Mursi desafia forças armadas, mas influência militar deve continuar

Apesar de ter demitido importantes figuras do CSFA, presidente terá de lidar com novos rostos do exército

Marina Mattar

Os recentes acontecimentos no Egito são apenas uma parte de um complexo quebra-cabeças. Há um novo contexto político com a decisão do presidente egípcio, Mohamed Mursi, de destituir e desautorizar importantes militares egípcios, que estão no poder desde o governo de Hosni Mubarak. Apesar da falta de clareza e de informações, jornalistas e cientistas políticos elaboraram hipóteses para compreender as ações do recém-eleito presidente.

Efe

Egípcios demonstram apoio ao presidente Mohamed Mursi, após demissão de dois oficiais do exército

Até este domingo (12/08), Mursi não havia confrontado com tanta dureza as Forças Armadas egípcias e surpreendeu muitos com suas ações. O presidente anunciou a anulação de uma "declaração constitucional" do governo de transição, composto pelo Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), que concedia amplos poderes ao Exército e limitava o poder executivo e legislativo do país. Além disso, Mursi afastou o marechal Hussein Tantawi, ministro da Defesa há 20 anos e chefe dos CSFA, e o chefe das Forças Armadas, Sami Annan.

As atitudes de Mursi surgiram em meio a uma crise na Península do Sinai, que o governo tenta conter militarmente, e a rumores de um possível golpe de estado contra o presidente da Irmandade Muçulmana. Enquanto alguns analistas acreditam que Mursi reagiu a essas ameaças, outros apontam que a saída dos militares foi um passo estratégico das próprias Forças Armadas.

As incertezas sobre a decisão do presidente aumentaram ainda mais nesta segunda-feira (13/08) com a revelação das agências de notícias estatais de que a aposentadoria dos militares foi consentida pelas forças armadas. Por esta razão, muitos apontam que pelo menos alguma parcela dos militares egípcios está por trás da atitude do presidente.

Saída estratégica

Para Sherif Azer, vice-diretor da Organização Egípcia de Direitos Humanos, a aposentadoria de Tantawi e Annan não significa que eles vão deixar de atuar na cena política do Egito. "Este momento, quando o CSFA passa para os bastidores, já era esperado e eu acredito que eles sabiam que esta era a sua melhor opção para uma saída segura”, disse ele ao jornal britânico The Guardian.

Apesar de terem sido retirados de seus cargos, Tantawi e Annan foram nomeados por Mursi como conselheiros da presidência. “O que está acontecendo agora foi planejado pelo CSFA, quando perceberam que teriam que fazer um acordo com a Irmandade”, conclui Azer. Segundo o jornalista e comentarista em Egito, Issand El Amrani, a saída de Tantawi era inevitável por sua idade e impopularidade, o que não significa que as Forças Armadas deixaram de ter um papel importante no país.

Citando a nomeação de outros militares para cargos importantes, Amrani sustenta que as Forças Armadas vão atuar na política com novos rostos, não tão desgastados quanto o de Tantawi, que está diretamente relacionado à imagem de Mubarak. “Esta continuidade sugere que estamos lidando com um SCAF reconfigurado que continua sendo uma entidade poderosa paralela à presidência e outras instituições civis”, escreveu ele no blog Arabist. “Não é, como muitos reagiram inicialmente, uma vitória de Mursi sob os militares; mas sim, uma reconfiguração desta relação”, acrescenta.

Conflito interno

A ascensão de outros membros das Forças Armadas a cargos importantes do governo egípcio foi entendida também como um possível racha entre os militares. Enquanto que Tantawi foi substituído pelo então chefe militar da Inteligência, Abdel Latif El Sissi, o cargo de Anan ficou nas mãos de Mohamed El Assar. Ambos podem estar liderando um grupo interno nas Forças Armadas oposto ao dos dois militares.

“Esta decisão foi parcial ou totalmente negociada com alguns membros do CSFA. Mais notavelmente, com o general al Sissi”, afirmou Omar Ashour, diretor de estudos sobre Oriente Médio na Universidade de Exeter ao The Guardian. “Mursi diz que ele consultou oficiais sobre as mudanças. Esse dado, se for verdadeiro, faz este movimento soar como um golpe de oficiais subalterno habilitado pelo presidente”, acrescenta o professor de Relações Internacionais, Juan Cole, em post no seu site.

Segundo Cole, as decisões de Mursi também podem indicar uma reação contra a possibilidade de um golpe contra a sua administração, liderada por Tantawi e que outros setores das Forças Armadas se opuseram. Desde a eleição de Mursi, a parcela da elite egípcia vinculada ao regime ditatorial de Mubarak exerce pressão contra seu governo, o que ganhou novas proporções recentemente.

Além de terem convocado um protesto massivo contra a Irmandade Muçulmana no dia 24 de agosto, estes setores afirmam à população que Mursi está impondo um regime islâmico no Egito. Um dia antes do anúncio do presidente, o governo confiscou todas as cópias da edição de sábado (11/08) do jornal al Dusur, que pedia à população para que apoiasse uma junta militar no poder em substituição ao presidente.

“O exemplar foi plantado por Tantawi como um pretexto para um movimento contra Mursi? Ou Mursi achou que fosse?”, questionou Cole. O jornalista egípcio Hesham Sallam acredita que uma parcela das Forças Armadas era contra o golpe e apoiou a reação de Mursi. “Al Assar e El Sissi lideraram um golpe contra Tantawi e Anan com a finalidade de prevenir um possível golpe”, afirmou ele.

Apesar das diferentes hipóteses, é necessário esperar os próximos acontecimentos para compreender o que, de fato, está acontecendo com a cena política no Egito.

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