Serviço secreto russo vai reforçar atuação na América Latina

Serviço secreto russo vai reforçar atuação na América Latina

Rui Ferreira

O presidente russo, Dimitri Medvedev, ordenou aos serviços secretos que aumentem as atividades em países latino-americanos, incluindo o Brasil, segundo informou um curto despacho da agência privada Ria-Novosti divulgado ontem (29) – coincidindo com a visita oficial de uma semana do presidente cubano Raúl Castro, que ontem passeou com Medvedev e inicia hoje a agenda de trabalho.

“É preciso avançar com formas de cooperação modernas e efetivas, não só com nossos sócios tradicionais, mas também com os países da América Latina e outros, incluindo Brasil, Índia e China”, disse Medvedev.

O presidente deu a ordem numa reunião com altos funcionários do FSB, o serviço federal russo de segurança, considerado o herdeiro da KGB dos tempos soviéticos. Não foram informados a data da reunião nem detalhes da mesma.

A atividade de espionagem soviética na América Latina teve os seus momentos altos na década de 1980, durante a revolução na Nicarágua e a guerra civil em El Salvador. Tradicionalmente, tem sido aliada dos serviços de informações cubanos. E o México foi sempre considerado por especialistas como o centro de comando das atividades de espionagem soviéticas na região.

Nos últimos anos da União Soviética, deixou de ser prioridade da KGB manter influência sobre países pobres, mas aliados ideológicos, como Angola e a Nicarágua. A informação está no livro “O mundo ia pelo nosso rumo: a KGB e a batalha pelo terceiro mundo”, editado em 2005 pelo especialista britânico Christopher Andrew, baseado nos arquivos do serviço secreto soviético, que o ex-arquivista Vasili Mitrokhin conseguiu tirar de Moscou.

Em contrapartida, os soviéticos dedicaram-se a fortalecer as relações com países mais ricos, mas fora da esfera de influência, como Brasil, Japão, África do Sul e Tailândia, que sempre tiveram muito mais a oferecer como sócios comerciais. Mas o Brasil sempre esteve sob o olhar soviético, desde que, em 1974, transformou-se, junto a Cuba, Argentina, Peru e México, num dos cinco maiores objetivos da KGB.

Imperialismo brasileiro

Segundo a documentação de Mitrokhin, o Brasil passou a ser prioridade por causa do tamanho e importância estratégica. “O Brasil tem uma importância enorme pela sua dimensão, com grande riqueza que pretende vir a ser no futuro um grande poder, e está adquirindo as características de um Estado imperialista, a ponto de virar muito ativo na arena internacional. No entanto, [a presença de espiões soviéticos no Brasil] é fraca dadas as limitações que o governo brasileiro coloca ao número de diplomatas na embaixada soviética e nossas modestas capacidades”, diz um relatório da época.

Mesmo assim, fizeram algo. A documentação indica que os soviéticos recrutaram um ex-embaixador brasileiro dentro da Cortina de Ferro, identificado apenas com o nome de código de IZOT. IZOT. Além disso, a KGB recrutou, pelo menos, outros três diplomatas brasileiros.

Também houve atividades contra embaixadas brasileiras, inclusive com ajuda cubana. “[A KGB] sempre gostou do nível da colaboração com os serviços secretos cubanos. [...] Entre as operações levadas a cabo em Angola [em 1976] com a ajuda cubana, encontra-se a penetração da embaixada brasileira [em Luanda] para conseguir dados secretos. Um técnico de comunicações da KGB voou de Moscou [para Luanda] com o equipamento necessário que permitiu a um agente cubano fotografar uma máquina de decodificar dados, de fabricação suíça modelo TS-803, da embaixada [brasileira]”, revelou a documentação de Mitrokhin.

Espião na embaixada

Mas talvez, o mais espetacular sejam as tentativas soviéticas de reunir o ex-presidente João Batista Figueiredo com agentes da KGB. Segundo Mitrokhin, em dezembro de 1980 viajou ao Brasil o agente soviético Nikolai Leonov e reuniu-se com o chefe de gabinete de Figueiredo, o general Golbery do Couto e Silva. Apesar de ter se apresentado como acadêmico universitário, uma camuflagem comum na espionagem do leste europeu, os soviéticos sempre tiveram a percepção de que não conseguiram enganar uma velha raposa do mundo da espionagem, como Golbery.

“Em junho de 1981, com o apoio de Figueiredo, Golbery enviou a Moscou para conversas um membro do seu gabinete [não identificado na documentação], que voltou com o acordo de que seria enviado para a embaixada em Brasília um conselheiro que era, na verdade, um agente da KGB”, escreveu Mitrokhin. A idéia era que esse conselheiro tivesse reuniões regulares, não oficiais, com o presidente Figueiredo em pessoa.

O dossiê sobre o Brasil nos Arquivos de Mitrokhin acaba em 1981, sem indicações de que Figueiredo alguma vez se reuniu de fato com a KGB.

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