Morte de dissidente cubano foi um acidente, admite motorista

Oposição cubana acusa governo de planejar atentado; integrante do PP espanhol estava ao volante no momento do acidente

João Novaes


O militante político espanhol Ángel Carromero Barrios admitiu, em depoimento à polícia cubana nesta segunda-feira (23/07), ter cometido um erro ao volante no acidente em uma estrada no sul do país que, no último domingo (22), resultou nas mortes de dois destacados dissidentes do regime de Havana. Os falecimentos de Oswaldo Payá e Héctor Cepero provocaram ira na oposição cubana, que acusava o governo de ter tramado um atentado. As informações são do jornal espanhol El Mundo e da Agência Efe.

No depoimento, Carromero, que estava ao volante do veículo no momento do acidente, afirmou ter ignorado um aviso de uma placa de trânsito para redução de velocidade, quando logo depois, perdeu o controle do veículo em uma curva e caiu em um barranco. Payá e Cepero, que estavam no banco de trás, sem cinto de segurança, morreram, enquanto Carromero e o também ativista político sueco Jens Aron Modig, ficaram feridos e receberam alta na segunda-feira.

Agência Efe

Familiares choram em frente ao caixão do dissidente Oswaldo Payá, em Havana

Carromero é o número 2 da juventude do PP (Partido Popular) em Madri, partido conservador católico que apóia a dissidência cubana. Modig é líder da juventude do Partido Democrático sueco.

Os quatro passageiros saíram de Havana e se dirigiam até o sul da ilha, em Bayamo, com o objetivo de “denunciar uma epidemia de cólera, que estaria sendo negligenciada pelo governo”, segundo afirmou Omar López Montenegro, diretor de Direitos Humanos da FNCA (Fundação Nacional Cubano-Americana), órgão de apoio aos dissidentes sediado em Miami (EUA).

Antes do depoimento de Carromero, a filha de Payá, Rosa Maria, disse ter informações, sem revelar as fontes, de que havia um segundo carro tentando atirar o veículo dos dissidentes para fora da estrada, com o objetivo de causar um acidente.

Payá era um importante líder da dissidência cubana e fundador do MCL (Movimento Cristão de Libertação), uma das principais organizações contrarrevolucionárias cubanas.

Carromero, que teve ferimentos leves na cabeça, permanecerá detido até o término dos exames periciais. Ele está sendo acompanhado por membros do consulado-geral da Espanha. As investigações preliminares apontam que o veículo estava em mau estado de conservação e a pista no local do acidente estava parcialmente em obras. Modig foi liberado logo depois de prestar depoimento.
 

Segundo Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos, outro órgão ligado à oposição, Carromero e Modig se salvaram porque estavam sentados nos bancos da frente. “Os cintos de segurança e os air-bags os salvaram”, afirmou o dirigente à Efe. “O carro virou sobre seu próprio eixo e o impacto maior ocorreu na parte traseira”, afirmou, de acordo com relatos de seus colaboradores que vivem próximos a Bayamo e acompanharam as investigações no local.

Nos Estados, os dois candidatos à Presidência do país lamentaram a morte de Payá e voltaram a declarar apoio aos dissidentes. “As circunstâncias que cercam a morte de Payá novamente levantam dúvidas sobre o padrão de conduta do regime despótico (cubano), que busca constantemente formas de aniquilar a dissidência interna", chegou a dizer o candidato republicano Mitt Romney em nota.

O ex-presidente de governo espanhol e um dos principais líderes do PP, José Maria Aznar, expressou em nota sua “profunda dor” pela morte de Payá, a quem afirmava ser um amigo pessoal.

O corpo de Payá chegou a Havana na segunda-feira, na paróquia de El Cerro, quando foi recepcionado por um grupo de cerca de 200 dissidentes, e foi enterrado, sob aplausos, na manhã desta terça-feira.
 

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