Hoje na História: 2009 - Morre Robert McNamara, arquiteto da Guerra do Vietnã

Secretário de Defesa dos EUA durante invasão ao país asiático, ele fez parte de elite de intelectuais recrutados para ser força criativa do governo de Kennedy

Max Altman

Atualizada às 8h de 05/07/2016

Robert Strange McNamara, secretário de Defesa norte-americano com John F. Kennedy e Lyndon Johnson e um dos grandes arquitetos da Guerra do Vietnã, morreu dormindo em 6 de julho de 2009, aos 93 anos. McNamara era um dos “best and brightest” (melhores e brilhantes), uma elite de renomados intelectuais recrutados por Kennedy para ser a força criativa de seu governo. Se é certo que com a inteligência vem incluída uma certa dose de soberba, não se pode negar que os homens do presidente alcançaram altos níveis em ambos os campos.

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Presidente John F. Kennedy se reúne com Robert McNamara no Salão Oval da Casa Branca, em 1962

McNamara era, até no aspecto físico, um desses cérebros que não podia falhar. Os ataúdes de dezenas de milhares de soldados norte-americanos, para não falar das centenas de milhares de norte-vietnamitas, atestam que falhou. Costuma-se falar que McNamara ficou atormentado pelo fiasco, porém nunca o demonstrou. Seu melhor legado foi aceitar colaborar com Errol Morris no documentário The Fog of War (A Névoa da Guerra), uma entrevista em que o ex-chefe do Pentágono tenta dar sentido às decisões tomadas pelo governo de Washington naqueles anos.

Mesmo antes de McNamara deixar o Pentágono no começo de 1968, este homem de absolutas certezas sobre quase tudo passou a ter perturbadoras dúvidas sobre a Guerra do Vietnã, sobre o que era conhecido amplamente como a “Guerra de McNamara”. Chegou a ordenar um estudo de como os Estados Unidos se envolveram no Vietnã para tentar explicar o que aconteceu. O relatório final passou a ser conhecido como “Os Papeis do Pentágono”. E para mostrar quão enigmático McNamara era, não ficou claro que ele o teria lido.

Avalia-se que qualquer presidente norte-americano faria o que Kennedy fez ao tirá-lo da Ford, onde era o principal executivo, para ser Secretário de Defesa. No começo dos anos 1940 ele já era um ícone. Era um homem que podia valer-se de fatos, números e análises para resolver qualquer problema, mesmo para fazer a guerra em lugares de que nunca se tinha ouvido falar.

A Guerra do Vietnã foi o resultado de como os líderes norte-americanos, logo após a Segunda Guerra Mundial, viam como sendo a ameaça comunista e a política externa daí decorrente. À época em que McNamara mudou-se para Washington em 1961, a Guerra Fria estava em sua plenitude e com ela a teoria do dominó. Essa teoria sustentava que seria uma loucura deixar que um agressor arrebatasse pequenos países. O agressor teria de ser detido onde quer que ousasse desafiar Washington. Em 1961, parecia ser o caso do Vietnã.

Trailer de Fog of War:

McNamara não sabia nada de Vietnã. Nem os demais que trabalhavam com ele. Mas os norte-americanos não necessitavam saber da cultura e da história de qualquer nação. Tudo o que precisavam era aplicar a superioridade militar e os recursos adequadamente. Coligir dados corretos, analisar as informações apropriadamente e apresentar uma solução de como ganhar a Guerra. McNamara fez exatamente isto até algum momento do final de 1965.

Fracasso

Começou então a se surpreender com o crescente aumento das baixas fatais norte-americanas, e a duvidar que a guerra pudesse realmente ser ganha, não importante quão sábia era sua equipe. Passou a compreender que enquanto permanecessem no Vietnã, dispostos a lutar e morrer, poderiam não perder mas também não conseguiriam ganhar. A guerra se transformara num tremendo beco sem saída.

 

Carregado de dúvidas, não tinha respostas para elas. Não estava preparado para simplesmente retirar-se. Os EUA sangravam, as cidades com seus manifestantes estavam em polvorosa, porém McNamara não parecia estar conectado com essa realidade. É quase sobre-humano esperar de um arquiteto de guerra que repensasse os valores e necessidade dela. E as dúvidas simplesmente flutuaram no ar sem que se traduzissem em política.

Quando uma figura tão central para o país e para a população num determinado período histórico partiu, uma lição primordial permaneceu bombardeando a mente de pelo menos parte das lideranças norte-americanas: guerras nacionalistas, guerras civis, guerras tribais ou religiosas não conseguem ser ganhas pelos métodos tradicionais de uma guerra convencional.

Pode-se querer lutar e morrer, pode-se até não perder. Mas no final das contas não dá para ganhar. A guerra dos vietnamitas era a guerra deles. A guerra dos afegãos pertence somente a eles. Potências podem querer interferir – e interferem – mas ao longo do tempo quem determina para onde vai pender o fiel da balança são as forças internas.

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