Brinquedos também são proibidos de protestar na Rússia

A decisão veio após 'miniprotestos' realizados na cidade de Barnau, na Sibéria

Sandro Fernandes

Eles ficaram famosos em duas manifestações em janeiro desse ano, após protagonizarem um bem-humorado protesto contra as autoridades russas na cidade de Barnaul. Porém, assim como as pessoas, brinquedos também precisarão pedir permissão oficial para "saírem às ruas". Além disso, segundo o governo local, a medida é necessária porque "os brinquedos, principalmente os importados, nao são cidadãos da Rússia."

Sergey Teplyakov/Vkontakte

Os bonecos de Barnaul protestaram contra as denúncias de fraude nas eleições legislativas

Autoridades da cidade de Barnaul, na Rússia, anunciaram a proibição de manifestações anti-governamentais utilizando bonecos e ursos de pelúcia. A decisão foi informada a jornalistas pelo chefe da polícia local, Andrei Mulintsev. “Qualquer tipo de protesto precisa da permissão das autoridades. E não vai ser diferente com a manifestação feita com brinquedos”, declarou Mulintsev.

Nos protestos em janeiro, bonecos de plásticos de apenas 5 cm, quase todos do grupo dinamarquesa Lego, do chocolate Kinder Ovo e do seriado South Park, carregavam minúsculos cartazes com críticas às fraudes nas eleições legislativas do dia 4 de dezembro.

Ativistas fizeram a bem-humorada “nano-manifestação” depois de a prefeitura ter negado repetidas vezes a autorização para uma protesto aos moldes dos que vêm ocorrendo em Moscou. A polícia levou a inusitada manifestação bastante a sério e examinou minuciosamente cada detalhe dos pequenos cartazes.

Uma das organizadoras do protesto, Lyudmila Alexandrova, disse que “a tentativa das autoridades de limitar o direito de expressão dos cidadãos chegou ao cúmulo do absurdo”. No dia 10 de dezembro, quando a primeira grande manifestação foi organizada em Moscou, 2 mil pessoas se concentraram em Barnaul para criticar as fraudes eleitorais, mas o protesto não foi autorizado.

“Como não pudemos fazer a nossa manifestação pacifica, decidimos utilizar os bonecos porque parece que eles têm mais direitos do que nós”, declarou Andrey Teslenko, um dos outros organizadores. “A polícia tentou expulsar-nos do local alegando que os bonecos estavam numa área que é propriedade do município e nós não havíamos assinado nenhum contrato de aluguel”, explicou Teslenko.

"Jeitinho"

Para tentar driblar as recorrentes censuras e proibições, A criatividade vem sendo a marca dos protestos russos. Em 2010, o grupo de arte Voina (Guerra), pintou um pênis gigante numa ponte-levadiça em São Petersburgo. Quando a ponte abria, o pouco discreto desenho de 65m ficava exatamente em frente à sede do Serviço Federal de Segurança (agência russa de inteligência que sucedeu a KGB).

Os flashmobs também entraram na moda. Na tarde do dia 9 de fevereiro, ativistas gays se manifestaram sem a autorização da prefeitura de Moscou, no aeroporto de Sheremetyevo, contra a empresa aérea russa Aeroflot. Os ativistas alegam que um funcionário da empresa foi impedido de criar um grupo de discussão GLBT na companhia, sendo inclusive forçado a se casar com uma mulher para manter o seu trabalho.

A próxima manifestação da oposição na capital russa está prevista para o dia 26 de fevereiro. Os organizadores esperam que pelo menos 34 mil pessoas deem as mãos na Sadovoe Koltso, avenida circular no centro de Moscou, que engloba também o Kremlin. O protesto acontecerá um semana antes das eleições presidenciais na Rússia.

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