Domingo, 15 de fevereiro de 2026
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Fileiras intermináveis de vagões repletos de troncos de árvore se acumulam na estação de trem da cidade siberiana de Dalnerecensk, mais de 5 mil quilômetros a leste de Moscou, quase na Coreia do Norte, sob o ruído ensurdecedor de alto-falantes anunciando a chegada do próximo Trans-Siberiano. A madeira espera a hora de cruzar a fronteira com a China, onde será usada na construção civil ou transformada em móveis de jardim e outros itens para a venda em lojas no Ocidente.

  

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No entanto, mais de um terço das toras cruza a fronteira ilegalmente, no que muitos qualificam de roubo do século – um movimento que dobrou entre 2005 e 2007, segundo o governo da Rússia. Máfias russas e chinesas controlam este meganegócio que, no atual ritmo de corte, ameaça erradicar as florestas russas dentro de 20 a 30 anos, advertem os especialistas. Seria o fim do ecossistema mais rico do Hemisfério Norte – que inclui o último reduto dos tigres siberianos – e do sustento de milhões de pessoas.

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Este é um problema que afeta a todos, já que a Rússia possui as maiores florestas do mundo – 800 milhões de hectares, comparados com 550 milhões da Amazônia -, concentradas principalmente na Sibéria, uma região que vai dos Montes Urais até o Mar do Japão, tocando o Ártico. Daqui saem dois terços dos troncos consumidos pelo insaciável vizinho, quantidade nada desprezível se considerarmos que seis de cada dez toras cortadas no mundo – incluindo o Brasil – vão parar na China.

 

O gigante asiático processa as toras e as vende no exterior, consolidando a posição de maior exportador de produtos de madeira do mundo. É uma indústria que partiu do zero e chegou a 16,4 bilhões de dólares em meados desta década, desde a proibição do corte no território chinês depois das devastadoras inundações de 1998.

Devastação invisível aos olhos

 

Caminhando pela plataforma da estação de trem de Dalnerecensk – principal ponto de passagem de toras russas para a China -, sou acompanhado por Anatoly Lebedev, ex-agente da KGB convertido há 20 anos em ativista ambiental. Ele explica que, diferentemente da Amazônia, a devastação em muitas áreas da Sibéria é difícil de ser percebida a olho nu, já que os cortadores extraem só as árvores mais valiosas, como pinheiro coreano, carvalho e tília. “No norte da Sibéria, eles deixam um rastro desolador, mas aqui a floresta parece bem, embora na verdade esteja morrendo, esvaziando, é um escândalo”, afirma, enquanto vemos passar o ruidoso Trans-Siberiano.

 

Muitos “barões” da madeira ilegal russos construíram luxuosas mansões a poucos minutos daqui, no centro da cidade, junto a blocos de apartamentos semidestruídos da época soviética. Nos arredores, o panorama é desolador: a maior parte dos campos está abandonada e o único rastro das antigas e poderosas fazendas coletivas são edifícios em ruínas cobertos de mato. Como no restante da Sibéria, o consumo de drogas como maconha é uma praga e a população depende do corte de árvores para sobreviver.

 

Mas os mafiosos chineses são os grandes beneficiários deste negócio. O mais importante deles é Sun Laijun, dono da empresa Longjiang Shanglian. Sua base é a cidade chinesa de Suifenhe, antigo posto fronteiriço czarista que abriga mais de 400 serrarias no outro lado da fronteira. Laijun fundou a companhia há quase uma década e agora importa um de cada dez troncos que chegam da Rússia em mais de 600 vagões de trem por dia.

 

Membros da ONG Agência de Investigação Ambiental (EIA, na sigla em inglês), de Washington, liderados por Alexander von Bismarck – descendente direto do chanceler alemão e cujo avô foi um dos poucos aristocratas a opor-se a Hitler – se fizeram passar por empresários madeireiros e conseguiram se reunir com o irmão mais novo do proprietário, Laiyong.

