Há 83 anos, em 22 de setembro de 1943, a resistência soviética eliminava o líder nazista Wilhelm Kube, chefe da ocupação alemã na Bielorrússia e um dos arquitetos do Holocausto.
A operação foi conduzida pela partisan soviética Yelena Mazanik, que trabalhava como empregada doméstica na mansão de Kube, em Minsk. Ela foi responsável por esconder a bomba que detonou no quarto do líder nazista durante a madrugada.
O justiçamento de Kube foi uma das operações mais ousadas efetuadas pela resistência soviética contra a ocupação nazista. Yelena foi posteriormente condecorada como Heroína da União Soviética.
Nascido em 1887 na região da Silésia prussiana, Wilhelm Kube se tornou militante do Partido Nazista ainda na década de 1920. Ele se consagrou como uma das mais destacadas lideranças do movimento cristão alemão e chegou a ser eleito como presbítero da congregação da Igreja de Getsêmani em Berlim.
Com a ascensão de Adolf Hitler ao cargo de chanceler e a instauração do Terceiro Reich, Kube assumiu uma série de cargos de relevo no Partido Nazista e na administração pública. Ele foi nomeado “Gauleiter” na região da Prússia e serviu como deputado no Reichstag.
Após as tropas alemãs invadirem a União Soviética em 1941, Hitler designou Wilhelm Kube para o cargo de Comissário-Geral da Bielorrússia (atual Belarus). Ele se tornou responsável por gerir um vasto território no Leste Europeu, habitado por mais 8 milhões de pessoas. Antissemita ao extremo, o comissário considerava que os judeus eram “uma praga para a raça branca, da mesma forma que a sífilis é uma praga para a humanidade”.
Durante seu domínio sobre Belarus, Kube ordenou a construção de mais de 200 guetos e 260 campos de concentração e extermínio, iniciando a aniquilação em massa de judeus, ciganos, comunistas, opositores políticos, pessoas com deficiência e outras minorias. Estima-se que os nazistas tenham assassinado mais de 800.000 judeus bielorrussos — cerca de 90% da população judaica do território. Sob a gestão de Kube também estava o Gueto de Minsk, um dos maiores guetos da Europa e o maior do território soviético sob ocupação nazista.
Tal era o volume das atrocidades cometidas pelos nazistas na Bielorrússia que os partisans soviéticos (membros do movimento armado de civis que resistiam à ocupação nazista) estabeleceram como objetivo prioritário o justiçamento de Wilhelm Kube.
O comissário, entretanto, era muito bem guardado pelas tropas nazistas e todas as tentativas de assassiná-lo falharam. Em julho de 1943, os partisans haviam detonado uma bomba no teatro de Minsk, matando 70 soldados nazistas, mas Kube escapou ileso. Dois meses depois, atacaram um banquete para oficiais alemães, matando outros 36 oficiais do alto escalão, mas Kube não estava presente.
A resistência soviética ganhou um reforço de grande importância quando uma mulher chamada Yelena Mazanik se voluntariou a ajudá-los. Nascida na aldeia de Poddegtyarnaya em 2 de março de 1914, Yelena era oriunda de uma família humilde de camponeses bielorrussos.
Quando jovem, Yelena teve de abandonar os estudos para ajudar a sustentar a família. Já adulta, mudou-se para Minsk em busca de emprego. Yelena trabalhava como garçonete no refeitório do Conselho do Comissariado do Povo da Bielorrússia quando teve início a Segunda Guerra Mundial.
Após a invasão da União Soviética por tropas da Alemanha nazista, a jovem decidiu se juntar à resistência civil. Utilizando o pseudônimo “Galina”, Yelena se infiltrou como servente em uma unidade da Wehrmacht, as forças armadas da Alemanha nazista, em busca de informações privilegiadas.
Posteriormente, serviu como garçonete em um refeitório de oficiais alemães, até ser recrutada para trabalhar como empregada doméstica na mansão de Wilhelm Kube em junho de 1943.
Yelena foi apresentada aos partisans que planejavam assassinar Kube por Tatyana Kalita, outra integrante da resistência que trabalhava na residência do líder nazista. Yelena concordou em participar da operação para eliminar Kube contanto que os combatentes retirassem sua família da cidade, para que não sofressem com uma eventual retaliação.

O plano inicial era envenenar Kube com arsênico, mas Yelena discordou, temendo que as crianças que viviam na residência pudessem comer da refeição envenenada. Optaram então por uma bomba-relógio. Yelena recebeu uma cápsula de cianeto para se suicidar caso o plano falhasse e ela fosse descoberta pelos nazistas. As partisans Nadezhda Troyan e Mariya Osipova forneceram a bomba e os equipamentos utilizados na operação.
Em 21 de setembro de 1943, Yelena partiu para a mansão, levando a bomba embrulhada em um lenço dentro sua bolsa. Os guardas nazistas não prestavam muita atenção às empregadas que trabalhavam no local. Não perceberam o artefato quando a revistaram superficialmente na entrada da residência.
Durante seus afazeres, Yelena armou a bomba e a colocou sob a cama de Kube. Em seguida, comunicou à governanta que precisaria sair mais cedo para ir ao dentista e não mais retornou à mansão. O plano deu certo. Por volta da 1h20 da madrugada do dia 22 de setembro, a bomba explodiu matando Wilhelm Kube.
O assassinato do oficial enfureceu o regime nazista, que ordenou uma retaliação brutal. Milicianos da SS fuzilaram mais de 1.000 pessoas na cidade de Minsk. Curt von Gottberg assumiu temporariamente o cargo de Comissário-Geral.
Perseguida pelos nazistas, Yelena se escondeu nas florestas nos arredores de Minsk. Posteriormente, se uniu aos partisans, que a escoltaram em segurança até Moscou. Em 29 de outubro de 1943, por decreto do Soviete Supremo, Yelena Mazanik, Nadezhda Troyan e Mariya Osipova foram condecoradas e receberam o título de Heroínas da União Soviética, a mais alta honraria concedida pelo país.
Após a guerra, Yelena ingressou no Partido Comunista. Graduou-se pelo Instituto Pedagógico de Minsk, em 1952 e assumiu o cargo de vice-diretora da Biblioteca Central da Academia de Ciências da República Socialista Soviética da Bielorrússia. Faleceu em 7 de abril de 1996, aos 82 anos.