador e principal expoente da Escola Paulista de Arquitetura, Artigas destacou-se por sua obra prolífica e original (contabilizando cerca de 700 projetos), aliando apuro técnico-construtivo, refinamento estético e engajamento político e social.
Seus projetos são caracterizados pela ênfase na técnica construtiva e pelo uso abundante do concreto armado aparente, com linhas geométricas marcantes e profunda integração espacial. Entre suas obras mais conhecidas estão a sede da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (instituição que ajudou a fundar) e o Estádio do Morumbi.
A trajetória de Artigas também foi marcada por sua atividade política. Militante do Partido Comunista (PCB), ele acreditava no papel social do arquiteto como agente transformador da realidade, apto a contribuir com a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. Sua postura combativa fez com que fosse perseguido, cassado e exilado pela ditadura militar.
Primeiros projetos
João Batista Vilanova Artigas nasceu em Curitiba, primogênito de Brasílio Artigas e Alda Vilanova. Após a morte precoce do pai, transferiu-se para Teixeira Soares, no interior do Paraná, onde cursou o ensino primário. Concluiu o estudo básico no Ginásio Paranaense, ingressando em seguida na Escola de Engenharia do Paraná. Transferiu-se posteriormente para a Escola Politécnica da USP, a fim de estudar arquitetura — então uma especialização do curso de engenharia civil.
Na capital paulista, Artigas frequentou o curso de desenho de modelo vivo nos ateliês do Grupo Santa Helena, onde conviveu com os chamados “pintores operários” — nomes como Francisco Rebolo, Alfredo Volpi, Fulvio Pennacchi e Aldo Bonadei, entre outros. Graduou-se engenheiro-arquiteto em 1937.
Em 1939, Artigas participou do concurso arquitetônico para o Paço Municipal de São Paulo, conquistando o segundo lugar. Atuou no escritório de Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna brasileira, onde conheceu Jacob Ruchti. Dedicou-se também a estudar a obra de Frank Lloyd Wright, que exerceria grande influência em seus primeiros projetos, sobretudo na variedade da disposição volumétrica e no uso de tijolos aparentes (características observáveis, por exemplo, na Residência Rio Branco Paranhos).
Artigas integrou a segunda exposição da Família Artística Paulista em 1939 e passou a lecionar na POLI-USP pouco tempo depois. Em 1942, projetou sua residência no Campo Belo, alcunhada “Casinha”. No ano seguinte, tornou-se um dos fundadores do Departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).
Atuação política e críticas ao ao realismo socialista e ao racionalismo modernista
Em 1945, Artigas se filiou ao Partido Comunista do Brasil (denominação original do PCB), buscando desde então adaptar suas concepções arquitetônicas ao projeto político da organização. Vislumbrando a necessidade de educar politicamente a burguesia nacional sobre seu papel de agente de transformação social, passou a priorizar os projetos de residência unifamiliar como parte da construção de uma “nova cultura urbana”.
Artigas participou do Primeiro Congresso Brasileiro de Arquitetura e tornou-se membro da Sociedade Amigos da Cidade. Contemplado com uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim, mudou-se para os Estados Unidos em 1946. De volta ao Brasil, concluiu o projeto do Edifício Louveira e participou da fundação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), onde atuaria como professor.
O arquiteto foi um dos membros-fundadores do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), tendo concebido um projeto arquitetônico para a instituição ainda em 1948. No ano seguinte, projetou sua segunda residência no Campo Belo, erguida ao lado da “Casinha”. Integrou o conselho de redação da revista Fundamentos, onde trabalhou ao lado de Aparício Torelly, Astrojildo Pereira, Graciliano Ramos, Clóvis Graciano, Mário Schenberg e Oscar Niemeyer.
Em 1951, Artigas publicou o ensaio Le Corbusier e o Imperialismo, com uma série de críticas ao Modulor — sistema de medidas e proporções antropométricas elaborado pelo arquiteto franco-suíço em 1945. Em 1952, lançou seu primeiro livro, intitulado Os Caminhos da Arquitetura Moderna, com críticas ao realismo socialista e ao racionalismo modernista de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright.