 

O empresário admitiu que paga subornos de milhões de dólares em espécie, com a ajuda de intermediários, a mafiosos russos e à polícia para poder exportar madeira sem pagar impostos. “Há custos de transporte, pagamentos de alfândega, proteção à máfia”, comentou Laiyong, sem perceber que era filmado. “Até a polícia atua como a máfia”, interrompeu um colaborador do empresário.

A EIA denuncia que muitos dos produtos fabricados por esta e outras empresas chinesas vão parar em centros comerciais ocidentais como a rede de lojas de móveis Ikea e o gigante norte-americano do varejo Wal-Mart. “Existe pressão sobre as florestas no noroeste da Rússia, próximo à Escandinávia, mas o grande problema está no extremo oriente da Sibéria, onde a máfia é especialmente virulenta”, comentou Bismarck, por telefone.

 

Apesar da escala enorme do negócio, são pequenas brigadas de cerca de quatro pessoas, com a ajuda de caminhões, que destroem ilegalmente as florestas siberianas, esvaziando-as como se fossem formigas e usando trilhas herdadas da era soviética. A maioria trabalha de forma autônoma e vende os troncos a serrarias controladas pela máfia.

 

“Legalização” sob propina

 

Depois de várias tentativas, um líder destas brigadas – um jovem ex-policial que veste um agasalho e diz chamar-se Yevgeni – aceita falar com a reportagem do Opera Mundi para explicar como funciona o negócio. O encontro é numa clareira em plena floresta na região de Primorski, a mais afetada pelo corte. “Corra, entre no carro, rápido! Se me virem conversando com um jornalista, me dão um tiro”, exclama ele quando me aproximo.

 

Yevgeni explica que os agentes de tráfego cobram entre 100 e 200 dólares por caminhão cheio de troncos, dependendo do porte ou não de uma permissão. Um ótimo negócio, pois se paga até dez vezes mais por um só tronco de pinho coreano. Assim que a carga é deixada na serraria, conta ele, os chefes “legalizam” as toras, subornando funcionários locais de alto escalão para obter a documentação oficial. “Aqui a maioria é corrupta – os inspetores, a polícia, todos se protegem entre si”, sentencia.

 

“Meu chefe tem uma pessoa encarregada de silenciar quem abrir a boca. Há pouco tempo, incendiaram a garagem de uma pessoa com o carro dentro e fabricaram provas contra outra a fim de mandá-la para a cadeia”, conta ele, enquanto mostra no celular as imagens de um filhote de urso que resgatou das mãos de caçadores clandestinos, olhando pelo retrovisor para conferir se alguém nos segue. “Se pudesse, eu mataria todos eles, mas aqui não há outro trabalho. Minha família e outras quatro morreriam de fome sem isso”.

 

Os guardas florestais com quem conversei coincidem ao afirmar que pouco podem fazer contra os cortadores ilegais, pois estes costumam andar armados, usam serras elétricas que não emitem ruído a mais de 10 metros e mantêm vigias no caminho com telefones via satélite. Além disso, o governo de Vladimir Putin aboliu o Serviço Florestal em 2001, demitindo quase todos os guardas sem criar uma alternativa além da subordinação a outro ministério.

 

Alexander Vitrik, responsável pela inspeção na zona, afirma que, nas raras ocasiões em que ocorrem prisões – como a do ex-prefeito de Vladivostok, personagem gorducho conhecido como “Ursinho Puff” -, a forte pressão vinda do alto escalão do governo impede os julgamentos.

 

“Não posso dar nomes, mas gente muito influente os protege”, diz. Ele admite que há guardas corruptos, mas, com um gesto, indica que prefere não falar mais nada. “A única solução é o governo federal aumentar os impostos [de exportação de madeira para a China]. Do contrário, isto logo se transformará num deserto, como a China”.

Leia a parte 2:

 Falta de árvores põe em risco sobrevivência de tigres siberianos 

Créditos das fotos:

ONG britânica EIA – Environmental Investigation Agency (foto do alto)

ONG russa BROC, Roman Fadeev

Desmatamento na Sibéria ameaça um dos ecossistemas mais ricos do mundo

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