Hoje na História: 1919 - Começa a discussão das exigências da Itália na Conferência de Versalhes

A delegação italiana em Paris, chefiada pelo primeiro ministro Vittorio Orlando, argumentou desde o início da conferência que consideravam o Tratado de Londres um documento solene que deveria ser contemplado nos acordos que ditariam a paz

Max Altman

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Em 19 de abril de 1919, um sábado antes da Páscoa, tensas e complicadas negociações começam na Conferência de Paz de Versalhes sobre as exigências territoriais da Itália no território que na época formava o Império Austro-Húngaro.

A Itália havia concordado em entrar na Primeira Guerra Mundial na primavera de 1915 após a Entente Cordiale – aliança entre França e Grã Bretanha – ter prometido satisfazer seu sonho nacional de entregar-lhe o controle indiscutível sobre as terras em torno de sua fronteira norte, inclusive a região do Tirol, onde então muitos italianos viviam.

Quando o Tratado de Londres – redigido em abril de 1915, comprometendo a Itália a se juntar à Guerra ao lado dos Aliados – os Aliados concederam-lhe muito mais territórios austro-húngaros, inclusive partes da Dalmácia e numerosas ilhas ao longo da costa do Mar Adriático, bem como o porto albanês de Vlore, Valona em italiano, e parte do Império Otomano.

A delegação italiana em Paris, chefiada pelo primeiro ministro Vittorio Orlando, argumentou desde o início da conferência que consideravam o Tratado de Londres um documento solene que deveria ser contemplado nos acordos que ditariam a paz.

Os britânicos e os franceses se arrependeram amargamente de ter feito tais promessas. Achavam que a Itália havia contribuído muito pouco para a vitória aliada. Seu Exército postergou a entrada em ação e pôs a perder seu ataque contra a Áustria-Hungria, seus navios não honraram o compromisso de patrulhar o Mar Mediterrâneo e o Mar Adriático, e seu governo pediu reiteradamente aos outros aliados recursos que então recusaram a aplicar no esforço de guerra.

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Lloyd George, Vittorio Emanuele Orlando, Georges Clemenceau e Woodrow Wilson 

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A formação em dezembro de 1918 de um Estado iugoslavo causou mais tensão ainda entre a Itália e seus aliados. A Grã Bretanha e a França apoiavam esse novo Estado e queriam que a Itália compreendesse que suas antigas reivindicações sobre territórios do sul da Eslávia e da Dalmácia não faziam mais sentido. O governo italiano, pressionado pela opinião pública interna, não estava disposto a abandonar suas exigências, tendo manifestado firme oposição ao reconhecimento da Iugoslávia. Paris e Londres viram-se relutantemente obrigados a honrar o Tratado de Londres.

O então presidente norte-americano Woodrow Wilson (1913-1921), contudo, via as coisas de maneira distinta. Ele proclamou que os Estados Unidos não dariam aval a nenhum tratado secreto, embora os termos do tratado lhe tivessem sido mostrados durante a guerra, dizendo agora que não se lembrava de tê-los examinado. Agarrou-se firmemente a sua declarada defesa da autodeterminação dos iugoslavos, recusando-se a se curvar a muitas das demandas italianas, inclusive, com exagero, à reivindicação sobre Fiume, uma pequena cidade portuária no Mar Adriático, onde os eslavos superavam ligeiramente a população italiana.

As negociações foram abertas em 19 de abril com a intenção de se estender no máximo por seis dias. Orlando se manteve firme, alertando os outros delegados da possibilidade de uma guerra civil na Itália se suas exigências não fossem atendidas. Apontou para a escalada dos conflitos entre o Partido Socialista e a direita nacionalista com seus “esquadrões de combate armados” (fasci di combattimenti).

Resistência

A resistência às reivindicações italianas foi acérrima, liderada por Wilson, que escreveu uma declaração defendendo que o Tratado de Londres deveria ser posto de lado, lembrando-se à Itália que deveria ficar satisfeita com o recebimento do território de Trentino e do Tirol, onde a maioria da população era italiana.

Em 24 de abril, no dia posterior à publicação da declaração de Wilson, a delegação italiana deixou Paris e regressou a Roma, onde se depararam com uma frenética demonstração de nacionalismo e contra os Estados Unidos. Este incidente ameaçou envolver toda a conferência, no momento em que a delegação alemã estava para chegar a Paris e conhecer os termos do tratado a seu respeito. Os italianos só retornaram às negociações em 5 de maio. Enfim, o Tratado de Versalhes contemplou à Itália um assento permanente na Liga das Nações, o Tirol e uma parte das reparações germânicas.

Muitos italianos ficaram amargamente desapontados com seu quinhão de pós-guerra e o conflito sobre Fiume e outros territórios no Adriático prosseguiu. Em setembro de 1919, o poeta, dramaturgo e raivoso nacionalista Gabriele D'Annunzio – que cunhara a expressão ‘vitória frustrada’ com relação às negociações de paz de Paris – e seus apoiadores tomaram Fiume. Ali permaneceram por 15 meses, desafiando o governo italiano, até que Roma e Belgrado alcançassem um acordo em novembro de 1920, estabelecendo as fronteiras entre os dois países e fazendo de Fiume uma cidade livre. Benito Mussolini, o futuro ditador fascista, observava e esperava durante este período, tendo aprendido muito do carismático exemplo de D'Annunzio.

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