Hoje na história: Acidente tira a vida de Chico Alves, o “rei da voz”

Hoje na história: Acidente tira a vida de Chico Alves, o “rei da voz”

Max Altman

Naquela tarde de sábado de 27 de setembro de 1952, em violento desastre de automóvel na Via Dutra, o Brasil perdia Francisco Alves, o "Rei da Voz". A trágica notícia correu e emocionou o país. No trajeto até o Rio de Janeiro, em quase toda a extensão da Via Dutra, o corpo semicarbonizado era saudado por aqueles que queriam dar o último adeus ao cantor.

Ele era a figura mais presente do meio artístico na vida cotidiana dos ouvintes de rádio e discos do final dos anos 1920 até a década de 1940. Dele, restou a tessitura de barítono, entoando marchas carnavalescas, sambas-canções, sambas-exaltação, valsas, tangos.

O enterro, em 28 de setembro de 1952, foi acompanhado por cerca de 500 mil pessoas, segundo estimativa da época, em cortejo pelas ruas do Rio de Janeiro, a repetir o samba-canção "Adeus - Cinco Letras que Choram" (Silvino Neto), êxito de 1947. Na Cinelândia, passaram mais de 500 mil pessoas para a despedida ao ídolo.

Chico Alves, o "rei da voz”, título inventado pelo locutor César Ladeira em 1933, o Chico Viola do selo vermelho da Parlophon, foi o cantor mais popular do Brasil ao longo de uma carreira de 34 anos, durante a qual experimentou poucos momentos de insucesso. Lançou e enterrou intérpretes, descobriu compositores e colaborou efetivamente para a definição do produto musical brasileiro.

Segundo levantamentos recentes de pesquisadores da obra do cantor, sua discografia atinge 1.173 fonogramas, considerando os discos mecânicos e elétricos lançado por seis selos entre 1920 e 1952 e os acetatos da Rádio Nacional, em poder da Editora Collector's. Lançou comercialmente 524 discos (983 composições), em que abordou todos os gêneros da época, do samba ao tango, do fox trote ao cateretê.

Desde o princípio, impressionou pela potência vocal. Principiou como tenor, mas a voz aos poucos foi escurecendo para o barítono. O estilo de interpretação que forjou era enfático, mas sem os arroubos de bel canto de seu ídolo, o tenor Vicente Celestino, referência da época, cantor de operetas e melodramas, a quem imitava por ter frequentado o Teatro São José, onde se apresentava.

Depurou um estilo e fundou uma linhagem. Se no início sustentava um modo gaiato de interpretar, gerado no teatro de revista e na cultura carnavalesca (a fase mais palatável para o gosto atual), consolidou o padrão do intérprete romântico, enfatizando o samba-canção, a seresta e a valsa.Frequentava o Café Nice, no Rio de Janeiro, onde convivia com os grandes compositores da época.

Corria à boca pequena que, em troca da garantia de execução, Francisco Alves exigia a parceria. Foi em seu Buick conversível, estacionado numa rua transversal, que, a pedido do compositor Bororó, ouviu e se espantou com o jovem intérprete Orlando Silva, a quem Ruy Castro considerou o maior cantor brasileiro de todos os tempos.

Lançou dezenas de músicas de Ary Barroso – foi o primeiro intérprete de Aquarela do Brasil -, Ismael Silva, Noel Rosa, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues e tantos outros Numa entrevista concedida a David Nasser, também compositor, para a revista “O Cruzeiro” afirmou: "Dizem que a gente deve saber a hora em que é bom abandonar o palco, mas eu não sei, eu não posso e eu não quero. Bem que eu gostaria, meu caro amigo, de fazer coincidir o último alento de vida com o último agudo de minha garganta". E assim aconteceu.

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