Zé Celso: resistência, contracultura e liberdade nos palcos do Brasil
Dramaturgo foi preso, torturado e exilado pela ditadura militar, mas manteve por quase sete décadas um espaço de liberdade criativa e contestação ao arbítrio
Há 89 anos, em 30 de março de 1937, nascia José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, um dos mais importantes dramaturgos e diretores de teatro da história do Brasil.
Fundador do Teatro Oficina, Zé Celso foi uma figura chave no desenvolvimento do teatro brasileiro contemporâneo, destacando-se por sua produção original, irreverente e experimental, marcada pela incorporação da contracultura e pela análise crítica sobre a realidade social do país.
Sua postura combativa durante a ditadura militar o transformou em alvo constante da repressão. Zé Celso foi preso, torturado e forçado ao exílio, mas manteve o Teatro Oficina vivo por quase sete décadas, convertendo-o em um núcleo de liberdade criativa, contestação e resistência ao arbítrio.
Juventude e criação do Teatro Oficina
Nascido em Araraquara, no interior de São Paulo, Zé Celso era um dos sete filhos de Lina e Jorge Borges Corrêa. Influenciado pelo pai, ávido consumidor de livros e filmes, Zé Celso manifestou desde cedo o interesse pelas artes.
Na adolescência, uniu-se ao Movimento Águia Branca, de inspiração integralista, participando das atividades do Centro Cultural Alberto Torres. Posteriormente, a aproximação com ala nacionalista do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e o contato com a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre o levaram a rejeitar o integralismo e a se aproximar da esquerda.
Zé Celso ingressou na Faculdade de Direito da USP em 1955, mas não chegou a concluir o curso. A graduação, no entanto, possibilitou o contato com artistas ligados ao Centro Acadêmico 11 de Agosto, ao lado dos quais Zé Celso ele fundaria a companhia Teatro Oficina, inaugurada em 1958.
Nesse mesmo período, Zé Celso estreou como dramaturgo, escrevendo os textos Vento Forte para Papagaio Subir e A Incubadeira, ambos marcados por referências autobiográficas. As peças foram montadas pelo Teatro Oficina, sob direção de Amir Haddad. Em 1960, por ocasião da visita de Jean Paul Sartre ao Brasil, colaborou com Augusto Boal na adaptação e montagem da peça A Engrenagem.
A partir de 1961, Zé Celso buscou profissionalizar sua companhia, que passou a funcionar nas antigas instalações do Teatro Novos Comediantes, no bairro do Bixiga. O espaço foi adaptado por Joaquim Guedes, que concebeu uma plateia ladeada por duas arquibancadas.
O Teatro Oficina se dedicou nos anos iniciais a montar peças de influxo realista, baseadas no sistema Stanislavski, valorizando a improvisação e a espontaneidade. É o caso de Todo Anjo é Terrível, de Ketti Frings, e de Pequenos Burgueses, do dramaturgo russo Máximo Gorki — peça que rendeu a Zé Celso diversos prêmios de melhor direção e se consagrou como uma das melhores montagens do teatro brasileiro, traçando paralelos entre a Rússia pré-revolucionária e o clima de agitação política no Brasil.
Experimentalismo e resistência durante a ditadura
Após o golpe de 1964 e subsequente instalação da ditadura militar, a exibição de Pequenos Burgueses foi suspensa por ordens do regime. Reagindo à censura, Zé Celso e o Teatro Oficina buscaram uma abordagem política mais radical em sua pesquisa cênica, realizando uma transição do realismo de Stanislavski para o “teatro épico” de Bertolt Brecht, a fim de valorizar a autonomia intelectual e fomentar a postura crítica do público.
Tal mudança é bem exemplificada pela montagem da peça Andorra, de Max Frisch, que serviu de denúncia à repressão da ditadura. Após retornar de uma temporada de dois anos na Europa, Zé Celso montou Os inimigos, de Gorki, e O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Essa última se tornaria um marco do Tropicalismo, prestando-se ao resgate do ideário antropofágico da primeira geração modernista e à corporificação de elementos da estética transgressora dos anos 60.