Em 1952, Artigas venceu o concurso para a construção do Estádio do Morumbi. Ele também integrou a comissão organizadora do IV Congresso Nacional de Arquitetura, realizado em paralelo às celebrações do IV Centenário da Cidade de São Paulo, e participou da Excursão Internacional de Arquitetos pela Paz, sediada em Varsóvia, Polônia.
Em 1956, participou do concurso para o Plano Piloto de Brasília e projetou a Casa Olga e Sebastião Baeta Henriques em São Paulo. Também intensificou as críticas ao imperialismo norte-americano e à despolitização da comunidade artística, encorajando o fortalecimento da cultura nacional como instrumento de resistência ao assédio das potências estrangeiras. Como parte desse influxo nacionalista, aproximou-se de Oscar Niemeyer e incorporou elementos do programa racionalista (visíveis, por exemplo, em seu projeto para a Rodoviária de Londrina).

O arquiteto retratado em 1984.
Acervo Vilanova Artigas, via Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil
Escola Paulista de Arquitetura
Artigas buscou no “novo brutalismo inglês” a inspiração estética para uma nova arquitetura nacionalista, lançando as bases do movimento intitulado “Escola Paulista de Arquitetura”. O movimento era caracterizado pela ênfase na técnica construtiva, valorização da estrutura e expressividade plástica, com uso abundante do concreto armado e recurso recorrente aos grandes pórticos, vãos e pontos de apoio inventivos.
O estilo seria adotado por arquitetos como Paulo Mendes da Rocha e Ruy Ohtake. Artigas também participou da criação do Fundo Estadual de Construções Escolares (FECE), implementado pelo governo Carvalho Pinto, e foi um dos redatores da proposta de legislação regulamentando a profissão de arquiteto.
Nos anos 60, Artigas realizou uma série de projetos representativos das concepções formais da “Escola Paulista” — nomeadamente o Anhembi Tênis Clube e a Garagem de Barcos do Santapaula Iate Clube. Em 1961, concebeu o projeto da nova sede da FAU-USP, erguida na Cidade Universitária, uma de suas obras mais representativas.
O prédio é marcado pela continuidade espacial e profusão de rampas conectando os pavimentos, resultando em um ambiente propício à convivência comunitária, com poucas divisões internas. A fachada, por sua vez, destaca-se pelo aspecto escultural, contrastando a leveza dos pilares com a pesada estrutura retangular.
Artigas também foi incumbido de coordenar a reforma curricular da FAU-USP, redefinindo de forma mais ampla o perfil do profissional de arquitetura, com a ampliação da atuação para áreas como desenho industrial.
Do golpe de 1964 à redemocratização
Após o golpe de 1964, Artigas foi preso. Perseguido pela ditadura militar por suas ligações históricas com o PCB, exilou-se em Montevidéu, no Uruguai. Retornou posteriormente ao Brasil, vivendo clandestinamente até obter o direito de responder em liberdade aos processos movidos contra si.
Após seu retorno, o arquiteto executou alguns novos trabalhos, nomeadamente o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, em Guarulhos, projeto de moradia popular desenvolvido em conjunto com Paulo Mendes da Rocha e Fábio Penteado. A ditadura militar, entretanto, cassou seu registro profissional e o aposentou compulsoriamente após a promulgação do Ato Institucional Nº. 5 (AI-5), dificultando sua atuação como arquiteto no Brasil.
Artigas participou da Reunião de Especialistas sobre a Formação do Arquiteto, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em Zurique. Em 1972, foi laureado com o Prêmio Jean Tschumi, outorgado pela União Internacional dos Arquitetos (UIA) em reconhecimento à sua contribuição para o ensino de arquitetura. Em 1985, foi homenageado com o Prêmio Auguste Perret pelo conjunto da obra.
O arquiteto retornou à FAU-USP em 1980, após a promulgação da Lei da Anistia, mas não obteve o aval da congregação acadêmica para reabilitação de seu cargo de professor titular. Após recuperar seu título por meio de concurso, assumiu a disciplina de Estudos de Problemas Brasileiros. Lecionou na USP até o seu falecimento, ocorrido em 12 de janeiro de 1985.
























