Governo Sarkozy é o principal responsável pela islamofobia na França, diz líder de centro muçulmano

Para Samy Debah, presidente e fundador do CCIF (Coletivo Contra a Islamofobia na França), o presidente ataca o Islã para ganhar votos

Kênya Zanatta



Cemitérios profanados, mesquitas pichadas, mulheres insultadas ou obrigadas a retirar o véu estão entre as quase 300 denúncias de islamofobia coletadas em 2011 pelo CCIF (Coletivo Contra a Islamofobia na França). Um número que a organização acredita ser muito menor do que a quantidade real de ocorrências.

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Já a CNCDH (Comissão Nacional Consultativa dos Direitos Humanos) aponta que, apesar de uma leve diminuição no número total de atos racistas, antissemitas e xenófobos em 2011, a intolerância está aumentando. Baseado em uma pesquisa de opinião realizada pelo instituto CSA no final do ano passado, o CNCDH afirma no documento que há "um aumento da suspeita em relação aos muçulmanos" e uma "rejeição crescente dos estrangeiros, vistos cada vez mais como parasitas ou até como uma ameaça".

Segundo o estudo, 51% das pessoas interrogadas estimam que "os muçulmanos formam um grupo à parte na sociedade" - 6 pontos a mais do que em 2009 - e 72% pensam que "os franceses muçulmanos são franceses como os outros" - 7 pontos a menos do que em 2009.

Em seu relatório, o CNCDH, uma instituição independente que aconselha o governo no campo dos direitos humanos, afirma que os atos de racismo em geral recenseados pela polícia em 2011 foram 1.254, uma queda de 7% em relação a 2010. Mas o "racismo antimuçulmano" aumentou em 33,6%. Um aumento que se explica em parte pela melhora do recenseamento dos casos de racismo contra muçulmanos, segundo o CNCDH, que incita "os poderes públicos a se mostrarem particularmente atentos diante dessa violência".

O professor de Geografia e História Samy Debah, é presidente e um dos fundadores do CCIF, que desde 2003 computa em todo o país os atos de discriminação e violência verbal ou física contra indivíduos ou instituições ligados à religião muçulmana.

Para ele, as ações do franco-argelino Mohamed Merah em Toulouse e Montauban, que resultaram no assassinato de sete pessoas, dentre elas três crianças, abriram espaço para um reforço do discurso anti-Islã na França. De acordo com o especialista, tanto o atual governo de Nicolas Sarkozy como a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, demonizam o Islã para ganhar votos.

Efe

Candidato à reeleição, Sarkozy afirmou que expulsará todos os que "pregarem valores contrários aos da República Francesa" 

Leia a seguir a entrevista concedida à reportagem do Opera Mundi.

Opera Mundi: Os atentados na França podem mudar o discurso sobre o Islã?
Samy Debah : Nosso receio é que os políticos se sintam livres para fazer um discurso estigmatizante, de denúncia, visando diretamente a comunidade muçulmana e insistindo mais do que antes na natureza estrangeira do Islã e dos muçulmanos. O medo é que essa tragédia faça com que as pessoas considerem normal esse tipo de discurso sobre os muçulmanos e até mesmo a criação de leis de exceção. A primeira vítima colateral desse drama é a comunidade muçulmana, que vai passar algumas semanas e meses bem difíceis.

OM: O princípio da laicidade foi muito invocado durante a campanha eleitoral. O que está por trás dele?
SD: Hoje em dia o termo laicidade é usado quando se quer atacar de maneira indireta o Islã e os muçulmanos. São os partidos conservadores que evocam as virtudes da laicidade e fingem defendê-la. Mas por que ninguém denuncia esse subterfúgio? Porque a rejeição ao Islã é tamanha que as pessoas aceitam passivamente esse truque dos partidos de direita.

OM: A social-democracia toma alguma atitude para se diferenciar da direita nesse ponto?
SD: Claro que não! Estamos decepcionados com o PS (Partido Socialista) em relação a isso. Temos a impressão de que ele não define uma posição muito clara para se diferenciar da direita e da extrema-direita. No que diz respeito às questões de imigração, de segurança e do lugar dos muçulmanos, ele segue os outros.

OM: Junto com outras organizações muçulmanas, o CCIF lançou uma petição pedindo aos candidatos para que evitassem tornar os muçulmanos alvos de ataques na campanha eleitoral. Houve respostas por parte da classe política?
SD: Pouco depois das eleições presidenciais acontecem as eleições legislativas [10 e 17 de junho] e já há candidatos fazendo campanha. Sentimos que, numa escala local, tivemos retornos interessantes. O conceito de islamofobia já está sendo levado em conta. Mas queremos ir mais longe. Como há candidatos à Presidência que querem utilizar esse drama de Toulouse para romper as barreiras que existiam até agora entre eles e a Frente Nacional, é preciso que haja outros candidatos determinados no sentido inverso, para fazer respeitar os valores da República e dizer que os muçulmanos fazem parte integrante da nação e que por isso devem ser protegidos como qualquer outro cidadão. Tivemos já um exemplo, com as declarações de Jean-Luc Mélenchon [candidato da Frente de Esquerda]. Ele mostrou o discurso que todos devem ter sobre a islamofobia: o da união e não o da divisão.

OM : Qual deve ser a resposta da comunidade muçulmana francesa à islamofobia na campanha eleitoral?
SD: Entre outras coisas, os muçulmanos devem participar do processo eleitoral. Porque atualmente constatamos que de 40% a 70% se abstêm durante as eleições, o que é dramático, não é um sinal de integração. A maioria dos políticos não tem um discurso com o qual os muçulmanos possam se identificar. Se hoje o discurso político islamófobo é tão importante, é simplesmente porque os políticos consideram os muçulmanos como “maus clientes”. Por que ganhar uma população que não vota? A direita considera que se essa comunidade um dia votar, será à esquerda e, por outro lado, os socialistas consideram que essa comunidade não vota e, caso vote, será naturalmente na esquerda. Então não há nenhum interesse em fazer um esforço para conquistar esse eleitorado. Nós pedimos às pessoas que votem. Pouco importa em quem. E, graças ao jogo democrático, assim que se tornarem um elemento importante do eleitorado, suscitarão o interesse dos candidatos e poderão reivindicar um tratamento igualitário diante da lei e o fim das discriminações no discurso e na prática política.

OM: O número de denúncias de atos de islamofobia recebido pelo CCIF cresceu 37% em um ano. A que se deve esse aumento?
SD: Há dois fatores. Em primeiro lugar, quanto mais nos tornamos conhecidos, mais pessoas nos contatam para denunciar atos de islamofobia. O segundo elemento, é que realmente há cada vez mais casos. Em nosso estudo analisamos quais foram os momentos do ano passado em que houve picos de casos de islamofobia. Constatamos que isso acontecia quando o discurso político e midíatico enfocava os muçulmanos de maneira negativa. Por exemplo, no período em que a lei proibindo o uso da burca em locais públicos entrou em vigor. É por isso que nós dizemos que o discurso político é fundamental. Se o Estado, qualquer que seja o partido no governo, investir na sensibilização, lembrando que a discriminação é ilegal, acreditamos que a maioria dos atos de islamofobia desapareceria. Contrariamente ao que se diz, o Islã não é a primeira preocupação dos franceses. As prioridades são desemprego e poder aquisitivo, ou seja, justamente as áreas em que o atual governo prometeu agir e faliu. Então ele se volta para outras temáticas, despertando temores para fazer esquecer esses fracassos no plano das políticas econômicas e sociais. E é por isso que ele é o principal responsável pela injustiça que os muçulmanos sofrem nesse país.

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