Exposição de Eduardo Villanes em São Paulo busca origens da América do Sul

Por meio de símbolos como o milho, peruano busca reforçar a identidade e a memória dos povos andinos

Fillipe Mauro

Durante o mês de fevereiro, quem caminhar pela Avenida Paulista poderá deparar-se com onças, serpentes, e rústicos milharais. No lugar do cosmopolitismo de um grande centro urbano, estarão expostas ao público interpretações de uma América do Sul remota, cujo  passado andino revela-se por meio da arte contemporânea.

Reprodução/Instituto Cervantes


O dono dessa tentativa de buscar a “fonte natural” que envolve a modernidade é o peruano Eduardo Villanes, artista plástico autor da exposição Uma Antologia Peruana, que estará em cartaz entre os dia 2 e 25 de fevereiro no Instituto Cervantes, em São Paulo.

Suas pinturas têm por base uma arte primitiva, que usa de tecnologias primordiais como pedras, ossos e barro para expressar-se. A lona recoberta com grossas camadas de tinta traz ao público ora a estampa da carcaça de grandes animais, ora a sombra de feras amazônicas escondidas mata adentro.

Reprodução/Instituto Cervantes


A tinta não recobre a estopa, a tinta torna-se a estopa. Quem pinta são instrumentos bem mais pesados e rústicos do que um simples pincel. Villanes praticamente esculpe suas telas com bisturis e espátulas. As telas são fundamentadas na arte chavín, o primeiro horizonte cultural antes dos incas. Assim, suas imagens não trazem os contornos tão presentes no repertório ocidental, que preconiza a silhueta – a prioridade está na valorização do interior.

O milho é uma importante temática de sua obra, exemplo muito ilustrativo do que concebe como memória pré-colombiana. Ele lembra que o vegetal “é um produto cultural peruano, parte da arte da agricultura e fruto do cultivo de diversas gerações” de nativos.

Eduardo surpreendeu-se quando descobriu que a Monsanto, grande corporação franco-americana de suplementos agrícolas, havia patenteado parte da seqüência genética do milho. Como forma de protestar contra essa apropriação e de comprovar que a planta “não é de quem a patenteia”, concebeu sua série Microtextiles.

Para cada base nitrogenada que compõe uma molécula de DNA (Adenina, Guanina, Citosina e Timina) ele atribuiu uma cor e, com base na seqüência que assumem no código genético do milho, bordou diversas estampas. O resultado aproxima-se da iconografia pré-colombiana que, segundo ele, era coincidentemente “utilizada para armazenar dados”.

Reprodução/Instituto Cervantes


Há momentos em que o padrão de cores altera-se. Ele se justifica, revelando que variou “as cores das bases nitrogenadas para representar a biodiversidade que empresas como a Monsanto destroem”.

Villanes viveu ilegalmente nos EUA durante dez anos. Detido em prisões para imigrantes, ele conta que arames farpados faziam parte de seu cotidiano. A memória do milho, tão intensa no repertório dos povos andinos, também. A mescla desses dois elementos surge em Alambradas, série de obras que se destacam pelo material empregado.

Com as próprias mãos, teceu espigas de milho em arame farpado e faz de suas extremidades pontiagudas os nós de onde saem os grãos do vegetal. O arame, que, por essência, protege a propriedade privada, nesse caso protege a planta de sua apropriação por grandes multinacionais. “A década de 1990 foi uma época marcada pelos desaparecidos do regime Fujimori; os anos 2000 são a época da apropriação de recursos naturais”, explica.

Eduardo revelou um sentimento de frustração à reportagem do Opera Mundi. Disse que está planejando uma nova série de obras embasada no tema água, mas que muitos “têm medo de apoiar os trabalhos e sofrer repressão financeira”, isto é, perda de patrocínio do governo. “Não encontro canais para meus projetos. Antes, ninguém queria trabalhar sobre o que ocorria. Hoje, só querem estudar o passado, o seguro, e se esquecem do presente”, queixa-se.

Mesmo assim, a repercussão de suas obras permanece. Embora lamente que grandes galerias queiram apenas comprar o que já compôs e não bancar o que pretende compor, ele permanece divulgando seu trabalho em Lima, Nova York e agora, pela segunda vez, em São Paulo. Suas coleções estão expostas permanentemente em diversos museus da capital peruana e na galeria Throckmorton Fine Arts, nos EUA.
 

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