Em Moscou, 50 mil saem às ruas para protestar contra resultado das eleições

Alvo dos protestos, o partido Rússia Unida, do premiê Vladimir Putin, é acusado de fraude e compra de votos

Sandro Fernandes

*Atualizada às 17h35.

Nem a neve nem o medo de represálias impediram que 50.000 russos saíssem neste sábado (10/12) às ruas de Moscou para protestar contra as fraudes das eleições legislativas do último domingo (04/12). O partido majoritário, Rússia Unida, recebeu 49,54% dos votos para a Duma (câmara baixa do Parlamento russo), mas o resultado foi contestado pelos partidos de oposição, por observadores e líderes internacionais e pela sociedade civil. Durante toda a semana, as redes sociais divulgaram casos de compra de voto, falsificação eleitoral e fraudes por todo o país, sempre a favor do partido Rússia Unida, do atual primeiro-ministro (e candidato à presidência), Vladimir Putin.

Os protestos na capital russa começaram na segunda-feira (05/12) e levaram aproximadamente 5 mil pessoas ao cêntrico bulevar Chistye Prudy, um número alto para a média de Moscou, onde manifestações de oposição geralmente não são autorizadas pela Prefeitura. Os manifestantes gritavam frases como “Rússia sem Putin” e “A eleição é uma farsa”. Eram jovens nacionalistas, babushkas com nostalgia soviética, comunistas, liberais, uma miscelânea de ideologias e bandeiras. O protesto que começou de maneira pacífica terminou com sérios incidentes depois que a Polícia de Moscou decidiu bloquear as ruas que dão acesso ao bairro vizinho, Lubyanka, ondem ficam a sede do Comitê Eleitoral e o antigo edifício da KGB.

Efe

Ontem, grupo de manifestantes fez topless para protestar contra as fraudes

As manifestações se repetiram na terça-feira e terminaram com a prisão de 800 pessoas, incluindo alguns conhecidos líderes, como o blogueiro e ativista Alexey Navalny, famoso pela luta contra a corrupção.

A concentração deste sábado é a maior manifestação que ocorre no país nas últimas duas décadas. Os manifestantes tomaram também as ruas de outras importantes cidades e houve concentrações em frente às embaixadas russas em mais de 20 países, entre eles Estados Unidos, Itália, Alemanha, Coreia do Sul, Japão, Austrália, França, Ucrânia e Armênia.

Numa evidente tentativa de diminuir a participaçao na manifestação deste sábado, a Secretaria de Educação de Moscou convocou todos os estudantes de Ensino Médio a um exame obrigatório que avalia o nível de Russo dos adolescentes. A prova acontece no mesmo horário dos protestos. Com um posicionamento não menos anedótico, o médico-chefe do serviço sanitário russo, Guenadi Onischenko, alertou à população que pretendia ir aos protestos do risco de se pegar um resfriado. Na semana passada, Pavel Durov, dono da rede social mais popular na Rússia, Vkontakte, foi contactado pelo Serviço Federal de Segurança (FSB), que solicitou que as páginas dos grupos de oposição fossem bloqueadas. “Eles estão com medo da gente. Pela primeira vez, noto que podemos mudar alguma coisa. É um sentimento de liberdade que eu nunca tive antes”, declarou Yura Tyunyagin, engenheiro agrimensor, de 30 anos.

Cerca de 50 mil policiais foram trazidos para garantir a segurança e a ordem pública em Moscou. O forte policiamento é visto por toda a cidade. Tanques tomaram as principais vias e o barulho de helicópteros fez parte da semana dos que residem na capital russa.

Em meio aos manifestantes, muitos jovens pró-Putin “Eles vieram aqui para provocar. Muitos deles foram trazidos pelo partido Rússia Unida e receberam 200 rublos (pouco mais de 10 reais) para estar aqui, por isso vieram. Muitos nem são russos ou são de pequenas cidades próximas a Moscou”, explica um dos manifestantes de oposição.

O que querem os manifestantes?

O comitê organizador da manifestação apresentou seis pedidos às autoridades russas: liberação dos detidos nos protestos desta semana, cancelamento das eleições legislativas do dia 4 de dezembro, demissão do diretor do Comitê Eleitoral, Vladimir Churov, punição das pessoas envolvidas nas fraudes, registro dos partidos de oposição (muitos seguem na ilegalidade devido a rígidas, e discutíveis, leis eleitorais) e a realização de novo pleito. “Não queremos a recontagem dos votos porque houve muitas falsificações”, afirmou um dos líderes do movimento Solidariedade, que organizou o protesto deste sábado.

Entre os manifestantes, importantes figuras públicas da Rússia como os escritores Boris Akunin e Dmitry Bykov, os atores Alexei Devotchenko e Chulpan Khamatova e a apresentadora de TV Tatyana Lazareva, além de representantes de organizações de direitos humanos e jornalistas de oposição.

No palco montado no centro da praça Bolotnaya, várias pessoas se revezaram pedindo novas eleições, entre elas o historiados Nikolai Svanidze, o advogado Anatoly Kucheren e os ativistas de direitos humanos Elena Panfilova e Kirill Kabanov. Representantes dos três partidos que atingiram os 7% de votos exigidos para eleger deputados para a Duma – Partido Comunista, Partido Liberal Democrata e Partido Rússia Justa – participaram do evento.

Manifestação de apoio a Putin

Na próxima segunda-feira (12/12), às 16h locais (10h em Brasília), 20 mil pessoas são esperadas na praça Manezh, ao lado do Kremlin, numa manifestação chamada “Glória à Rússia”, de apoio ao partido majoritário Rússia Unida, do primeiro-ministro Vladimir Putin.

 

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