Zé Celso em 2010
Garapa – Coletivo Multimídia / Wikimedia Commons
Em 1968, Zé Celso dirigiu o espetáculo Roda Viva, escrito por Chico Buarque. A crítica do texto à sociedade de consumo e à manipulação midiática e a montagem provocadora, conclamando o público à reação contra o autoritarismo, fez com que a peça se convertesse em um símbolo de resistência à ditadura. Em São Paulo, a montagem de Roda Viva foi atacada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que destruíram o Teatro Galpão e espancaram os atores.
No mesmo ano, Zé Celso dirigiu “Galileu Galilei”, de Brecht, produzindo uma montagem marcada pela experimentação artística e pela busca de novas formas de interação com o público. Essa busca por novas formas de interação público-palco desembocaria na criação do movimento “Te-Ato” nos anos 70, bastante influenciado pelas ideias de Antonin Artaud.
Apesar de todas suas contribuições inovadoras, Zé Celso viu-se crescentemente isolado na comunidade artística, intimidada pelo recrudescimento da censura e da repressão do regime durante os “anos de chumbo”.
Mais uma vez desafiando a ditadura, o autor publicou em 1974 o documento “S.O.S.”, denunciando os crimes do regime. Pouco tempo depois, Zé Celso foi preso e torturado nos porões do DOPS. O dramaturgo ficou detido por 20 dias, período em que foi submetido à tortura no pau de arara, choques elétricos e sessões de espancamento.
Libertado graças ao contato da irmã com um juiz do tribunal militar, Zé Celso partiu para o exílio em Portugal, onde permaneceria por quatro anos. No exílio, apresentou espetáculos com artistas do “Oficina-Samba”, dirigiu o documentário “O Parto”, sobre a Revolução dos Cravos, e o filme “25”, versando sobre a independência de Moçambique.
Retorno do exílio e últimos trabalhos
Zé Celso voltou ao Brasil em 1978, em meio ao processo de distensão e debates sobre a Lei da Anistia. Buscou retomar suas atividades artísticas, recompondo sua antiga companhia sob o nome de “Associação Teatro Uzyna Uzona”.
O antigo espaço do Teatro Oficina no Bixiga passou por uma reforma arquitetônica idealizada por Lina Bo Bardi e Edson Elito. Ao longo dos anos 80, a companhia teria um enfoque educacional, voltando-se para a pesquisa cênica e a administração de oficinas de teatro.
Zé Celso retomou as montagens em 1991, dirigindo a peça “As Boas”, de Jean Genet, em conjunto com Marcelo Drummond, que se tornaria seu parceiro de trabalho e companheiro de vida.
Nas décadas seguintes, Zé Celso se dedicou à releitura de textos consagrados (“O “Rei da Vela”, “Roda Viva”, etc.), visando incorporar referências autobiográficas e alusões à trajetória do Teatro Oficina e seus integrantes, bem como adaptar as obras ao contexto sociopolítico coevo — movimento que batizou de “Antropofagia Orgiástica” ou “Tragicomédiaorgya”.
Zé Celso também se manteve atuante nas discussões políticas. Travou uma longa disputa contra o Grupo Sílvio Santos, tentando impedir a construção de um arranha-céu no terreno lindeiro ao Teatro Oficina, e engajou-se na luta contra a gentrificação do bairro do Bixiga. Protestou contra o golpe parlamentar que apeou Dilma Rousseff da presidência em 2016 e apoiou o movimento Lula Livre
Zé Celso se casou com Marcelo Drummond em uma cerimônia sediada no Teatro Oficina em junho de 2023. Um mês depois, foi hospitalizado com queimaduras resultantes de um incêndio em sua residência. Faleceu em 6 de julho de 2023, aos 86 anos de idade.






















